Livro Man In The Music- Cap 2 -Thriller

“Eu amo criar mágica – unir algumas coisas que são tão incomuns, tão inesperadas, que deslumbram as pessoas. Algo à frente dos tempos. Cinco passos à frente do que as pessoas estão pensando. Assim, as pessoas veem isso e dizem ‘Uau, eu não estava esperando por isso.”

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LANÇADO: 30 de novembro de 1982
PRODUTOR: Quincy Jones
CONTRUBUIÇÕES NOTÁVEIS:
Rod Temperton (compondo/arranjando),
Bruce Swedien (engenheiro de gravação),
Matt Forger (engenheiro técnico),
Steve Porcaro (compondo/sintetizador),
David Paich (sintetizador),
Jeff Porcaro (bateria/ arranjos)
Greg Phillinganes (Keyboards/sintetizador),
Paulinho Da Costa (percussão),
N’dugu Chandler (bateria),
David Williams (guitarra),
Jerry Hey (cordas/instrumentos de sopro),
Paul McCartney (vocais),
Eddie Van Halen (guitarra),
Vincent Price (voz do rap)
SINGLES: “The Girl Is Mine”, “Billie Jean”, “Beat It, “Wanna Be Startin’ Something”, “Human Nature”, “P. Y. T.”, “Thriller”
ESTIMATIVA DE CÓPIAS VENDIDAS: 110 milhões

 

 

Thriller foi mais que apenas um álbum; foi uma massa cultural, um fenômeno multimídia, cujo alcance não teve paralelo, nem antes, nem agora. Ele marcou a chegada de um novo som, uma nova era da música e um novo tipo de pop star e pop álbum.
“No mundo de hoje, de declínio nas vendas e audiência fragmentada”, escreve o crítico musical Alan Light, “é quase impossível imaginar o quanto este álbum dominou e uniu culturas”.
No auge – 1982 a1984 – Thriller cruzou todas as barreiras imagináveis; ele chegou a jovens e velhos, negros e brancos, classe-média e pobre; ele conquistou fãs de rock tanto quanto de R&B; ele alcançou para além da América, a União Soviética, Europa, Ásia, África e todos os lugares.

O álbum em si contém apenas nove músicas.

Mas sete dessas nove se tornaram Top Ten hits, três se tornaram revolucionários vídeos musicais e uma delas, a mais significante performance pop desde a aparição dos Beatles no Ed Sullivan Show em 1964.
Além de ser o álbum mais vendido de todos os tempos – com recente estimativa apontando mais de 110 milhões – ele foi, talvez, a mais visualmente onipresente criação de uma iconografia que é, agora, irrevogavelmente tecida dentro da fábrica da música. As músicas sozinhas formaram o álbum de cruzamento final, fundindo elementos de R&B. disco, rock, funk, soul, world music, jazz e gospel, assim como elas expressam a tensão e paradoxos da psique conflituosa de Jackson.

Para muitos, Michael Jackson (e Thriller) definiram a cultura pop nos anos 80.

Para muitos, Michael Jackson (e Thriller) definiram a cultura pop nos anos 80.

Embora o apelido tenha vindo mais tarde, Thriller foi o álbum que, oficialmente, elevou Michael Jackson ao “King of Pop, Rock, e Soul.” No início da década ele era um talento em ascensão com um enormemente bem sucedido, mas ainda subestimado, primeiro álbum solo. Em 1984, ele era, sem dúvida, o maior artista do mundo. “Nós vivemos agora em um mundo de calda longa”, proclamou o crítico musical Tom Ewing. “Thriller foi a grande cabeça.”

1980 viu uma profunda transformação na América.

Sempre referida como “Década Eu”, foi uma década de conservadorismo político e ideológico: Reaganismo e crescimento de empresas, consumo de massa, shoppings e yuppies. “Você pode ter tudo isto!”, “Compre até você cair!” eram slogans comuns, enquanto o país transacionava da resseção ao boom.
Os anos oitenta anunciaram uma era de otimismo e patriotismo, mesmo que tenha presenciado o crescimento da AIDS e o desemprego.
Enquanto o lema oficial era “Diga Não”, às drogas, o uso de cocaína e, particularmente, crack alcançou proporções epidêmicas (o que levou ao aumento de crimes e violência de gangues). Ao mesmo tempo a tensão da Guerra Fria continuou quando Reagan lançou um revitalizado programa de defesa (apelidado Star Wars) para conter a União Soviética (apelidada de Império Demoníaco).

Mas havia outro lado dos anos oitenta.

Os comerciais e desenhos animados (Smurfs, Transformers, Alvin e os Esquilos), as comédias (The Cosby Show, Who’s The Boss?, Cheers) e filmes (E. T., Goonies, The Breakfast Club, De volta para o Futuro), os modismos (Rubik’s Club, Pac-Man, MTV) e tecnologias (TV a cabo, computadores, videogames) eram todos partes de uma explosão cultural pop, que foi tão compulsiva quanto unificadora.
Devido amplamente a esta caleidoscópica rede de experiências coletivas, há uma incomparável nostalgia pela década. Seu vasto conjunto de fenômenos culturais impregnou profundamente a vida e a memória das pessoas.
E, em destaque nessa colagem, estava Michael Jackson, a mais legal, mais suave, mais eletrizante estrela, desde Elvis Presley.

Quando Michael Jackson morreu, no verão de 2009, alguns observadores culturais viram a enorme efusão emocional como um luto coletivo pela década em si e a pela época que ela representou na vida das pessoas. De certo modo, isso foi muito similar à efusão emocional que se seguiu à morte de John Lennon e a associação disso aos anos 60.

Parte do legado de Thriller, portanto, é a conexão dele com um particular momento na história. Enquanto eterno, ele é tanto um produto da década, quanto ajudou a produzir a década, que, agora, ele representa. Para muitos, trata-se de experiências pessoais: assistir ao Moonwalk na Motawn 25 ou a première no vídeo Thriller na MTV, comparecer ao concerto Victory com amigos ou escutar “Beat It”, nos novos Walkamans ou boom box.
Essas memórias, para muitos, são tão importantes quanto a música em si.

Thriller foi lançado em meio a uma severa recessão tanto na indústria musical quanto nos Estados Unidos com um todo.
Em novembro de 1982, mês em que Thriller foi lançado, o desemprego teve a maior alta das quatro décadas (10.8 por cento), enquanto as gravadoras como a Epic, Atlantic, Capitol, Columbia e Warner Bross, todas demitiram empregados devido a pior venda de álbuns na história.

Assinando sob o selo da Epic, Michael Jackson e o time dele estavam bem conscientes desses desafios. “No final dos anos 70”, recorda o engenheiro musical Bruce Swedien, “eu escutei alguma pessoas dizer que gravações de música pop poderiam não sobreviver à atenção que pessoas jovens estavam dando às videoarcades e videogames domésticos”. Outros apontavam para fitas cassetes virgens, que permitia às pessoas compartilhar música e a gravá-las da rádio, de graça. Ainda, outros sentiam que a música estava, simplesmente, em uma calmaria criativa; se ela se tornasse mais atraente e excitante, as pessoas comprariam. Era, portanto, uma época não diferente do presente, quando mudanças ecnológicas, músicas formuladas e uma indústria musical lenta em se adaptar criava um pessimismo generalizado sobre os futuros prospectos.

“No Verão de 1982, porém, ninguém poderia ter imaginado tudo que Thriller iria conquistar.”

Apesar da recessão, no entanto, o momento, de muitas maneiras, estava pronto para um renascimento musical. A criação do vídeo musical ofereceu aos artistas uma nova plataforma para promover álbuns e se conectar com os fãs. Pelo meio da década, “Eu quero meu MTV” era uma usual frase, enquanto os jovens, por todo o país, se sintonizavam para ver o novo estilo e som. “Vídeos de rock estavam desencadeando uma revolução musical”, observou o Time em 1993. “Em ascensão e, talvez, irresistível, audiências para a principal música americana, dependem, até insistem, que cada música seja uma completa confrontação audiovisual.”

O início dos anos oitenta também viu tecnologias como o Sony Walkman, caixa de som e carro de som, rapidamente se integrarem à sociedade. Cada uma dessas mídias mudou o jeito que a música era ouvida e experimentada. Agora, ela era crescentemente portável, trazendo com isso uma incrível sensação de liberdade, privacidade e escolha.

Música poderia ser ouvida enquanto se trabalhava, dirigia ou em fones de ouvidos que bloqueavam pais. A introdução das fitas cassetes (que venderam mais que álbuns em 1983) e, logo depois, CDs (colocados no supermercado, incidentalmente, no ano que Thriller foi lançado), igualmente, aumentaram a portabilidade, funcionalidade e desempenho do som.

Os avanços tecnológicos, é claro, também alcançaram a forma como a música era feita. No estúdio, sintetizadores substituíram, amplamente, instrumentos tradicionais, criando uma dramática mudança no som (O eventual uso de sintetizadores por Van Halen nas músicas dele foi visto por puristas do rock como uma blasfêmia, quase tanto quanto Bob Dylan plugado em uma guitarra elétrica).

Quando Thriller foi lançado em 1982, disco estava em decadência, enquanto sintetizadores pop, a Nova Onda, e “cabelo comprido”, rock, se enraizaram. Em 1983, Time chamou esse indefinido gênero musical de “Nova Música”: “uma diversa, mas irresistível mistura de sons… uma combinação, do soul, rock, reggae e disco colocados em uma sintetizada batida whipcrack.” Hi Infidelity, do REO Speedwagon, tornou-se o álbum mais vendido de 1981 e outros grupos de base rock balada, como Survivor, Journey e Chicago se juntaram a ela nos catálogos. Lionel Richie, Hall and Oates, Cindy Lauper e Billy Joel gozavam de imensa popularidade na América, enquanto bandas pop britânicas, Duran Duran e Depeche Mode foram introduzidas no “Novo Movimento” romântico.

Foi Thriller, no entanto, que realmente abriu as comportas para a música popular nos anos oitenta. “Para uma indústria de discos presa na fronteira entre as ruinas do punk e a chique região de sintetizadores pop”, escreveu Jay Cocks, do Time, em 1982: “Thriller foi uma completa restauração da confiança, um rejuvenescimento. O efeito dele nos ouvintes, especialmente os jovens, foi mais perto de uma revelação. Thriller trouxe a música negra de volta às grandes rádios, de onde ela tinha sido efetivamente banida, depois que o ‘restritivo formato especial programado’ foi introduzido em meados dos anos setenta. Os ouvintes poderiam colocar mais carbonação no pop e cortar a dieta de hevy-metal deles com uma dose do mais animado soul por ai.”

Na verdade, com Jackson liderando o caminho, 1983 e 1984 tornaram-se anos que foram um divisor de águas na história da música popular. Esses anos viram uma integração da música negra-e-branca nunca vista antes (liderada por “Beat It”). Esses anos viram a ascensão de Prince e Madonna, dois superstars que se juntariam a Jackson como definição de ícones dos anos oitenta. E viram o nascimento de uma nova geração de rock convincente: R.E.M. lançou Murmur, U2 lançou Sunday Blood Sunday, Bruce Sprigteen lançou Born in the U. S. A., e The Police lançou Synchronicity (o qual incluiu o single mais vendido de 1983, “Every Breath You Take”).

Em dois anos, a indústria da música tinha passado da recessão para a explosão. “Depois de quatro anos de queda nas vendas e sons estagnados”, escreveu J. D. Reed, em 1983, “a indústria da música pop está, mais uma vez, experimentando um acolhimento artístico e uma bonança financeira, que está fazendo desta a mais importante temporada do rock ‘n’ roll da década”. Na verdade, por 1984, o número de álbuns com certificado ouro foi mais que vinte e cinco por cento maior, enquanto a Epic celebrava um crescimento de quinhentos por cento em lucros.

“Não há dúvidas de que Thriller foi a força guiadora por trás da mais quente extensão na história da Epic”, V. P. Dan Beck disse. Não foi, é claro, a única força. Mas não há dúvidas, como notou o engenheiro musical Matt Forger, “a qualidade de [Thriller] inspirou muitas pessoas na indústria da música… As pessoas foram revitalizadas na crença de que música poderia alcançar ótimos resultados”.

No verão de 1982, porém, ninguém poderia imaginar tudo que Thriller iria realizar. Na verdade, as pessoas sempre se esquecem de que antes que Michael Jackson estivesse à altura do sucesso de Thriller, com todo o álbum novo, ele esteve à altura de Off The Wall. Com aproximadamente dez milhões de álbuns vendidos, em 1982, e quatro top ten hitz, não foi uma tarefa fácil. Quase todos, exceto Jackson, pensavam que isso não era possível. “Em geral, gravadoras nunca acreditam que um álbum novo será considerado melhor que o último que você fez”, Jackson escreveu mais tarde. “Eles pensam que você teve sorte da última vez ou que o número que você vendeu da última vez é o tamanho de seu público”. Até os colegas de Jackson tentaram temperar as expectativas, lembrando Jackson de que eles estavam no meio da recessão e que a indústria musical tinha declinado desde Off The Wall.

“Eu me lembro de estar no estúdio com Quincy Jones e Rod Temperton, enquanto estávamos trabalhando em Thriller”, Jackson recordou. “Um deles me perguntou, ‘E se este álbum não fizer tanto sucesso quanto Off The Wall fez, você ficará desapontado?’ Eu me lembro se ficar chateado, magoado que esta pergunta tivesse surgido. Eu disse a eles que Thriller seria melhor que Off The Wall. Eu admiti que eu queria que esse álbum fosse o mais vendido de todos os tempos. Eles começaram a rir. Aparentemente, era uma coisa irreal para querer. Houve momentos durante o projeto de Thriller em que eu me tornei sentimental e chateado por que eu não conseguia que as pessoas que trabalhavam comigo vissem o que eu via. Isso ainda acontece comigo às vezes. Frequentemente, as pessoas apenas não veem que eu vejo.”

O que Jackson previa com Thriller era muito mais que números. Ele queria um álbum que “impressionasse as pessoas”. Ele queria que surpreendesse, seduzisse, revigorasse e inspirasse. Ele queria que todas as músicas fossem “um grande sucesso”. Para o Jackson de vinte e quatro anos de idade, a fórmula era simples: se ele fizesse um ótimo álbum, as pessoas o comprariam.

Para esse fim, Jackson e Quincy Jones remontaram o Time- A de Off The Wall, incluindo Rod Temperton e Bruce Swedien, talentoso como Jackson era, Thriller, como todos os álbuns dele, foi um esforço colaborativo de um dedicado e dinâmico grupo. O trio de Jones, Swedien e Temperton não era apenas de pessoas enormemente profissionais, mas também amigos próximos que tinham extremo respeito pelo que cada um colocava na mesa. Como produtor, Jones supervisionava o projeto e produção, ajudando a selecionar músicas e estimulando toda a criatividade que Jackson possuía. Temperton era um compositor que escrevia demos adaptadas especificamente para Jackson (tanto em conteúdo quanto em ritmo), mas também aberto e flexível o bastante para adaptá-las se algo não estivesse funcionando. Como engenheiro musical, Swedien era um mágico sonoro, que maximizava a qualidade e enriquecia os sons de cada música. Significativamente, ainda que todos esses homens fossem décadas mais velhos que Jackson e enormemente talentosos no ramo deles, eles tinham total respeito pelo Michael Jackson de vinte e quatro anos. Eles sabiam que era a arte dele que dava ignição a todo o projeto e foram completamente dedicados em efetivar a visão criativa dele até à plenitude.

Para Thriller houve também outra importante adição ao Time-A: Matt Forger. Forger tinha começado a trabalhar com Quincy Jones e Bruce Swedien em um par de projetos anteriores deles, incluindo o autointitulado álbum de Donna Summer, em 1982. Em Thriller, ele era um engenheiro técnico, o que significa que ele era responsável por coordenar todo o complexo estúdio de tecnologia que eles estavam usando, o que era, provavelmente, o “ápice da gravação analógica”. Como muitos outros naquele tempo, Forger e Swedien estavam trabalhando com twenty-for-track analógico, o que ainda era a última geração em tecnologia de gravação. A diferença chave, porém, era como eles estavam usando isso. Quando mais faixas do que poderiam encaixar eram gravadas, eles sincronizariam múltiplos twenty-four-tracks analógicos juntos (esse método revolucionário foi nomeado de Acusonic Recording Process nas notas finais do álbum).

Para cada potencial música de Thriller, então, Forger, Swedien e Jones trabalhavam no estúdio A em Westlake Audio, em Holywood, o que geraria múltiplas gravações com diferentes seções – uma parte de sintetizador, uma parte de instrumentos de sopro, uma parte de cordas, etc. Sintetizadores, naquele tempo, ainda eram rudimentares. (Quincy Jones sempre dizia que gravar com sintetizadores era como “pintar 747s com um cotonete”) de qualquer forma, todos esses diferentes sons sintetizados e partes instrumentais foram colocados em camadas para textura em pré-mixagem. “Quincy queria que os arranjos dele e as gravações dele fossem espessas e exuberantes”, diz Forger. “Ele ama criar estas texturas e cores; e o jeito que ele as cria é colocando em camadas sons que são, às vezes, similares, às vezes, diferentes. Mas quando eles combinam, criam uma característica única.”

Quincy Jones tinha um grande repositório de onde desenhar. Ele não apenas tinha trabalhado com inúmeras lendas do Jazz americano, mas também estudou composição em Paris com lendas como Nadia Boulanger e Olivier Messiaen. Depois de Off The Wall e Thriller, quando outros na indústria escutaram a riqueza e vibração do álbum de Michael Jackson, tentaram imitar aquela textura, simplesmente empilhando partes. “Havia uma má interpretação”, diz Forger, “que ‘Oh, se eu tocar a mesma parte de guitarra seis vezes, ficará espesso e rico’”. Na verdade, o resultado era, frequentemente, mole e superproduzido. “Nós não usamos todas essas faixas apenas para gravar de novo e de novo”, diz Forger. “Nós usamos para que Quincy possa colocar em camadas diferentes caracteres de sons juntos, muito estrategicamente, assim, a textura que é criada tem esta riqueza e profundidade.” Thriller também transpira um calor natural que frequentemente falta em musicas digitalmente produzidas. Swedien atribui parte desse calor à mesa de mixagem dele, projetada por Dave Harrison. “Eu escutei algo na maravilhosa série de mesa de mixagem musical 3232c dele, que eu nunca mais escutei. Talvez se deva, em parte, a simplicidade do caminho do sinal. O equalizador dessa calorosa mesa de som é legendário.”

Frequentemente é dito que grupos com os Beach Boys e os Beatles foram os primeiros a usar o estúdio como instrumento. “O que nós fizemos em Thriller”, diz Forger, “foi a extensão disso. Nós fomos capazes de transformar a tecnologia e esticá-la a tal alcance que fomos capazes de fazer a tecnologia se adaptar a qualquer coisa que a criatividade de Michael e Quincy quisesse realizar”. (Interessantemente, houve um simbólico passar de tocha, quando o produtor dos Beatles , George Martin, e o engenheiro de gravação Geoff Emerick encontraram com Quincy Jones e Bruce Swedien e Matt Forger para gravar o dueto entre Jackson e McCarteney, “The Girls Is Mine”) Para Jackson, como com os Beatles, o estúdio tecnológico sempre seguiu a liderança da música. “É tudo sobre conteúdo emocional. Não apenas o que eles escutam, mas o que eles sentem. Este é o poder da música.”

Esta emocional profundidade e inovação sonora eram as metas, quando o trabalho começou em Thriller no Westlake Studio. “Isso arrepiava você”, Quincy Jones sempre diz. E por todos os envolvidos com o projeto, houve inúmeros momento de “arrepios”. Cada vez que Jackson aparecia com outra demo, em que ele tinha trabalhado no estúdio doméstico ou no gravador dele, os colaboradores dele ficavam maravilhados. De acordo com Quincy Jones, Jackson estava “escrevendo música como uma maquina”, durante esse período. Ele tinha começado a compor novas músicas assim que Off The Wall foi concluído. Na verdade, a primeira faixa de Thriller, “Wanna Be Startin’ Somethin’”, tinha sido escrita e gravada durante as sessões de Off The Wall, no estúdio doméstico de Jackson, mas ele decidiu segurá-la. Durantes os dois anos seguintes, ele continuou aparecendo com faixas novas após faixas novas, muitas das quais nunca fizeram parte da trilha sonora do álbum. Porque ele não estava treinado em escrever a música no papel, ele a ditava para uma fita, inventando batidas e ritmos, imitando instrumentos e cantarolando melodias. Assim, ele a desenvolveria ainda mais no estúdio, às vezes, com músicos e engenheiros ou, às vezes, com a assistência das irmãs e irmãos dele. Escutar as demos daquele período é fascinante. Qualquer errônea concepção de que Jackson era simplesmente um “cantor” é, rapidamente, dissipada. Quando músicas como “Billie Jean” e “Beat It” foram feitas no Westlake, elas já estavam completamente compostas (e parcialmente produzidas) por Jackson.

Jackson com Quincy Jones, em 1984, no Grammy Awards, quando ele ganhou um recorde de oito Grammys.

Jackson com Quincy Jones, em 1984, no Grammy Awards, quando ele ganhou um recorde de oito Grammys.

 

Enquanto Jackson estava criando o próprio material, Quincy Jones examinou aproximadamente seiscentas músicas potenciais e ideias musicais que poderiam funcionar para o álbum. Ele se referia a esse processo como “Palaroids”. Cada música era examinada rapidamente para ver se continha qualidades – tempo, chave e espírito – que combinaria com as habilidades de Jackson e a visão do álbum. As melhores disso eram trazidas para o estúdio e testadas em Jackson. Rod Temperton escreveu mais de trinta potenciais músicas para Thriller, “com completas linhas de baixo, as contrafaixas e tudo, gravaram [além disso,]… de dez a vinte e cinco títulos alternativos para cada música, com os começos dos esquemas das letras”. De acordo com Swedien, quando Jackson recebia as músicas, ele iria para casa e “ficaria acordado a noite toda e memorizava cada uma das demos dele”, assim, ele “nunca teve um pedaço de papel na frente dele” no estúdio. Das mais de trinta músicas de Temperton, muitas das quais poderiam ter sido o principal single de outros artistas, apenas três – “Baby Be Mine”, “The Lady In My Life”, e a faixa título – fez o corte final.

“O principal trabalho do produtor é encontrar as canções certas”, Quincy Jones explicou. “Antes de nós examinarmos todas aquelas músicas e tecê-las [nós] voltamos, então, a examinar as nove canções principais e tiramos aquelas que você considera as quatro mais fracas e tentamos substituir pelas quatro mais fortes que tudo o mais no álbum. Isso fez o eixo virar completamente. Assim, nós tiramos algumas músicas ótimas, músicas realmente boas. Mas nós as substituímos por ‘The Lady in My Life’, ‘Pretty Young Thing’, ‘Human nature’ e ‘Beat It’.”

Na primavera de 1982, o álbum começou, gradualmente, a ser lapidado. As primeiras faixas – “Wanna Be Startin’ Somethin’”, “Baby Be Mine” e “The Girls Is Mine”, estavam quase completamente prontas por essa época. A última música gravada por Jackson foi a primeira gravada no estúdio doméstico dele. Ele mais tarde trouxe a demo para o rancho de Paul e Linda McCartney em Tucson, Arizona. “Aquela foi uma noite muito mágica”, recorda o tecladista David Paich. “Entre tomadas eu, [o guitarristas] Lukather, [o baterista] Jeff Porcaro estávamos jamming… [com] Paul McCartney e Michael Jackson, cantando todas aquela músicas de Stevie Wonder.” A faixa foi completamente finalizada no Westlake Studios. “The Girls Is Mine”, no entanto, era fortemente indicativa do material que estava por vir.

A inspiração para a obra prima de Jackson, “Billie Jean”, veio no final de 1981. Em uma demo que Jackson gravou no estúdio dele em Hayvenhurst, alguém pode escutar como ela já estava concretizada naquele ponto. No entanto, ele e o Time-A, meticulosamente, trabalharam em todos os detalhes dela por todos os vários meses seguintes. Enquanto cerca de metade das músicas tinha sido selecionada e gravada pelo fim do verão, porém, muito trabalho ainda havia. Devido a inúmeras distrações, incluindo Jackson terminando o storybook do E.T o Extra Terrestre, para Steven Spielberg, o volume de gravações para Thriller não começou, diligentemente, até setembro de 1982. Restou apenas oito semanas para terminar o álbum no prazo.

Insatisfeito com a tentativa da faixa título, “Starlight”, Jones desafiou Temperton a vir com algo novo. “Michael já tinha escrito músicas fantásticas para o álbum, as quais, ele sabia, seriam a base do álbum”, recorda Temperton. “[Starlight]” não encontrou a química e a atmosfera de títulos fortes como ‘Billie Jean’ ou ‘Startin’ Somethin’,… [Então] eu fui para casa e escrevi de 200 a 300 títulos, com o favorito sendo ‘Midnight Man’, então, fui para cama. Pela manhã, eu acordei e disse esta palavra: “Thriller”.

Jackson e Jones amaram o novo título e conceito. Isso tornou o álbum mais ousado e mais excitante. Jones, rapidamente, alistou o legendário ator Vicent Price para fazer o rap falado da faixa título. Price o fez em apenas duas semanas. As coisas pareciam estar se encaixando. Como Quincy colocou, não havia tempo para “paralisar para analisar”.

Por esse tempo, Jones também descobriu uma demo da magnifica balada “Human Nature”. Steve Porcaro e John Bettis, do popular grupo musical Toto, estiveram enviando potenciais demos a Jackson. Um dia, enquanto uma das fitas deles estava rodando, Jones escutou uma anterior versão instrumental da música. Ele imediatamente se apaixonou por ela e trouxe a música para Jackson. “Ele e eu concordamos que a música tinha a mais bela melodia que tínhamos escutado há muito tempo”, recorda Jackson. A música substituiu “Carroussel” na trilha sonora final.

Porém, Jones sentia que uma faixa estava faltando. Ele queria algo com espírito rock, algo para realmente colocar o álbum no topo. Por semanas, ele importunou Jackson sobre vir com algo, desafiando-o a compor alguma coisa similar, mas melhor, que o hit do Knack, “My Sharona”. Jackson tinha algo em que ele estava trabalhando, mas estava, inicialmente, relutante em apresentá-la. “Eu gosto das minhas músicas”, ele refletiu, “mas inicialmente eu fico tímido de tocá-las para as pessoas, porque eu tenho medo de que elas não gostem das músicas e isso é uma experiência dolorosa. Ele finalmente me convenceu a deixar que ele escutasse o que eu tinha. Eu trouxe ‘Beat It’ e toquei para ele e ele ficou louco. Eu me senti no topo do mundo”.

Mais tarde, de acordo com o mito, enquanto gravavam a música no estúdio, um dos alto falantes explodiu em chamas. Com a inclusão de “Beat It”, a trilha sonora de Thriller estava completa. Contudo, Jackson, Jones e companhia trabalharam até o último minuto para dar os toques finais. “Nós fizemos a mixagem, correções e overdubs até às nove da manhã do prazo de entrega para a cópia de referência”, lembra-se Jones. “Nós tínhamos três estúdios funcionando ao mesmo tempo. Nós colocamos os toques finais nos vocais de Michael em ‘Billie Jean’… Eu coloquei Eddie Van Halen em outro pequeno estúdio com dois enormes alto-falantes de Gibson e dois engradados de seis de cerveja para fazer o clássico solo de guitarra dele, montando a linha de baixo para ‘Beat It’, com Greg no mini Moog… Enquanto isso, eu levei Michael para a minha sala, deitei-o no sofá do meu escritório e o cobri com um cobertor para um cochilo de três horas, às nove da manhã. Às doze em ponto, ele tinha que voltar para o teste de prensagem que estava saindo para o mundo.”

Todos estavam ansiosos para escutar o produto final. Finalmente, depois de vários meses furacões planejando, criando, ensaiando, gravando e lapidando, o álbum estava pronto. Todos se reuniram no estúdio para escutar: Jackson, Jones, Temperton, Swedien e os empresários de Michael, Fredy DeMan e Ron Weisner. Era o momento que eles estavam esperando.

“Foi um desastre”, Jones recorda. “Depois de todas as ótimas músicas e ótimas performances e ótimas mixagens e um monte de ótimos sons, nós tínhamos uma porcaria sonora de 24 quilates. Houve um silêncio total no estúdio. Um a um, nós rastejamos pelo hall, em busca de alguma privacidade: mais silêncio garantido.”

Lágrimas fluíram pelas faces de Jackson. “Eu me senti devastado”, ele se lembra. “Toda aquela emoção reprimida veio à tona. Eu fiquei irado e deixei o recinto. Eu disse para meu pessoal: ‘É isto, nós não vamos lançar isto. Ligue para CBS e diga a eles que não terão este álbum. Não vamos lançá-lo. ’ Porque eu sabia que estava errado. Se nós não tivéssemos parado e examinado o que nós estávamos fazendo, o álbum teria sido terrível. Ele nunca deveria ser lançado do jeito que estava, porque, como nós aprendemos, você pode arruinar um ótimo álbum na mixagem. Isso é como pegar um ótimo filme e arruiná-lo na edição.”

 Jackson e a lenda Beatle, Paul McCartney, posam para umafoto, durante o intervalo nas gravações de “The Girls Is Mine.”

Jackson e a lenda Beatle, Paul McCartney, posam para uma
foto, durante o intervalo nas gravações de “The Girls Is Mine.”

 

Jones sabia qual era o problema: “Nós colocamos material de mais no álbum… Você precisa de espaçosas estrias para fazer um som claro e forte. Se você aperta dentro de estreitas estrias, você tem som fraco. Nós tínhamos vinte e oito minutos de som de cada lado… Com vinil você tem que ser realista; tem que ser menos de dezenove minutos de música por lado… Bem lá no fundo, todos nós deveríamos saber isso desde quando estávamos trabalhando, mas escolhemos não lidar om a realidade em nossa fadiga e euforia musical.”

Por esta época, o primeiro single do álbum, “The Girls Is Mine”, já tinha sido lançado como single no rádio e subiu para o segundo lugar nos charts. O álbum deveria estar pronto dentro de um mês e Jackson e Jones estavam sentindo a ânsia da Epic. Enfim, eles conseguiram convencer os executivos de que um pouco mais de tempo era necessário.

Como recomendação de Quincy, todos tiraram dois dias de descanso para dar um passo para trás e clarear as mentes deles. Antes de retornar para remixar o álbum inteiro novamente em duas semanas. “Nós o colocamos em ponto morto nos bolsos”, Quincy recorda, “mixando uma música por dia”.

O resultado valeu a pena. Desta vez Jackson ficou satisfeito. “Quando estava acabado – boom – atingiu-nos em cheio”, Jackson se lembra. “A CBS pôde perceber a diferença, também… parecia muito bom quando terminamos. Eu estava tão excitado que eu não podia esperar para ser lançado.” Já era quase Dia de Ação de Graças e Thriller estava finalmente pronto para ser viabilizado.

O álbum chegou às lojas em todo o globo no dia 30 de novembro de 1982. “Desde o início”, escreveu Gail Mitchel da Billboard, “a Epic tentou fazer jus ao nome dela. A gravadora fez Thriller ser a primeira principal realização de lançamento no mundo inteiro simultaneamente, o primeiro álbum a ser trabalhado por cerca de dois anos, em vez dos usuais seis ou oito meses e o primeiro álbum a lançar sete singles para o rádio – mais que o dobro do número normal.” No entanto, enquanto Thriller vendeu bem no início, isso era mais uma crescente avalanche que uma sensação imediata.

A capa, apresentando o agora icônico retrato de um relaxado Jackson em um terno branco, simultaneamente projetando inocência e sofisticação. Como Off The Wall, estava tentando apresentar o cantor com um jovem, mas maduro, artista. Contudo, isso era claramente uma versão de Jackson diferente daquela que apareceu em Off The Wall. Tudo nele tinha sido polido e aperfeiçoado: a apresentação dele tinha sido impecavelmente esculpida, a pele caramelo dele radiante, o corpo inteiro dele brilhando com uma áurea de sobrenatural beleza. A GQ magazine disse que ele parecia um “icônico deus-sol relaxando depois do expediente.” Na verdade, como as canções de Thriller iriam estabelecer novas regras para a música, a capa simbolizava uma nova inter-racial, um transgênico ideal de beleza. A apresentação de Jackson era suave e feminina e nem um pouco estereotipado Caucasiano ou Africano. Ele representava uma nova androgenia que não apelava apenas para negros e brancos, mas também para povos asiáticos, latinos, meios orientais e indianos. A imagem, do álbum Thriller não ficou pendurada apenas em armários e nas paredes dos quartos por toda América, mas também pelo mundo todo. Essa nova imagem se alinhava com o álbum em si, o qual demoliu tradicionais gêneros e barreiras.

Thriller é um maravilhoso álbum pop”, escreveu o New York Times em 1982, “a última declaração de um dos maiores cantores da música popular hoje. Ele é como um sinal esperançoso que tivemos, apesar das barreiras destrutivas que brotam regularmente entre música branca e música negra – entre brancos, que nesta cultura pode ser violada mais uma vez”.

A icônica capa de Thriller, inteira, com um luminoso Michael Jackson, segurando um bebê tigre.

A icônica capa de Thriller, inteira, com um luminoso Michael Jackson, segurando um bebê tigre.

 

Ninguém iria adivinhar tal alcance e profundidade do álbum, no entanto, no primeiro single dele. Realizado um mês à frente do álbum, o dueto de Jackson com Paul McCartney, “The Girls Is Mine”, parecia, para muitos, tão doméstica e sentimental quanto à última balada de Lionel Ritchie. De acordo com Jackson, por causa do apelo internacional pelo dueto, eles não tiveram escolha a não ser “tirar isso do caminho”. “Quando você tem dois nomes fortes como estes juntos em uma música”, Jackson explicou, “isso tem que vir primeiro”. A música foi, na verdade, um grande hit, alcançando o segundo lugar na Billboard Hot 100, nos Estados Unidos, e recebendo ampla divulgação nas rádios. Porém, ela causou certa estranheza sobre se Jackson já estava em retrocesso do espirito inovador de Off The Wall. “De Prince a Marvin Gaye, de rap a Rick James, artistas negros têm incorporado, cada vez mais, temas maduros e aventureiros – cultura, sexo, políticas – dentro das músicas mais corajosas, viscerais”, escreveu a Rolling Stone na época. “Portanto, quando o primeiro single solo de Jackson, desde 1979, revelou-se uma balada açucarada com o refrão ‘Esta gracinha de garota é minha’, cantada com um domesticado Paul McCartney, parecia que o trem tinha deixado a estação sem ele.”

A preocupação, no entanto, não duraria muito. Quincy Jones chamava a música “red herring” deles. Seguindo “The Girl Is Mine”, veio “Billie Jean” e “Beat It”. Ambas as músicas escritas por Jackson estabeleceram o tom e a ambição do álbum e rapidamente subiram para o primeiro lugar nos charts. Na realidade, ao comando do empresário de Jackson, Frank DiLeo, Jackson lançou “Beat It” enquanto “Billie Jean” ainda estava como número um. “A CBS gritou: ‘Você está louco. Isso vai matar Billie Jean’”, recorda Jackson. “Mas Frank disse a eles para não se preocuparem, pois as duas músicas seriam número um e as duas ficariam no Top Ten ao mesmo tempo. Elas ficaram.”

Não demorou muito e Thriller, e Michael Jackson, explodiu de uma forma jamais vista antes ou depois. No curso de dois anos (1982-1984), Thriller passou um assombroso período de oitenta semanas no Top Ten nos Estados Unidos. Trinta e sete dessas semanas como número um. Das nove músicas, um recorde de sete se tornaram singles do Top Ten. O álbum continuaria para ganhar um recorde de oito Grammy Awards (um feito assombroso, particularmente quando poucas categorias existem) e a marca, sem precedentes, de dez American Music Awards. Ele se tornou número um em praticamente todos os países do mundo, com cada novo single, vídeo ou performance, Thriller continuava a voar das prateleiras, alguns momentos vendeu mais que um milhão de cópias por semana. “Em certo momento, Thriller parou de ser vendido como artigo de lazer – como uma revista, um brinquedo, ingressos para um filme de sucesso – e começou a ser vendido como um utensílio doméstico”, escreveu o biografo J. Randy Taraborrelli. Dentro de apenas um ano, Thriller vendeu vinde e dois milhões de cópias, mais que o dobro das vendas de David Bowie, The Police e Duran Duran combinados. Por 1984, apenas dois anos depois do lançamento, o Guinness World Records declarou Thriller como o álbum mais vendido da América e do mundo, um manto que ele, ainda hoje, ostenta.

Na verdade, enquanto a significância artística e cultural de Jackson em relação aos Beatles, e outras lendas da música, continuam a ser debatidas, um fato não pode ser negado: o alcance global de Michael Jackson é maior. Devido, em parte, à globalização e à tecnologia, a imagem, música e estilo dele, rapidamente, se espalharam pelo mundo. Thriller ressoou em países tão diversos quanto o Japão (onde ele ficou nos charts por sessenta e cinco semanas), África do Sul (onde se tornou o mais vendido do país, racialmente segregado, e na União Soviética (onde foi oficialmente banido, mas continuou a ser “trocado e valorizado”, em forma de cassetes clandestinos). A amplitude absolutamente transcendental do apelo de Jackson parece estar escrita em cada batida e melodia de Thriller. “O pulso da América e grande parte do resto do mundo move irregularmente”, observou Jay Cocks, do Times, em 1984, “batendo no ritmo das resistentes bases de ‘Billie Jean’, da área asfáltica de ‘Beat It’, o supremamente frio calafrio de ‘Thriller’”.

Na verdade, o fenômeno de Thriller não é apenas sobre as vendas musicais de Jackson, é toda uma cultural rede de imagens, sons e eventos, que se tronou indelével na vida dos anos oitenta: A clássica performance no Motawn 25”, que capturou a imaginação de uma geração; os inovadores vídeos musicais que revolucionaram o que era, então, uma insipiente forma de arte (e rede de TV); o acidente de queimadura, enquanto filmava um comercial da Pepsi,  invocou tal generalizada preocupação, que o presidente dos Estados Unidos escreveu a ele um cartão desejando melhoras. O uso de singulares marcas registradas: a luva única, o fedora, a jaqueta de couro vermelha, as calças pretas e meias brancas; os chutes, os giros, levantar na ponta dos pés; o moonwalk; as danças coreografadas; a face esculpida, os óculos escuros de aviador e Jehri curl. No início dos anos oitenta, onde quer que se olhasse, a presença de Jackson parecia ser encontrada em comerciais, vídeos, revistas, pôsteres, camisetas ou, até mesmo, em réplicas de brinquedo.

O Mundo simplesmente nunca testemunhou algo como Michael Jackson.

A personalidade fascinante e enigmática de Jackson apenas aumentou o apelo dele. Para fãs, ele parecia carregar uma áurea sobre ele, onde quer que ele fosse, como se caminhando diretamente para fora de um dos vídeos musicais dele, completamente fantasiado e à carácter. O efeito era surpreendente para aqueles que o viam em pessoa, sempre incitando pandemônios beirando à histeria. Somente a Beatlemania foi mais concentrada, pois Jackson era uma única pessoa, não quatro, e raramente visto em público.

Para o público e a mídia, diferentemente, o cantor era infinitamente intrigante. Ele era o tímido, infantil, recluso, que transformou a casa dele, em Encino, em uma miniatura da Disneyland; ele era o misterioso jovem homem que eletrizava audiências, mas raramente falava acima de um sussurro, quando recebia um prêmio. Ele era a sexualmente ambígua Testemunha de Jeová, cuja moral puritana estava em constante tensão com a dança passional e pulsante dele.

Talvez, um dos maiores feitos culturais de Jackson, no entanto, tenha sido quebrar as, ainda, onipresentes barreiras raciais. No início dos anos oitenta, artistas negros tiveram mais oportunidades que jamais antes, graças aos esforços de pioneiros como Chuck Berry, Little Richard, Ray Charles, Aretha Franklin, Sammy Davis Jr., James Brown, Jackie Wilson, Stevie Wonder a Marvin Gaye, entre outros. Contudo, quando Thriller foi lançado, em 1982, inúmeras paredes ainda existiam. Artistas negros sempre eram rotulados e lhes eram negado o completo reconhecimento e público dos contemporâneos brancos deles. Este “apartheid cultural” era algo sutil e, algumas vezes, não sutil. Alguém poderia, talvez, explicar algo arbitrário como uma recusa de uma capa de revista ou um Grammy Awards. Mas é mais difícil racionalizar deixar a música número um no país de fora da “principal” radio, porque ela é R&B (sempre usado como eufemismo para música negra). Ainda mais quando de uma extensão para justificar a recusa em transmitir vídeos de artistas negros na estação chamada Music Television (MTV), porque não era “rock” (sempre usado como eufemismo para música branca).

Jackson assediado do lado de fora do Madame Tussauds, em Londres. Em 1984, a Jackson mania estava no auge.


Jackson assediado do lado de fora do Madame Tussauds, em Londres. Em 1984, a Jackson mania estava no auge.

 

Michael Jackson e Quincy Jones entendiam profundamente essas realidades políticas. Depois que Off The Wall se tornou um dos álbuns mais aclamados criticamente e um dos mais vendidos, em anos (incluindo o primeiro álbum solo a produzir quatro Top hits), foi lhe negado um Grammy e uma capa da Rolling Stone.

A filosofia de Jackson para superar o racismo era simples: ele faria tudo que ele fazia tão bem, que isso simplesmente não poderia ser desprezado. “Quando Thriller veio, realmente mudou tudo”, observou Island Def Jam Chairman L. A. Reid. “Porque, de repente, música – pela primeiríssima vez –não tinha uma cor. Ele era muito bom para ser desprezado. Ele era muito bom para ser colocado dentro de qualquer caixa e isso não tinha cor. Portanto, se era rock ou se era pop ou se era R&B, qualquer coisa que isso fosse, Michael desafiou categorização com este álbum. E como resultado ele realmente quebrou as barreiras.”

Jackson também se recusou a ser encaixotado em rótulos. Ele desprezou o rótulo “R&B”, porque ele sentia que isso o limitava. “Eu não classifico música”, ele disse à revista Vibe, “Música é música. Eles mudaram a palavra R&B [para] rock ‘n’ roll. Isso sempre será [o mesmo].”

Na verdade, se Off The Wall não tinha enviado a mensagem, Thriller quebrou o megafone. Como poderiam as estações de rádio recusar um dueto apresentando um amado ex-Beatle e o nascente superstar Michael Jackson? Enquanto “The Girls Is Mine”, certamente, não era a melhor música do álbum, ela desafiou regras raciais por apresentar um homem negro e um homem branco disputando a mesma mulher na principal rádio. Isso, definitivamente, não poderia ser classificado com R&B.

Beat it” empurrou o dilema para ainda mais adiante. “O som de ‘Beat It’ era, simplesmente, chocante, tanto para os ouvintes de R&B quanto para os ouvintes de rock”, escreveu a Rolling Stone. A música era, inegavelmente, incrível, era um rock (embora um novo tipo de rock); e ela apresentava um dos mais famosos guitarristas do mundo, Eddie Van Halen. Muito antes do Run DMC e Aerosmith derrubarem as paredes com “Walk This Way”, Michael Jackson ajudou a demolir a longa segregação entre música branca e negra com “Beat It”.

Jackson não estava se curvando à audiência branca, tampouco, eles estavam dobrando e reinventando gêneros para promover a visão estética única dele. “Hoje nós fazemos coisas chamadas miscigenadas, certo?” Observa L.A. Reid. “Pega Linkin Park e Jay-Z e coloca junto e isso certamente é ímpar, mas não é incomum. Naquela época, Eddie Van Halen estava no topo da carreira dele e combinou perfeitamente com ‘Beat It’. Isso não parecia como um solo de guitarra sobre alguma faixa R&B. Foi muito orgânico. A ideia disso foi realmente incomum, mas o resultado absolutamente não era deslocado.”

Músicas híbridas como essas abriram as portas para faixas mais exóticas como a de raízes africanas “Wanna Be Startin’ Somethin’” e o ritmo sombrio e melancólico de “Billie Jean”. Antes de Michael Jackson, os frutos das inovações negras eram sempre colhidos por artistas brancos. Porém, a música e o estilo de Jackson eram tão dinâmicos e singulares, que eles, simplesmente, não podiam ser apropriados em nenhuma outra forma. Ninguém podia fazer o que ele fazia melhor e o mundo estava, finalmente, pronto para abraçar um artista de cor.

Talvez, a mais significante realização racial de Jackson tenha vindo com os vídeos. “A MTV era, sem dúvidas, o melhor exemplo de apartheid cultural nos Estados Unidos, [em 1982]”, observou o crítico musical Mark Anthony Neal. Enquanto as barreiras de cor não eram uma política oficial da companhia, era sabido que apenas tocar “rock” por todas as intenções e propósitos significa tocar apenas artistas brancos (o Washington Post chamou isso de “a sutil apartheid do pop”). “Se você tivesse aparecido com uma estação chamada RMTV (rock music television), então, você poderia fazer [a alegação de que isso não era sobre raça, mas gênero]” fundamentou Ed Lover, ex-coapresentador do revolucionário Yo! MTV Raps. “Mas se você está dizendo música [MTV se apresenta como Music Television], música é música. Se você mostrará vídeos musicais, mostre todos os vídeos musicais.” Disco, R&B, funk, rap e soul – todos os gêneros predominantemente afro-americanos – eram, consistentemente, banidos da rede a cabo de dois anos de idade. Rick James ficou furioso quando a MTV se recusou a passar o vídeo do primeiro hit dele, “Super Freak”, em 1981. Em 1983, David Bowie criticou a MTV pela racista política de exclusão da emissora.

 Jackson, fotografado aqui na Victory Tour, 1984,destruiu todas as barreiras – raciais e todas mais – com Thriller

Jackson, fotografado aqui na Victory Tour, 1984,
destruiu todas as barreiras – raciais e todas mais – com Thriller

 

Tal como as capas de revistas, Grammys e rádio, o plano de Michael Jackson para transpor as barreiras era, simplesmente, fazer algo tão bom que a MTV não poderia resistir. Quando ele viu o canal e a incipiente arte que havia lá, pela primeira vez, ele ficou fascinado, mas sentiu que não estava perto do potencial que tinha. “Naquela época”, ele escreveu mais tarde, “eu olharia para o que as pessoas estavam fazendo com vídeo e eu não pude entender por que tantos pareciam primitivos e fracos. Eu vi crianças assistindo a entediantes vídeos e aceitando-os, porque elas não tinham alternativas.” Na verdade, a maioria dos vídeos musicais, naquela época, era apresentada, simplesmente, como promos ou comerciais. Eles apresentavam, normalmente, algum tipo de montagem de imagens ou performances ao vivo. Jackson vislumbrou algo diferente: ele queria contar uma história. Para realmente entreter a audiência dele, para tratar o veículo transmissor como um “curta-metragem”, mais que um comercial.

A primeira oportunidade de Jackson para realizar essa visão veio com Billie Jean. Com um, então, exorbitante orçamente de $75.000, pago pela CBS, Jackson e o diretor Steve Baron criaram uma pequena obra prima. Havia os passos de dança, é claro: ficar de pé na ponta dos pés, giros e rodopios. Porém, foi a total transformação da cinematografia e o mistério da narrativa que realmente completou a inerente intriga da música. No vídeo, nós vemos um pensativo Jackson vagueando por um deserto pós-moderno e ruas assustadoramente vazias. Para todo lugar que ele ia, ele era perseguido por um paparazzi excessivamente ansioso, enquanto as lajes de concreto ascendiam debaixo dele. Na verdade, tudo que ele tocava era iluminado (incluindo um sem teto, cujos trapos foram transformados em um terno branco). Todo o vídeo passa com a estranheza de um sonho no qual cada detalhe pode ser alternadamente, absurdo e profundo. No final, o personagem de Jackson sobe as escadas do hotel e deita na cama com uma mulher (presumidamente, Billie Jean), o paparazzi bate uma foto, mas Jackson desaparece sob os lençóis. O perseguidor não fica com nada além da obsessão dele, enquanto, à audiência, é deixada a interpretação do significado disso.

A MTV, inicialmente, recusou-se a transmitir o vídeo, citando a política dela de apenas transmitir rock music. Porém, o presidente da CBS, Walter Yetnikoff, que tinha liberado uma enorme quantidade de dinheiro para o vídeo, além do interesse dele em promover o álbum Thriller, não aceitaria a recusa ao maior artista dele. “Eu disse à MTV: ‘Eu estou tirando tudo que eu tenho do ar, todos os nossos produtos’”, Yetnikoff recorda. “‘Eu não darei a vocês nem mais um vídeo. E eu irei ao público e contarei a eles sobre o fato de que vocês não querem tocar música de um cara negro. ’”

A MTV cedeu e, rapidamente, colocou Billie Jean em uma pesada rotação devido à demanda da audiência. “Certos executivos da MTV irão negar isso agora”, diz o advogado de anos de Jackson, John Branca, “mas este foi o caso em que Walter, absolutamente, teve que forçar a acontecer”. Com essa decisão, as paredes desmoronaram.

“Ele era o Jackie Robson da MTV” escreveu o crítico cultural Touré. Na verdade, Jackson não apenas abriu a porta para ele mesmo, mas também para toda uma geração de artista.

Depois do sucesso do vídeo de Billie Jean, Jackson subiu a aposta com Beat It. Para essa música, ele tinha um específico conceito em mente. Ele queria que a mensagem antiviolência dela fosse interpretada literalmente, mas ele não queria ser suave ou didático. Para executar a visão dele, ele contratou o talentoso diretor de comercial Bob Giraldi e o brilhante coreógrafo Michael Peters (cuja formação era em balé e dança moderna). Ele também insistiu em filmar os vídeos nas ruas de Los Angeles, em vez de um estúdio. Quando a CBS se recusou a pagar pelo orçamento, Jackson disponibilizou o dinheiro, ele mesmo.

O resultado foi o mais revolucionário e influente vídeo musical que a MTV já tinha transmitido até aquele momento. Inspirado, parcialmente, pelo musical da Broadway, West Side Story, Beat It apresentou tanto graça quanto coragem. A coreografia de grupo, com Jackson liderando na elétrica jaqueta vermelha dele, tornou-se o projeto para inúmeros vídeos musicais que viriam. “Os vídeos dele fazem uma sensação em conjunto com a ascensão do vídeo em uma forma de arte”, observa Quincy Jones. “Ele ajudou a definir o vídeo musical em termos de estilo, agrupamento de dança e performances globais.”

Filmado nas ruas do infame Skid Row, de Los Angeles, e apresentando mais de oitenta membros de gangue, Beat It foi abordado com um nível de realismo e ambição que o fez completamente diferente de outros vídeos musicais da era. O produto final foi original e provocativo, inovador e excitante. A MTV tocou o vídeo ainda mais que Billie Jean, pois os índices de audiência continuaram a subir. O curta-metragem continuaria a ganhar inúmeros prêmio e honras, incluindo o Melhor Vídeo Musical de Todos os Tempos, pelos leitores da Rolling Stones e críticos. Ele, também, colocou o último prego no caixão da relutância da MTV em tocar artistas negros. Michael Jackson provou, definitivamente, que música não tem fronteiras nem cor.

E, então, veio o vídeo para “Thriller”. Desde o começo ele foi tratado mais como um longa-metragem, com um orçamento, sem precedentes, de $500.000 (um número que iria, finalmente, inflar para quase 1 milhão). Jackson atraiu o diretor de comédias de horror, John Landis (melhor conhecido, então, por Um Lobisomem Americano em Londres) para dirigir o vídeo. Naquele tempo, Landis não sabia muito sobre Michael Jackson, mas decidiu que o projeto soava intrigante o bastante para ele embarcar. Uma vez que o trabalho começou, porém, ele logo percebeu que ele era parte de um enorme fenômeno. “Foi maravilhoso trabalhar com Michael Jackson, naquela época”, Landis recorda, “porque era o auge – era como trabalhar com os Beatles no auge da Beatlemania ou algo assim, era extraordinário estar com ele, porque ele era absurdamente famoso. Era como estar com Jesus, eu costumava dizer, porque as pessoas normalmente ficavam histéricas quando o viam”.

O ganhador do Academy-Awardas de maquiagem artística, Rick Baker, foi trazido para elaborar a protética transformação de Jackson e o os coadjuvantes em zumbis lobisomens e monstros. Finalmente, Michael Peters (que também tinha participado de Beat It) trabalhou com Jackson na coreografia.

Jackson estava excitado por fazer filme de novo. Havia passado aproximadamente cinco anos desde o papel deles em The Wiz. Como aquele filme, Thriller permitiu que ele se escondesse por trás de uma máscara, metamorfoseasse-se por meio de maquiagem e fantasia e se tornasse absorto dentro de personagens diferentes. “Eu amo muito isso”, ele disse em uma entrevista em 1983. “O escapismo disso. A diversão. É basicamente se transformar em outra coisa, outra pessoa. Especialmente quando você realmente acredita nisso e não é como se estivesse atuando.” Jackson foi questionado sobre se não era assustador acreditar totalmente nisso. “Não, é o que eu amo nisso”, ele retrucou. “Eu realmente amo esquecer… eu adoro pular na vida de outras pessoas e explorar.”

Na narrativa de Thriller, Jackson faz vários personagens, começando com um clássico adolescente dos anos 50, em um encontro com a namorada dele (interpretada pela modelo Ola Ray). A verdadeira identidade dele, no entanto, está em constante fluxo.

“Eu não sou como os outros rapazes”, Jackson confessa pra a   namorada dele no começo.

“Claro que não”, ela responde. “Por isso é que eu amo você.”

Não, eu quero dizer que sou diferente”, ele reafirma.

A fala, é claro, é carregada com a mais profunda implicação para a audiência, que é forçada a confrontar as “diferenças” de Jackson, a anormalidade dele. O que faz ele “não ser como outros rapazes”? No filme, Jackson começa a se transformar em um lobisomem. Ele faz caretas de dor e começa a se convulsionar, enquanto a evolução acontece. De repente, diante dos olhos da, antes, apaixonada garota, ele é um monstro. Ele olha para ela com olhos demoníacos e ela grita e corre.

Pelo resto do vídeo, as mudanças no personagem de Jackson oscilam do protetivo e brincalhão namorado ao medonho e assustador monstro.  Todo o tempo o perigo é iminente, toda vez que a garota (e a audiência) parece mais certa da identidade dele, ela muda de novo. Exatamente quando o lobisomem Jackson a ataca, eles, de repente, estão assistindo a uma cena em um cinema. “É apenas um filme”, ele diz a ela.

Uma  foto de Jackson no cemitério no set de Thriller.

Uma foto de Jackson no cemitério no set de Thriller.

 

Quando o casal deixa o cinema, eles começam a famosa caminhada deles por uma rua deserta. Jackson, vestido em uma vintage jaqueta de couro vermelha e calças vermelhas, canta a introdução da letra, enquanto ele, paquerando, circula a namorada cativa. Logo que o casal chega a um cemitério, a música desvanece e se tornar mais sinistra. Fantasmas e zumbis são vistos saindo da névoa e emergindo das covas. Jackson e a namorada dele se abraçam com força, enquanto os monstros se aproximam por todos os lados. A namorada de Jackson se volta para ele em busca de proteção, mas não é mais ele. Ele tinha se transformado novamente. Ele era um dos zumbis.

A dança coreografada que se segue é o Michael Jackson que coloca o mundo sob feitiço. Isso é uma daqueles momentos de cultura pop coletiva, que muitas pessoas se lembram de ver e de experimentar pela primeira vez. Michael Jackson com toda a envergadura dele, ladeado de zumbis, batendo o pé, sacudindo, girando, cantando “This is Thriller!”

Na cena final, a garota foge para uma mansão abandonada. Onde ela se esconde em uma sala. Os zumbis começam a entrar pelas paredes, as portas, o chão. Quando eles estão prestes a pegá-la, porém, o pesadelo acaba. Nós estamos de volta em um seguro ambiente de uma sala de estar. “Qual é o problema?” Jackson diz inocentemente. “Venha, eu a levarei para casa.” Enquanto ele a leva para fora, ele se volta mais uma vez para revelar olhos amarelos e nefasto sorriso.

O vídeo Thriller funcionou em diversos níveis. Na superfície, ele estava reinventando o entretenimento. O curta-metragem de quatorze minutos tinha tudo isto: humor, suspense, excitamento e, é claro, dança brilhante. Mas escondido sob o brilho, área, e o gosto de Hollywood, o vídeo, habilmente, se aprofunda, levantando questões sobre nossa fascinação por “horror”, assim como nosso desejo por resoluções purgatórias (e sempre formuladas). O crítico cultural Karbena Mercer reconheceu que o vídeo é essencialmente uma estendida paródia do gênero terror, um filme autoconsciente dentro de um filme que provoca muitos dos atrativos dele, enquanto explora questões como identidade, anormalidade e uma inquietante justaposição de realidade e fantasia.
Por fim, a história – e a “verdadeira” identidade de Jackson – permanece sem solução, suspenso em tensão. Quem é ele? O inocente revivido namorado mítico dos anos cinquenta, o aterrorizante lobisomem, o garoto da porta ao lado, dos descolados anos oitenta, o zumbi, o pop star? Todos esses de uma vez? O que pode ser considerado “real”? O que é projetado, imaginado ou construído pela audiência? Em outras palavras, o que isso nos diz sobre nós mesmo?

A resposta a Thriller foi esmagadora. Ele estreou no AVCO Theatre, em Los Angeles, em novembro de 1983, onde esgotou todas as noites por duas semanas.
“Eu tenho estado em Oscars, eu tenho estado no BAFTAs”, disse o diretor John Landis, “eu tenho estado em Emmys, eu tenho estado no Golden Globs e eu nunca estive em um lugar como esta première. Foi incrível. Havia todos, desde Diana Ross e Warren Beatty a Prince. Foi louco. [Nós] fomos ovacionados de pé e toda essa coisa e eles gritavam ‘Bis, bis’… Então, Eddie Murphy se levantou e gritou ‘Mostre a porra de novo! ’ Daí, eles se sentaram e assistiram a Thriller novamente. Por que não? Era simplesmente maravilhoso”.

Logo depois da première, o vídeo foi para Showtime, MTV e outros canais, nos quais foi transmitido, repetidamente, para audiências cativas. Assistir a Thriller era um evento cultural para a juventude dos anos oitenta. “Se você fosse jovem naquela época”, escreveu Mike Celizic, “o vídeo Thriller e a música de Jackson tornaram-se parte do seu DNA. Mas mesmo que você fosse mais velho, você sabia que, quando você ligasse a MTV e visse a performance de tirar o fôlego de Jackson, você sabia que estava vendo algo nunca visto antes”. Na verdade, nenhum outro vídeo musical, antes ou depois, gerou tanta antecipação e excitamento. Milhões de pessoas, vividamente, lembram-se de se sentar com os amigos ou a família e assistir ao vídeo pela primeira vez. Depois que eles o viam uma vez, eles queriam vê-lo de novo.

Jackson cercado pelos zumbis e fantasmas. Uma devota Testemunha de Jeová, naquela época, Jackson foi quase pressionado a jogar fora o vídeo com tema de horror, antes que o advogado dele, John Branca, o convencer a adicionar uma retratação no começo.

Jackson cercado pelos zumbis e fantasmas. Uma devota Testemunha de Jeová, naquela época, Jackson foi quase pressionado a jogar fora o vídeo com tema de horror, antes que o advogado dele, John Branca, o convencer a adicionar uma retratação no começo.

 

“Pela primeira vez na história da MTV, nós vimos grandes momentos de picos na classificação”, diz o ex-diretor de programação da MTV, Les Garland. “Nós ficamos, em média, naqueles dias, com uma audiência de 1.2, vinte e quatro horas, mas toda vez que nós tocávamos Thriller, nós saltávamos para 8 ou 10. Nós aprendemos muito sobre programação.”

Para compensar o enorme custo de produção do curta-metragem, o advogado de Jackson, John Branca, elaborou um acordo de $1.2 milhões de dólares com Showtime para um documentário “making of” – “o primeiro documentário making of do tipo.” O VHS The Making of Thriller foi subsequentemente lançado pela Vestro Video, vendendo a quantia assombrosa de 500 mil cópias no primeiro mês. O VHS The Making of Thriller se tornou o VHS mais vendido – música ou vídeo – de todos os tempos.

Ironicamente, tudo isso poderia nunca ter acontecido, tivesse o advogado de Jackson, John Branca, feito o que Jackson pediu a ele para fazer e “destruído as fitas do vídeo”. Jackson ainda era uma devota Testemunha de Jeová, naquela época, e ficou sob a condenação dos anciãos da igreja por causa do conteúdo de Thriller. Jackson ficou tão abalado e amedrontado, que sentiu que a única escolha que tinha, era fazer o que as Testemunhas disseram, e queimar a fita antes que fosse lançada. “Quando eles me repreenderam, isso realmente me feriu. Quase me destruiu”, Jackson disse mais tarde. Felizmente, Branca guardou as fitas e convenceu Jackson de que uma “retratação” no início do vídeo dizendo que ele “de nenhuma forma endossava a crença no oculto”, seria o suficiente. Jackson cedeu e o resto é história.

O vídeo de quatorze minutos é, agora, quase universalmente reconhecido como o mais bem sucedido, influente e culturalmente significante vídeo musical de todos os tempos. MTV, VH1 e TV Guide, entre inúmeros outras publicações e pesquisas, tem reconhecido Thriller como o melhor vídeo musical já feito. Em 2006, The Guines World of Records listou Thriller como o vídeo musical de maior sucesso na história, com vendas de mais de nove milhões de unidades.

Tão significante quanto os vídeos de Michael Jackson foram, no entanto, a performance dele no “Motown 25 Aniversary Special”, talvez, tenha superado todos eles. Houve apenas dois comparáveis precedentes “pop cultural”: Elvis Presley no Ed Sullivan Show, em 1965, e os Beatles, no mesmo show, em 1964. Como esses dois momentos de definição de era, havia uma expectativa, uma antecipação sobre o que estava prestes a acontecer. Thriller continuava em primeiro lugar nos charts, onde já tinha reinado por várias semanas. “Beat It” e “Billie Jean” eram as duas músicas mais quentes do país. Os vídeos delas dominavam a MTV. Jackson estava cantando duetos com Paul McCartney e narrando uma trilha sonora para Steven Spielberg. Ele estava na capa da Rolling Stone. Ele estava sendo chamado de “novo Sinatra” e tão “excitante quanto Elvis”.

Mas para muitos que não tinham TV a cabo e não assistiam à MTV, essa era a primeira vez que eles viam Michael Jackson na TV como adulto. “Motown 25” foi a festa de debutante dele, a revelação visual da metamorfose dele. “[Isto] foi o lançamento de um maravilhoso, maduro Jackson”, escreveu Stephen Thomas Erlewine, “um músico cujo crescimento pareceu repentino, rápido, surpreendente”.

Na verdade, com aproximadamente cinquenta milhões de telespectadores, foi a maior audiência que já houve para assistir a um especial musical. Havia, é claro, outras incríveis lendas da Motown na lista: Stevie Wonder, Marvin Gaye, Smokey Robinson. Porém, naquela noite, eles foram todos atos de aquecimento em torno do evento. Para um show dedicado principalmente à nostalgia, o país estava ansioso para ver o futuro.

O palco, então, era set. As pessoas sintonizadas naquela noite – 16 de maio de 1983 (foi gravado dois meses antes) – viriam o “novo” Michael Jackson. “Você sabe, eu tenho que dizer, aqueles foram bons velhos dias”, ele recordou em uma suave e feminina voz. Depois de apresentar um medley dos hits dos Jackson 5 com os irmãos dele, ele está sozinho, andando pelo palco.

Visualmente ele é impressionante: o casaco preto de lantejoulas que brilhava com todo movimento, a face esculpida, etérea e requintada, a única luva branca, com doze centenas de strasses costurados, os olhos de corça assustada. Havia uma áurea mágica em volta dele, uma qualidade sobrenatural, que paralisa e intriga.

“Vocês sabem, aquelas eram boas músicas – Eu gosto muito daquelas músicas”, ele continuou. “Aqueles foram momentos mágicos com meus irmãos, incluindo Jermaine.” Ele pausou e colocou o microfone no pedestal. “Mas especialmente eu gosto…” – a audiência ao vivo está, agora, suspirando e gritando de antecipação – “das novas músicas”.

Com isso, ele pegou um fedora preto, fez uma pose de Bob Fosse e pulsou com a linha do baixo de todas as linhas do baixo. De lá, ele era todo movimento, expressão, energia. “Era como ver mercúrio em movimento”, o cineasta Martin Scorsese disse mais tarde. “Cada passo que ela dava era preciso e fluído ao mesmo tempo.”

Na verdade, enquanto a performance é sempre lembrada como um evento cultural ou o momento em que Jackson mostrou, pela primeira vez, o “moonwalk”, é a completa qualidade artística que a distingue. Estilisticamente, extraiu-se de uma gama de influências: Fred Astaire, Sammy Davis Jr., Bob Fosse e Charlie Chaplin, entre outros. Além disso, há elementos de arte dos menestréis, mímica, jazz e dança de rua na apresentação dele. De acordo com Quincy Jones, Jackson, também, iria “assistir a fitas com gazelas, chitas e panteras, para imitar a natural graça dos movimentos delas”. Ele praticava esses movimentos por horas no estúdio doméstico dele, não apenas imitando ou “coreografando”, mas permitindo que a música “falasse com ele” e ditasse a própria criação. “Uma vez que a música toca, ela me cria”, ele explicou. “Os instrumentos me movimentam, atravessam-me, eles me controlam. Às vezes, eu estou incontrolável i isso apenas acontece.”

Mas quando Jackson chuta, faz mímica, olha e gira para “Billie Jean”, a audiência parece atordoada. “Eu sou muito indiferente à resposta da multidão”, escreveu Christopher Smith. “Mas isso era diferente. Não era um barulho; era mais o som dos gritos simultâneos por todo o auditório, como se todos tivessem sido assustados ao mesmo tempo. Duas fileiras à minha frente, duas mulheres na minha linha de visão estavam violentamente se agarrando, quase atacando uma a outra, enquanto pregadas ao palco, como se elas estivessem tentando apanhar mais do momento, uma mais que a outra.”

Enquanto Jackson performava a música, ele parecia inconsciente da audiência. Ele estava absolutamente absorto no ritmo e na história da faixa, interpretando o mistério dela, a paixão, tensão e dor. Enquanto anteriores marcantes performances como “Hound Dog”, de Elvis Presley, ou “She Loves You”, dos Beatles, foram deliciosas expressões de exuberante juventude, “Billie Jean” é sombria. A narrativa dela é sobre armadilhas, decepções, desconfiança e medo. Aos vinte e cinco anos, Jackson tinha, obviamente, mais experiência que muitos da idade dele. Aqueles, obviamente, não eram sentimentos pop. Enquanto Jackson transmitia complexas emoções na performance dele, porém, havia, também, uma sensação de maravilha e libertação para o movimento dele. O moonwalk é uma expressão que não apenas parece desafiar as leis da física, mas todas as restrições repreensivas. Isso é, como o filosofo Alain Badiou uma vez escreveu sobre a dança, “um corpo que esqueceu as amarras dele, o peso dele… livre (libertando-se) de todas as limitações sociais, de toda a seriedade e conformidade.”

Quando a música para “Billie Jean” começou a desvanecer, Jackson pareceu relutante em deixar a performance acabar, ainda se movendo no ritmo da canção. Finalmente, ele ergueu os olhos, como se acordando de um sonho. A multidão irrompeu em aplausos. Ele não sorriu, mas se curvou e ergueu os braços em agradecimento.

Nos dias seguintes ao show, Jackson, gradualmente, começou a perceber o impacto que a performance dele causou. Não apenas elevou a audiência do show até o teto, cópias de Thriller estavam, mais uma vez, voando das lojas a um ritmo de um milhão de cópias por semana.

Na noite anterior, Jackson também conquistou milhões de novos admiradores – incluindo as lendas da dança Gene Kelly e Fred Astaire. Astaire estava tão encantado pela performance de Jackson que ligou para parabenizá-lo no dia seguinte. “Você é um inferno de um dançarino”, ele disse. “Homem, você realmente fez com que eles se mexessem nas cadeiras na última noite… Você é um dançarino feroz. Eu sou do mesmo jeito.”

Jackson, que tinha se sentido frustrado por uma par de “erros” na performance, finalmente, se sentiu validado. “Este é maior cumprimento que eu recebi na minha vida.” Ele confessou.

Todos esses momentos – quebrando o apartheid da MTV, o vídeo Thriller, a performance “Motown 25” – são partes do enorme legado de Thriller.

Mais que a performance, porém, mais que os vídeos, recordes de prêmios e significância cultural, mais que o “fenômeno” de Thriller, havia a música em si, que, às vezes, é perdida. “Há grandes recompensas por ter estado mergulhado nestas músicas como, bem, músicas”, escreveu o crítico Nelson George. “Esqueça a jaqueta vermelha, a luva brilhante e o moonwalking. Escute, em vez disso, profundamente, a sineta de nevoeiro que abre ‘Beat It’, escute o intricado teclado (arranjado por Michael) e cordas (arranjado por Jerry Hey) que adicionou perigo a ‘Billie Jean’. Ou apenas foque no divertido tom que Michael usa para cantar P. Y.T. escrita por James Ingram e Quincy Jones.”

Na verdade, enquanto alguns críticos têm escrito “Thirller” como um “álbum comercial”, a originalidade, criatividade e o talento de Jackson estão impressos em todas as faixas. “As peças de ‘Thriller’ criaram a mais improvável forma de arte”, escreveu o crítico musical Jody Roses “[Isso foi] um trabalho de revelação pessoal que também foi a obra prima do mercado de massa. Esse é um feito que, provavelmente, nunca será ultrapassado”.

Em apenas 2009, Thriller vendeu mais que um milhão de cópias, o que o lançou para acima do Eagles The Great Hits como o álbum mais vendido de todos os tempos nos Estados Unidos. Globalmente, vendeu mais que o triplo de qualquer outro álbum. Em 2008, Thriller foi introduzido no Grammy Hall of Fame. No mesmo ano ele foi selecionado como um dos vinte e cinco álbuns preservados pela Biblioteca do Congresso, por ser “culturalmente significante”. Nos últimos trinta anos, ele tem servido como o santo graal do pop, perpetuamente deslumbrando e atraindo novas gerações de ouvintes e artistas. Com apenas nove músicas, três vídeos e uma performance mágica, ele mudou a música popular para sempre.

***
Nota da tradutora:
Palaroid é um tipo de plástico usado nas fotografias instantâneas. No contexto, trata-se de um caso típico de metonímia dizer tirei um palaroid, em vez de “tirei uma foto instantânea”.
Jamming significa, no contexto, cantar músicas variadas de outros artistas.
Overbuds significa fazer sons, livremente, sonoplastia, etc.
Red herring significa uma distração.
Jehri curl é um estilo de cabelo, cujo aspecto é de cachos molhados.

Livro Man In The Music – Cap 2 – Thriller – AS MÚSICAS – Wanna Be Startin’ Somethin,Baby Be Mine

Sobre PoemforMJ

Michael ... "Quando olho no dentro dos seus olhos eu sei que é verdade.Deus deve ter gasto um pouco mais de tempo em você!"
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