Livro Man In The Music :Cap 3 – Bad (continuação)

No meio dos anos 80, parecia que tudo que Jackson tocava virava ouro. Quando ele começou a preparar o seguimento para Thriller, no entanto, as coisas começaram a mudar. Em 1987, a Spin Magazine descreveu isso como “a mais poderosa repercussão na história no entretenimento popular”. Na verdade, lendo notícias e artigos de revistas desse período, a transformação é impressionante. De repente, as excentricidades que eram, alternadamente, intrigantes e esquecidas, apenas meses antes, eram, agora, caracterizadas como esquisitas, bizarras e estranhas.“Em tempo recorde”, escreveu o jornalista Quincy Troupe, “ele passou de uma das mais admiradas celebridades para uma das mais absurdas”. Para Jackson, os implacáveis ataques, intrusões, questionamentos e atenção, tornaram-se difíceis de lidar.

A fama e sucesso sem precedentes de Jackson tinham atingido uma existência quase impossível. Mais que nunca, ele estava separado e isolado. Ele não podia deixar a casa sem ser envolvido por uma multidão de fãs e paparazzis.

A promoção de Thriller tinha convergido com uma nova e voraz mídia tabloide a criar um tipo de celebridade e obsessão por celebridade que nunca tinha sido vista antes. Cada aspecto da vida dele era observado em um microscópio. As pessoas queriam saber tudo sobre ele: Por que a voz dele era tão aguda? Ele estava tomando hormônios? Ele teve uma mudança de sexo? Ele era gay? Ele era assexuado? Por que o isolamento e a fantasia? Por que a obsessão com animais e crianças? Por que as máscaras e figurinos? Ele estava em sintonia com a realidade? Ele, pelo menos, era humano?

Em 1987, Jackson, o ser humano, não mais parecia existir para um público alimentado por sensacionalismo exagero.

Já tímido e dado ao isolamento, Jackson, quase completamente, parou de dar entrevistas e, raramente, saia em público ou eventos sociais. “O ano de 1985”, escreveu Gerri Hirshey,“tinha sido um buraco negro para Michael Jackson, que testemunhou o mais espetacular ato de desaparecimento, desde que o cometa Halley se dirigiu para o lado distante do sistema solar em 1910”. O ano de 1986 foi exatamente o mesmo. As pessoas começaram a se referir a ele como Howard Hughes; quando ele não estava sendo visto por um período de tempo, eles diziam que ele estava se escondendo. No vácuo da ausência dele, as especulações correram selvagemente. O estigma “Wacko Jacko” logo pegou e as comportas foram abertas. Algumas das histórias pareciam inofensivas, embora incomuns: sobre o suposto “altar” dele para Elizabeth Taylor, sobre o chipanzé dele, Bubbles, mesmo sobre comprar os ossos do Homem Elefante.

Jackson estava, na verdade, profundamente interessado na história do Homem Elefante, John Merrick– uma “aberração” da era Vitoriana, que foi incompreendido e banido pela sociedade por causa das deformidades físicas dele, mas ansiava por amor e aceitação. Ele assistiu ao filme clássico de 1980, dirigido por David Lynch, de novo e de novo, chorando todas as vezes. Quando as estórias sobre Jackson se tornaram mais viciosas e intrusivas, a estória se tornou mais pessoal; ele entendeu o que o Homem elefante sentiu por ser um espetáculo público e objeto de escárnio e desprezo. “Eu visitei os restos mortais de John Merrick [e] eu senti uma proximidade com [ele]”, Jackson confessou em uma entrevista em 1988:“Eu adorei a história… É uma história muito triste”.

O paralelo entre Jackson e John Merrick também revela percepções sobre a cultura em que eles viveram. Como o autor James Baldwin colocou uma vez: “Aberrações são chamadas aberrações e tratadas como elas são tratadas – na maior parte, abominavelmente–, porque elas são seres humanos que fazem ressoar, profundamente, dentro de nós, nossos mais profundos terrores e desejos”.

No caso de Jackson, esses terrores e desejos eram múltiplos: eles tinham a ver com raça, sexualidade, envelhecimento, tecnologia, fama e dinheiro, além de muitos outros assuntos. Eles também tinham a ver com o ritual americano de elevar e depois crucificar as próprias criações. Jackson pôde ser somente o talentoso, excêntrico homem-criança por muito tempo; a próxima fase era torna-lo com uma aberração.

Em 1987, o ser humano Jackson não mais parecia existir para o público alimentado com sensacionalismo e exagero. Ele tinha se tornado qualquer coisa que as pessoas projetavam-no para ser. Mesmo aqueles para quem ele parecia mais “normal” começaram a ver os efeitos. “Uma vez eu vi Michael sentado no balcão do banheiro, na sala atrás da sala de controle [no estúdio]”, recorda o engenheiro assistente, Russ Ragsdale.“Os pés dele estavam no balcão, joelhos dobrados, ombros contra o espelho; ele estava quase em um transe, como um animal enjaulado.”

Mais tarde naquele ano, no meio da Turnê Mundial Bad, Jackson escreveu uma carta desesperada para a imprensa, do quarto de hotel dele, na qual se lê, em parte:

“Como um velho prevérbio indiano diz, não julgue um homem até você ter caminhado 2 luas nos moccasins [sic] dele.
A maioria das pessoas não me conhece, é por isso que elas escrevem esse tipo de coisas das quais a maioria não é verdade.
Eu choro frequentemente, porque isso machuca…
Animais atacam não por maldade, mas porque eles querem viver, é o mesmo com aqueles que criticam, eles desejam nosso sangue, não nossa dor…
Mas tenha piedade, eu tenho sangrado por muito tempo, agora.”

É claro, Jackson não era uma mera vítima da mídia. “Este é o grande paradoxo sobre Michael”,observou o biografo J. Randy Taraborrelli, “ele é tão exibicionista quanto ele é recluso”. Na verdade, enquanto ele se sentia verdadeiramente ameaçado pelo“mundo exterior”, ele era um entertainer por natureza e treino. Enquanto os anos oitenta progrediam, ele, cuidadosamente, cultivava uma personalidade que mantinha as pessoas imaginando (e falando). Ele era fascinado por máscaras, figurinos e metamorfoses. Por esse tempo, ele até mesmo começou a abraçar e a perpetuar a percepção pública da singularidade e da excentricidade dele.

Em 1996, Jackson disse ao advogado dele, John Branca, e ao empresário, Frank DiLeo, que ele queria que“toda a carreira dele fosse o maior espetáculo da Terra”. Ele distribuiu cópias da autobiografia de P.T. Barnum (a qual ele tinha lido inúmeras vezes) e começou concebendo planos para ganhar a atenção do mundo. “Esta será minha bíblia e eu quero que seja a de vocês”, ele disse. Barnum, é claro, era o consumado showman e promoter. Ele também era o autointitulado “príncipe das façanhas”, o que, na terminologia de hoje, essencialmente, significa golpes publicitários públicos. Barnum explicou isso deste jeito: “Como generalizadamente entendido, ‘façanha’ consiste em colocar aparência cintilante – shows externos–, novos meios hábeis, com os quais, de repente, arrastar a atenção do público e atrair os olhos e os ouvidos do público.” Essa ideia arrepiou Jackson. Ele já era mestre em performances no palco; mas agora, isso pôde ser estendido para fora do “show”. Toda a vida dele seria uma apresentação artística. Essa era uma forma de virar a mesa na mídia e no público intrusivo, que sentiam que eram donos dele. Ele estaria no controle; eles seriam sujeitados à direção e à imaginação dele.

Talvez a mais famosa dessas habilidades publicitárias tenha sido a história da câmera hiperbárica, orquestrada por Jackson e o empresário, Frank DiLeo. A fotografia e a história, a qual, primeiro, foi apresentada no National Enquirer, capturou a imaginação do público e produziu manchetes por todo o globo.
Mesmo confiáveis organizações de notícias cobriram a história, ruminando se tal item existia de verdade e se Michael Jackson poderia viver até os 150 anos de idade por apenas dormir nele.
Como uma criança que acaba de executar uma perfeita travessura, Jackson ficou estático pela a reação. “É como se eu pudesse dizer à imprensa qualquer coisa sobre mim e eles iriam comprar isso”,ele disse. “Nós podemos, na verdade, controlar a impressa.”

É claro, quando a mídia não cooperou com esse jogo e se tornou maliciosa, Jackson recuou e ficou com raiva e magoado. Ele sentia que havia um acordo tácito: ele poderia dar a eles entretenimento (histórias), mas eles não poderiam torna-las muito pessoais. Jackson era particularmente sensível sobre especulações referentes à cirurgia plástica dele, cor da pele e sexualidade. Esses eram “assuntos” particulares, nos quais ele sentia que o público não tinha direito de entrar. Ele também odiava o rótulo Wacko Jacko.

Porém, ele amou o que Barnum chamava “aparências cintilantes”: ele adora entreter, surpreender, provocar fascinação. Ele era bom nisso, também. “No ritmo e no time disso”, ele uma vez explicou, como se estivesse falando de uma performance literal. “Você tem que saber o que você está fazendo… É como uma febre, eles estão esperando, eles estão esperando. É importante esperar… para conservar e preservar… Se você permanece misterioso, as pessoas ficarão mais interessadas.” De muitas formas, o plano dele funcionou.
A imprensa e o público não puderam ficar satisfeitos.

Jackson tinha sido um entertainer desde que ele era um menininho. Isso era tudo que ele sabia. Agora o impulso para “performar” era quase constante. A identidade dele estava se tornando indissoluvelmente envolvida pela personalidade, pelo personagem. Ele é o estranho, mágico, misterioso, excêntrico pop star:“Michael Jackson, o maior espetáculo da Terra”.
Quando o empresário Frank DiLeo foi perguntado, em 1987, sobre recuar com a publicidade por causa do preço da fama do cliente dele, ele respondeu: “É tarde de mais, de qualquer forma. Ele não terá uma vida normal mesmo que eu pare”.
Isso ia em direção ao começo da nova fase, na qual Jackson começou a trabalhar no que seria Bad, em 1985. Três anos tinha se passado desde o lançamento de Thriller e os fãs estavam esperando, ansiosamente, pela sequência. Se a sequência do disco mais bem sucedido da indústria musical, no entanto, não era uma tarefa invejável.
Jackson adicionou à pressão, colando um pedaço de papel sobre o espelho dele que dizia simplesmente: “100 milhões.”, que era a meta dele para Bad – mais que o dobro da venda (naquele momento) de Thriller. Com esta meta de ambição no fundo da mente, ele foi ao trabalho.

Nos estágios iniciais, ele, simplesmente, entraria no estúdio doméstico dele com músicos e engenheiros, como Matt Forger, John Barnes ou Bill Bottrell, e trabalharia em ideias. Jackson chamava o estúdio de “o laboratório”. Aqui, ele poderia gravar inúmeras demos de 48-tracks em uma variedade de estilos e temas. Era um espaço que permitia a ele mais liberdade e espontaneidade para buscar ideias criativas.

Eventualmente, no entanto, uma pequena fenda começou a se desenvolver entre o que se tornou conhecido como o Time-B, trabalhando com Jackson no estúdio doméstico dele, e a equipe de Quincy Jones, no Westlake Studios. “Michael estava crescendo e queria experimentar a libertação das restrições da cena do Westlake”,explica o produtor Bill Bottrell. “Por isso que ele escolheu a mim e a John Barnes para trabalhar no estúdio doméstico dele, por um ano e meio, intermitentemente.
Nós programaríamos, faríamos a mixagem e construiríamos as faixas para mais que aquele álbum, enviando os resultados em cinco centímetros para Westlake e eles iriam, à discricionariedade deles, gravar e adicionar coisas como cordas e instrumentos de sopro. Foi assim que MJ começou a expressar a independência criativa dele, como um adolescente deixando o ninho.”

Muitas das músicas que o Time-B trabalhou foram, praticamente, concluídas antes que elas chegassem ao Westlake. “Ele foi capaz de levar algumas demos concluídas para o “verdadeiro” estúdio com Quincy e isso era o jeito de ele ganhar mais voz [em como elas eram produzidas]”, recorda Bill Bottrell.

Mais tarde, em 1986, quando a gravação finalmente começou, a sério, no novíssimo estúdio D, no Westlake, onde Jackson continuou a trabalhar com muitos dos mesmos jogadores chaves de Off The Wall e Thriller, incluindo o engenheiro de gravação, Bruce Swedien, o tecladista, Greg Phillinganes, e o especialista em instrumentos de sopro, Jerry Hey. Quincy Jones também trouxe novos e frescos talentos, incluindo o organista de Jazz, Jimmy Smith, e os talentosos compositores como Glen Ballard e Siedah Garrett. O brilhante Andraé Crouch Choir foi aproveitado em “Man in the Mirror”, um coro que ele iria incluir em todos os álbuns subsequentes.

Quincy Jones, porém, entretanto, continuou a agir como produtor, embora ele e Jackson não trabalhassem mais sempre juntos, tão suavemente, como eles tinham trabalhado no passado. Estava claro para todo mundo em torno de Jackson que ele estava desenvolvendo e ganhando cada vez mais confiança criativa e controle como artista (ele escreveria nove das doze canções incluídas em Bad, mais várias outras que não foram incluídas no álbum). Isso levou a alguma colisão em produções e escolha de músicas, assim como sobre a visão estética do álbum.

Jackson posa com membros da gangno set do vídeo Bad no Brooklyn, New York.

Jackson posa com membros da gangno set do vídeo Bad no Brooklyn, New York.

“[Quincy Jones] discordou de algumas coisas”, Jackson mais tarde se lembrou. “Havia muita tensão, porque nós sentíamos que nós estávamos competindo com nós mesmos. É muito difícil criar algo quando você sente que está competindo consigo mesmo.”Aqueles que estavam participando do projeto, em alguns momentos, sentiram essa pressão também. “Havia muito stress”,lembra o guitarrista David Williams. “Eu estava fazendo exatamente a mesma parte, pelo menos, cinco vezes em cada música.” Para Jackson, é claro, esse perfeccionismo era simplesmente o modo como ele foi treinado, desde os dias dele na Motown, para alcançar melhores resultados.

Apesar da pressão e altas expectativas, a maioria dos que trabalharam no álbum se lembra de que a atmosfera no estúdio era de “amor” e “camaradagem” – um clima criativo atribuído tanto a Jones quanto a Jackson. Bruce Swedien se lembra de uma tradição que Jackson começou a chamar de “Family Night”, na qual todos os membros da família e amigos da equipe do estúdio eram convidados, na sexta-feira, para um jantar no estúdio, preparado pelos cozinheiros de Jackson, Catherine Ballard e Laura Raynor (afetuosamente apelidadas de “slam-dunk sisters”). O engenheiro assistente, Russ Ragsdale, recorda Jackson rabiscando todo o tempo, no estúdio; ele também se lembra dele apreciando sair para um descanso. “Em poucas ocasiões”, lembra Ragsdale, “Michael iria querer sair do estúdio por um pouco. Naquela época, eu tinha um grande caminhão Ford pick-up, tamanho família, com janelas tingidas. Michael adorava passear naquele caminhão e ficava realmente excitado, porque ele era capaz de se sentar muito mais acima do chão que na Mercedes dele”.

Em 1987, a Spin Magazine descreveu um típico dia no estúdio assim: Jackson caminha com os óculos de sol dele, um fedora marrom e uma camiseta de veludo colete vermelho, acompanhado pelo chimpanzé dele, Bubbles, (Jackson também traria, algumas vezes, a jiboia dele, Muscles).
Quincy Jones está no chão, tomando notas, enquanto come; “Bigodes de morsa”, Bruce Swedien, está na sala de controle com o empresário de Jackson, Frank DiLeo, que está “enviando longas baforadas encaracoladas de charutos em direção ao teto”. Do outro lado do estúdio, há um “ aroma de frango frito, salada de batatas, hortaliças, e repolho”. Em outros dias, Jackson apareceria usando um casaco com um capuz forrado de pele, no meio de agosto, porque ele não se importa com o ar-condicionado. “Nós fazemos o possível para tratar Michael como um cara normal”, lembra Russ Ragsdale. “Nós não saíamos muito do nosso caminho.”

Quando a gravação começou, Jackson estava completamente no elemento dele. O jornalista Quincy Troup, a quem foi dado acesso a uma sessão no estúdio por uma dia, em 1986, descreveu isso assim: “Sozinho na penumbra, iluminado suavemente por um único holofote, ele começa a cantar. Isso, finalmente, é do que se trata… Não há problemas, não há acordos de merchandising, não há prazos, não há familiares. É apenas Michael e a música. De repente, ele não é mais o sonhador, suspirante recluso. Ele não é mais suave. Ele ataca a música, dançando, ondulando as mãos dele. Movendo-se com uma inesperada força. Ele está no mundo dele… Por esses poucos momentos, pelo menos, ele não é nem uma piada, nem um ícone, apenas um muito, muito, talentoso cantor”.

Assim como com Thriller, várias músicas forma consideradas para Bad. A partir dessas, Jackson e Jones reduziram a lista. “Cinquenta por cento da batalha é tentar decidir quais músicas serão gravas”, Jones recorda. “Isso é totalmente instintivo. Você tem que ir com as músicas que tocam você, que causam arrepios.”

“Foram mais de 800 gravações de múltiplas faixas para criar Bad.”

De acordo com a Rolling Stone, “Jackson tinha 62 músicas escritas e queria lançar 33 delas em um álbum triplo, até [Quincy] Jones acalmá-lo”.Esse acabamento fez com que algumas excelentes faixas fossem deixadas no chão da sala de cortes, incluindo “Streetwalker” (a qual Jackson preferia, mas foi excluída por Jones em favor de “Another Part of Me”), “Fly Away” (uma balada meio-tempo linda, melódica) e “Cheater” (uma faixa funky, áspera, sobre infidelidade), entre outras.
Uma vez que as músicas foram escolhidas para gravação, isso era sobre criar músicas que o “ouvido não tinha escutado”. Jackson não queria duplicar Thriller, ou outra música no rádio, aliás. Ele queria inovar sonoramente. “A visão de Michael [é] começar fazendo uma gravação criando músicas novas totalmente frescas, que nunca foram ouvidas antes”, explica o engenheiro assistente Russ Ragsdale. “Para Bad isso foi alcançado por [músicos] Michael Boddicker e Greg Phillinganes, com pilhas de sintetizadores enchendo toda a ampla sala de gravação, preenchendo todo espaço disponível, assim como o maior Synclavier do mundo, naquela época, operado por Chris Currel… Foram mais de 800 gravações de multifaixas para criar Bad; cada música era algumas centenas de faixas de áudio.” Para a faixa rítmica em particular, Jackson queria um novo som de bateria que iria realmente acertar. Swedien gravou-as na fita 16-track, como em Thriller, mas depois as transferiu para o digital, para pegar este mecânico, mas “amplo, ritmo analógico som”, que Jackson adora. Jones chama isso de “grandes pernas e saias apertadas”.

No fim, Jackson e Jones ficaram no estúdio por mais de um ano. “Muitas pessoas estão muito acostumadas a ver apenas o resultado do trabalho”, Jackson disse em uma entrevista em 1987.“Elas nunca veem o lado do trabalho que você atravessa para produzir o resultado.” Os prazos vieram e passaram, no entanto, frustações se acumularam. Quincy Jones, supostamente, saiu do projeto por um tempo, quando ele descobriu que Jackson tinha se esgueirado para dentro do estúdio e alterado o trabalho dele. Os executivos da Epiccontinuaram a pressionar para finalizar o álbum, mas Jackson não podia permitir-se lançar o álbum antes que ele estivesse “pronto”. “Um perfeccionista tem que fazer o tempo dele”, ele explicou. “Ele corta e molda e esculpe esta coisa até ficar perfeita. Ele não pode deixar isso sair até que ele esteja satisfeito; ele não pode.”

Finalmente, por volta do verão de 1987, um firme prazo foi fixado para o lançamento de Bad. “Você precisa de um prazo dramático”, Quincy Jones explicou a Rolling Stones. “Eu juro por Deus, nós estaríamos naquele estúdio por mais um ano, não fosse aquele prazo.” Assim como com Thriller, Jackson e Jones trabalharam todo o caminho para a trilha sonora final, dando os últimos retoques, até que o álbum fosse masterizado em 10 de julho.

Originalmente, a capa do álbum Bad era um close-up do rosto de Jackson sobreposto por uma renda preta. Jackson adorou a estranheza e o mistério da imagem, mas os executivos da Epic ficaram horrorizados, temendo que isso fosse reforçar a “esquisita” personalidade feminina dele. A capa foi, por fim, descartada em julho, em favor de uma foto shoot do vídeo Bad, a qual mostra o cantor em couro preto, fivelas, punhos fechados e o título pintado em sprayvermelho. Desde que ele seria um álbum “durão”, essa parecia ser uma escolha melhor.

Em 1988, Michael Jackson ainda era o mais eletrizante entretainer do mundo.

Em 1988, Michael Jackson ainda era o mais eletrizante entretainer do mundo.

Para celebração do lançamento de Bad, Michael Jackson ofereceu uma festa na casa dele, em Encino, para aqueles que tinham colaborado com o álbum, assim como os executivos da Epic e outras pessoas na indústria da música. Embora Jackson continuasse distante a maior parte do tempo, ele estava aliviado e rejuvenescido por, finalmente, ter terminado. “Era um júbilo, é o que era”, ele disse à Ebony. Ainda, depois de anos colocando o coração e a alma dele no álbum, ele estava ansioso para ver como o público o receberia. “Eu não posso responder se eu gosto de ser famoso ou não”, ele mais tarde escreveria na autobiografia dele, “mas eu adoro alcançar objetivos. Eu adoro não apenas alcançar uma meta que eu estabeleci para mim mesmo, mas ultrapassá-la. Fazendo mais do que pensei que poderia, isso é um sentimento incrível”.
Jackson, e o mundo, aliás, tinha estabelecido uma alta meta para Bad – e agora tinha, finalmente, chegado o memento da revelação.

Bad foi lançado, mundialmente, em agosto de 1987 e imediatamente alcançou o primeiro lugar no catálogo da Billboard e em todo o mundo. A recepção pelos críticos variou: alguns tiveram um tempo difícil separando as histórias estranhas, que eles estiveram escutando pelos dois anos anteriores, da verdadeira música. “Jackson, o cantor, pode ser destruído por Jackson, a pessoa”, escreveu Jay Cocks, do Times. “O Homem no Espelho, a maioria das pessoas verão, não é o cantor tomado pela consciência (‘Eu estou começando com o homem no espelho/ Eu estou pedindo a ele para mudar os seus modos… ’), mas Captain EO, das fantasias de parque temático ou a celebridade peekaboo, deitada no tanque de isolamento dele ou preocupado com flashes de paparazzi, vestindo a máscara cirúrgica de Homem Elefante dele e elevando a proposta dele pelos restos de John Merrick.”

Em quase todas as outras críticas contemporâneas de Bad, a imagem de tabloide de Jackson estava proeminente. Muitos críticos se engajaram em pseudos-psicanalises, ensinando sobre as excentricidades de Jackson como se artistas e rock stars devessem ser o modelo infantil de normalidade.
Quando o single líder do álbum foi lançado, a balada composta por Jackson, “I Jus Can’t Stop Loving You”, alguém poderia supor, pelas críticas, que ela era a pior obra musical já criada. “Com um rosto plástico como o disco que ele cobre”,escreveu um crítico, “Wacko Jacko deu um passo para trás nos centro das atenções… mais mocinha que nunca”. “Jackson pode ter telefonado através destes vocais”, escreveu outro, enquanto uma terceira avaliação a descreveu como uma “um gotejamento de sentimentalismo de profundidade oceânica”. Tais críticas eram absurdamente exageradas. Embora a música não representasse o melhor material do álbum (exatamente como o singlelíder de Thriller, “The Girl is Mine”, não representava), estava claro, desde o começo, que apesar do mérito, Bad não tinha chance de ultrapassar Thriller. Muitas pessoas, simplesmente, não eram capazes de ignorar o sensacionalismo e escutá-lo de forma aberta e objetiva.
Em uma pesquisa da Rolling Stone, em 1988, essa realidade foi confirmada, quando Jackson foi votado “O Pior Cantor Masculino”, enquanto Bad foi votado “O Pior Álbum”. “A repercussão tem mais a ver com a personalidade excêntrica do cantor que com a música dele”, fundamentou o editor musical da Rolling Stone, David Wild. “As pessoas estão respondendo negativamente à imagem dele e à campanha publicitária. A categoria que ele deveria ter vencido era a ‘pior imagem’ ou ‘menos compreendido’”.

Apesar da repercussão (e das comparações com Thriller), Bad se tornou um álbum de enorme sucesso. Nos primeiros poucos meses, ele vendeu rapidamente, permanecendo em primeiro lugar por seis semanas consecutivas nos Estados Unidos e vendendo mais que o resto do Top 40 combinado. Bad também mostrou a crescente popularidade mundial de Jackson, alcançando o topo dos catálogos em um recorde de vinte e cinco países. (Bad é o álbum mais bem vendido de Jackson no Reino Unido. Ele é também um dos dez álbuns mais vendidos de todos os tempos no país.) Na verdade, quando Jackson viajou para países como o Japão, Austrália e Reino Unido, mais tarde naquele ano, para a Bad World Tour, ele foi saudado ao estilo pandemônio da época dos Beatles (O Japão apelidou a visita dele de “Tufão Michael”). Para construir o excitamento para os shows, Jackson entraria do lado do estádio (capturado em filme), correndo ou marchando com algumas dúzias de oficiais de polícia. A audiência massiva, já batida em antecipação efervescente, seria inundada por brilhantes luzes brancas até Jackson aparecer congelado no palco, antes de explodir no número de abertura.“A palavra ‘superstar’ tornou-se insignificante comparada ao poder e graça jorrando do palco”, escreveu Gregory Sandow, um crítico para o Los Angeles Herald Examiner. Em 1988, apesar de tudo, Michael Jackson continuava, sem dúvida, o maior artista do mundo.

 Badf oi um álbum carregado com memoráveis vídeos e hits. Ele também foi o primeiro de Jackson a vender mais cópias fora dos Estados Unidos que dentro dos Estados Unidos.

Badf oi um álbum carregado com memoráveis vídeos e hits. Ele também foi o primeiro de Jackson a vender mais cópias fora dos Estados Unidos que dentro dos Estados Unidos.

O sucesso comercial do álbum, no entanto, era outro ponto comum da crítica no resultado de Thriller. A meta inicial de Jackson de querer vender mais que o álbum mais vendido não ficou bem com críticos. Jackson estava interessado em fazer músicas significativas ou estava apenas querendo vencer recordes de vendas e prêmios? Disse o biografo Randy Taraborrelli,“[Michael Jackson] não poderia imaginar gravar um álbum para nenhum outro propósito que não ele ser o maior e o melhor, sempre. Ele precisava ter o trabalho dele reconhecido de forma ampla ou ele, simplesmente, não ficaria satisfeito. Talvez tal determinação possa ser relacionada aos dias dele, quando menino, quando The Jackson 5 competia em shows de talento, nos quais o único objetivo era ser o vencedor. Esse foro foi o treinamento base original de Michael.”

Certamente, há alguma verdade nisso. Desde os iniciais dias dele performando, Jackson foi esperado ser o melhor – e ser o melhor significava validação pela audiência. Se isso significava agradar uma áspera audiência no Apolo Threater, no Harlem, ou gravar um hit, na Motown, Jackson cresceu com a ideia de que se as pessoas não comprassem a música dele, isso era um fracasso.(Mais tarde na vida, Jackson iria, pelo menos teoricamente, entender que grande arte não é sempre imediatamente popular.) Por toda a carreira dele, porém, ele esteve determinado a ser, artisticamente e comercialmente, bem sucedido. Ele queria ser e maior entertainer do mundo e vender cem milhões de álbuns, mas ele também queria inovar artisticamente, criar música que “os ouvidos nunca tinham escutado” e canções que mudavam a consciência das pessoas. A maioria dos críticos, inobstante, tinham dificuldade em compreender este paradoxo e simplesmente o dispensavam como um entertainer de mente completamente comercial.
Badtambém foi criticado por ser liricamente superficial. Na crítica de 1987, para o New York Times, Jon Pareles dispensou Jackson em tais termos: “Os álbuns que Thriller derrubou como mundialmente mais vendido – Tapestry, de Carole King; Rumors, de Fleetwood Mac; até mesmo a trilha sonora de Saturday Night Fever–, todos oferecem algo mais que hits escutáveis ou dançáveis, embora eles sejam abastecidos com isso. O mesmo quanto a álbuns que ficaram em faixa mais baixa das vendas, tais com Born in the U.S.A., de Bruce Sprinsteen, Purple Rain, de Prince e Dark Side of the Moon, do Pink Floyde. Todos eles são bem produzidos, coleção sonoramente rica de músicas, que colam no ouvido. Mas eles também têm letras que tentam ir além do típico sentimento pope essas letras encontram uma resposta fora da usual audiência pop.”

Para Pareles, então, Michael Jackson podia fazer músicas que “colavam nos ouvidos”, as que, definitivamente, careciam de profundidade de artistas como Carole King e Fleetwood Mac. Enquanto essa alegação ganha alguma circulação jornalística, começando no fim dos anos oitenta, no entanto, ela não se sustenta sob escrutínio. “Muitos dos ataques [contra o talento artístico de Jackson]”,observou Quincy Troupe, da Spin,“veio de críticos brancos de rock, que, de repente, pareciam ressentir-se pelo sucesso incomparável dele. Jackson não encaixava no modelo para a idolatria dos críticos de rock. Alguém como Bruce Springsteen toca guitarra, escreve músicas que são sujeitadas, literalmente, à crítica, e dança como um sujeito branco. Ao passo que Michael Jackson representa a herança cultural negra, que críticos brancos não conhecem ou preferem apreciar, nostalgicamente, o que vem de alguém que está morto.”

O considerável talento artístico em Bad, é claro, foi colocado em perspectiva clara desde essas críticas dos passados anos oitenta. Mas muita da mesma presunção quanto à música de Jackson tem persistido entre críticos. Se isso é devido ao enorme sucesso comercial dele, estereótipo sobre“dance music”, a pessoa dele, a personalidade controversa dele, a raça dele, ou a combinação dessas coisas, tem sido, e continuará a ser, debatido. No entanto, não há duvidas. Começando com Bad, críticos como Pareles desenvolveram uma excessiva hostilidade e atitude desdenhosa à música dele.

Para Bad, a chave na reavaliação crítica está em não entender a estrutura artística dele. Comparar Michael Jackson a Bruce Sprinsteen é como comparar Madona a Janis Joplin ou James Brown a Bob Dylan. Eles estavam simplesmente operando em diferentes paradigmas e modelos estéticos. Michael Jackson escrever músicas sobre a América seria tão falso quanto Springsteen cantando “Smooth Criminal”. Na verdade, Bad não é mais superficial liricamente que um clássico álbum de rock como Born in the U.S.A. Apenas contém diferentes estilos e temas.

Em Bad, a música de Jackson é amplamente sobre criar humores, emoções viscerais e cenários fantásticos. O descolado som de motor girando na perseguição de carro de “Speed Demon” passa fluidamente para a entonação terrosa de “Liberian Girl”. A tensa narrativa sensual de “Dirty Diana” dá caminho a uma misteriosa cena de assassinato em “Smooth Criminal”. Cada música funciona como uma capsula de sonho, convidando o ouvinte a entrar em um vívido novo som, história e espaço. Ele almeja hipnotizar, transportar, espantar e, também, explorar e revelar. Dessa forma, ele é mais comparável a uma trilha sonora cinematográfica (com elementos de blues,jazz e R&B).

Experimentado em seus próprios termos, Bad é um álbum contagiante, fantasmagórico, o que um punhado de críticos reconheceu desde o começo. “Ninguém que reclama o estúdio digital tem a mente tão estreita para ser capaz de escutar profissionais que suplantam e eles próprios”, escreveu o crítico musical Robert Chirstgau. “Maestria de estúdio é mais como isso, o mais forte e mais consciente álbum black pop em anos, definindo a reformulação de James & Lewis, de Baby Sis, como o principal e, então, inundando-o com ritmo e poder vocal.” A revista Times o chamou de “um álbum de dança em estado de arte. As letras de Jackson combinam, em alguns momentos de lampejos de felicidade (‘Seu papo é furado/ Você não é um homem/Você atira pedras/ Para esconder suas mãos’) com felicidade de estilo scat.” Rolling Stonesentiu, como um todo, que ele era até mesmo melhor que Thriller. “Bad não é apenas um produto, mas também uma antologia coerente da percepção que ele criou”, escreveu Davitt Sigerson. “Comparações com Thriller não são importantes, exceto esta: mesmo sem um registro histórico como ‘Billie Jean’, ‘Bad’ é um álbum melhor… Levando em conta o confuso banco de conjecturas – quanto a vendas, quanto à cirurgia facial, quanto à religião, quanto à. É ele pegando isso e se assim for, de quem ou o quê – nós podemos voar dentro do coração de uma estiloza peça de trabalho.”
Na verdade, esse trabalho incluiu o que o engenheiro de gravação, Bruce Swedien, descreve como a “mais selvagem variedade de campos sonoros” de qualquer álbum que Jackson tem criado. As camadas de dinâmica programação de sintetizadores e bateria não combinaram apenas com guitarras, órgãos ou instrumentos de sopro, mas também com motores de carros, batimentos cardíacos, som de pássaros, e barulho de multidão. “Bad… eleva a intensidade da música”,escreveu Jon Dolan, da Rolling Stone.“As batidas tem perversas pistolas pop, as guitarras de rock são tórridas, a textura de sintetizador dele são sombrias e elegantes”.

O álbum apresenta, também, proeminentemente, muitos dos vocais característicos de Jackson: os hee hees, oooohs, e awwws, os grunhidos, engasgadas, e shamones (O último dos quais é, agora, apresentado no Dicionário Urbano).
Desde a energia infecciosa de “The Way You Make Me Feel” ao rapgutural de “Sepeed Demon” e “Smooth Criminal”, desde as ricas harmonias de“Liberian Girl” aos sublimes apelos de “Man In The Mirror”, os vocais de Jackson em Bad são completamente únicos e completamente brilhantes.
Em termos de legado, Bad agora se mantem firmemente com Thriller com um dos melhores e mais influentes álbuns pops da década. Mesclando memoráveis ganchos com únicos e inovadores sons e visuais, ele é um dos álbuns mais imaginativos e bem sucedidos de Jackson. Ele não apenas possui a marca sem precedentes de cinco hitsnúmeros 1
(“I Just Can’t Stop Loving You”, “Bad”, “The Way You Make me Feel”,“Man in the Mirror” e “Dirty Diana”). Três outras – “Smooth Criminal”, “Another Part of Me” e “Leave Me Alone” – iriam quebrar o top 15.
Essas músicas continuam sendo marcas no vasto catálogo de Jackson. “É interessante para mim, refletir sobre o álbum Bad”, escreveu o engenheiro de gravação de longa data de Jackson, Bruce Swedien, “e perceber que eu tenho mais músicas favoritas nesse álbum que em qualquer outro”. Muitos fãs podem dizer o mesmo.
O Rock and Roll Hall of Fame o chamou de “um dos mais afiados álbuns black pop já gravado” com “audacioso uso de batidas urbanas”,suaves jazz-funk e guitarras de rock”.A Rolling Stone o colocou na 202º posição na lista de 500 Mais Incríveis Álbuns de Todos os Tempos.

Décadas mais tarde, a famosa pergunta de Jackson na faixa título –“Who’s bad?” – é tão retórica quanto sempre.

Nota da tradutora:
Slam Dunk é uma garota que você não conhece, mas com quem você conversa.
Pekaboo é uma palavra usada em vários sentidos, sobretudo, como algo infantil, pois é originalmente uma brincadeira feita com bebês, de cobrir e descobrir o rosto, surpreendendo a criança, assim, também pode expressar algo bobo ou surpresa.
Estilo scat, ou scat-style, significa cantar, de forma rápida, sons ou palavras sem sentido.

Sobre PoemforMJ

Michael ... "Quando olho no dentro dos seus olhos eu sei que é verdade.Deus deve ter gasto um pouco mais de tempo em você!"
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