Livro Man In The Music -Cap 5 – HIStory

“Eu não estou planejando escrever outro livro tão cedo. Se você quer saber como me sinto, você pode checar HIStory. É um livro musical.” MICHAEL JACKSON, SIMULCHAT, 1995
capa-history
LANÇADO: 16 de junho de 1995
PRODUTOR EXECUTIVO: Michael Jackson
NOTÁVEIS CONTRIBUIDORES: Jimmy Jam (produtor), Terry Lewis (produtor), David Foster (produtor), Janet Jackson (vocais), Bill Bottrell (produtor/compositor), R. Kelly (compositor), Dallas Austin (compositor), Brad Buxer (teclado/arranjo), Bruce Swedien (engenheiro), Eddie Delena (engenheiro assistente), Andrew Scheps (engenheiro assistente), Rob Hoffman (engenheiro assistente), Johnny Mandel (orquestração), The Andraé Crouch Singer Choir (vocais), Slash (guitarra), Boyz II Men (vocais), The Notorious B.I.G. (rap), Shaquille O’Neal (rap), Matt Forger (coordenação técnica)
CANTORES: “Scream”, “You Are Not Alone”, “Earth Song”, “They Don’t Care About Us”, “Stranger in Moscow”
ESTIMATIVA CÓPIAS VENDIDAS: 22 milhões

HIStory é o álbum mais pessoal de Michael Jackson. Desde a fúria ardente de “Scream” à dolorosa vulnerabilidade de “Childhood” o álbum era, nas palavras de Jackson, “um livro musical”. Ele abrangeu todas as emoções turbulentas e lutas de alguns anos anteriores: ele era o diário dele, a tela dele, a refutação dele.

O resultado, para alguns, foi um pouco dissonante. Eles queriam o “velho” Michael Jackson: a melodia calorosa, jovial, e as letras que estimulam a dança. HIStory abertamente desafiou essas expectativas. Sonoramente, ele seguiu em frente, já que continuou a cruzar e mixar gêneros (incluindo hip-hop, industrial funk e orquestral pop). Tematicamente, ele confrontou, em vez de evitar o complexo estado emocional de Jackson. No entanto, ele também pareceu exteriorizado; amarrando a angústia e revolta dele aos problemas sociais maiores, como sensacionalismo da mídia, materialismo, discriminação e alienação.

Enquanto esta abordagem provoca alguns momentos crus (e músicas sem a viabilidade comercial dos álbuns anteriores), ele, também, parece libertar Jackson – e resulta em um das mais politicamente potentes, emocionalmente honestas e artisticamente poderosas faixas que ele já vez. “Jackson expressa difíceis experiências e desconfortável conhecimento”, observa o crítico cultural Armond White. “Na voz agressiva dele, há lugar para o desespero, a ânsia urgente de qualquer um”. Na verdade, embora a maioria dos críticos tenha sido lenta em olhar o passado do imediato contexto biográfico do álbum e reconhecer a realização artística dele, HIStory bem pode ser considerado a magnum opus de Michael Jackson. Nunca os vales tinham sido tão baixos e os picos tão altos.

HIStory foi criado a partir de um tipo de exílio cultural. Em 1995, enquanto ele continuava sendo enormemente popular na maior parte do resto do mundo, Michael Jackson tinha perdido muito do encanto dele nos Estados Unidos. As alegações de abuso sexual infantil, em 1993, tinham devastado a imagem dele. Alguns sentiram que isso, efetivamente, encerrou a viabilidade dele como um dominante pop star. As sórdidas alegações, porém, não foram a única razão para a minguante relevância dele. Isso também tinha a ver com a mudança cultural da juventude e o espírito musical da época. Os ícones culturais do início ao meio dos anos noventa eram artistas como Kurt Cobain, Tupac Shakur, e Alanis Morissete. Em comparação, a imagem de Jackson parecia muito teatral e ensebada. “Black or White” e “Heal the World” simplesmente não ressoaram com o cinismo e sofismo da Geração X. Dance pop e temas humanitários eram ridicularizados por grungers vestidos de flanela e gangstars usando calças largas e reagindo contra o percebido artificialismo, falsidade e otimismo dos anos oitenta.

Os anos noventa fizeram ver a ressureição do R&B com grupos como Boyz II Men e TLC, e artistas solos como R. Kelly, Toni Braxton e a irmã de Michael, Janet; mas esses eram artistas com encanto mais natural para pessoas jovens. As músicas deles eram sobre sexo e sentimento. Michael Jackson tinha, agora, trinta e sete anos e mais conhecido entre a nova geração de ouvintes como objeto de infinitas controvérsias de tabloides. Em razão desse contexto, Jackson entendia que HIStory seria o mais desafiador álbum da carreira dele.

As mudanças culturais não foram apenas nos gostos musicais, é claro. Quando Jackson retornou ao estúdio, em 1994, globalização e novas informações tecnológicas estavam revolucionado o mundo de maneiras profundas. Era o começo da era digital com a internet mudando o modo como as pessoas se comunicavam, consumiam e recebiam informação. O correio eletrônico substituiu “o correio lesma”, chat rooms era os novos bares, as pessoas começaram a comprar livros, música e roupas online, e empresários como Steve Jobs e Bill Gates se tornaram multibilionários.

Nos Estados Unidos, a era Clinton estava em curso, e com ela a explosão ponto-com que conduziu a uma década de mercados de afluência e prosperidade. Os anos noventa são, agora, frequentemente, relembrados, nostalgicamente, como pré-Bush, pré-11/9, pré-recessão da era de ouro. Enquanto a visão de Clinton de uma “ponte para o século vinte e um” inspirava esperança, contudo, não demorou muito para que isso também gerasse alguma desilusão e severa reação contra cultural. Enquanto CEOs fizeram lucros recordes, também foi um tempo de terceirização, redução, concentrações e dominação de corporações. A fúria dos cidadãos contra a globalização culminou no caos e violência dos protestos em Seattle, em 1999, contra o World Trade Organization.

Jackson no set do vídeo dele, Scream, em                                                                                           1995.
Jackson no set do vídeo dele, Scream, em
1995.

Os anos noventa também testemunharam uma efetiva fusão entre noticiário a cabo, de vinte e quatro horas, e noticiários de entretenimento. O desejo por cobertura de celebridades, em particular, tornou-se um tipo de obsessão internacional, alimentada por uma incessante perseguição por dólares de classificação e publicidade. A cobertura parede a parede de dois eventos marcantes – o caso de homicídio de OJ Simpsom (1994) e a morte da Princesa Diana (1996) – perfeitamente sintetizou o paradigma “infoentretenimento”. Ambos os casos apresentavam dramas de celebridades, tragédias, como perseguições em alta velocidade e acidentes de trem, que anteciparam a mudança para a reality TV e estabeleceram o novo esboço para o que poderia ser considerado mainstream “News”. Ambos acontecimentos também tiveram um profundo impacto pessoal em Michael Jackson.

Jackson, notoriamente, assistiu à infame perseguição de carro a OJ Simpson, do Hit Studio, em New York. Quando o circo julgamento se desdobrou, ao longo do próximo ano, ele pode ver, claramente, a maneira como o tribunal, jurados, e a ideia de justiça tinham sido infectados pela parasitária cobertura midiática. Simplesmente não havia garantias de que a verdade iria prevalecer, quando julgamentos eram transformados em programas de televisão e testemunhas se tornam celebridades, elas mesmas.

A morte de Diana, da mesma forma – um evento midiático mais global – foi devastadora para Michael Jackson. Embora o relacionamento deles fosse limitado (ele a encontrou uma vez, na Bad World Tour, e falou com ela, pelo telefone, algumas vezes), ele, há muito tempo, sentia uma afinidade com a Princesa de Gales. “Ela era muito afetuosa, muito amorosa, muito doce”, ele disse em uma entrevista em 1996. Quando ele soube da morte dela, ele literalmente se despedaçou. “Eu acordei”, ele recordou, “e meu médico me deu as notícias. E eu caí de tristeza e eu comecei a chorar. A dor… Eu sinto dor, no meu estômago e no meu peito. Então, eu disse: ‘Eu não posso lidar com isso… é demais. ’ Apenas a mensagem e o fato de que eu a conhecia pessoalmente”. A mensagem para Michael, é claro, era que a mídia tabloide poderia não somente zombar de você, perseguir você, roubar toda a sua privacidade, manipular a verdade e destruir sua reputação, mas eles poderiam, também, literalmente, matar você. Houve, é claro, outros fatores no acidente de carro da Princesa Diana, mas esse era o favorito de Jackson. Os paparazzi a tinham perseguido toda a vida e, agora, como o próprio irmão dela disse, “eles tinham sangue nas mãos”. “Eu tenho vivido este tipo de vida a minha vida inteira”, Jackson disse em uma entrevista aquele ano. “A imprensa tabloide… esse tipo de imprensa… Eu tenho corrido por minha vida assim, escondendo, fugindo… Você se sente como se tivesse na prisão.”

Para Jackson, é claro, tinha sido apenas poucos anos antes que ele sobreviveu a uma das maiores explosões do frenesi da mídia global da década, que se seguiu à acusação de que ele tinha molestado um menino. De muitas maneiras, isso foi o prelúdio para o espetáculo midiático de O.J. e Diana. Para os tabloides, assim como para os noticiários a cabo de vinte e quatro horas, isso foi a perfeita disputa por classificação. Michael Jackson era o maior artista do mundo. As pessoas continuavam fascinadas por ele. Agora, depois de anos apresentando histórias meramente excêntricas ou curiosidades, a mídia tinha um escândalo com apostas muito mais altas, que poderia ser explorado por meses, se não anos.

The Sun, um notório tabloide Britânico, foi o primeiro a espalhar a história. Outros vieram logo atrás. Apenas dias depois das alegações surgirem, a correspondente do Hard Copy, Diane Dimond, (que faria uma carreira em cima de Jackson) obteve uma cópia ilegalmente vazada do relatório de abuso do Departamento de Serviços à Criança, com todos os detalhes obscenos das alegações. Dentro de horas, o documento foi vendido para outras redes de imprensa, que convergiram da Califórnia para o mundo todo. Naquela noite, as alegações foram reportadas como a principal história em várias das principais redes de televisão.

Dalí, isso foi um ladeira escorregadia. Antes que qualquer coisa tivesse sido ao menos checada sobre as alegações, a mídia funcionou selvagemente. “Peter Pan ou Pervertido?”, gritava uma manchete do New York Post. “Escândalo da Década”, lia-se no título de um dos muitos similares programas da A Current Affair. As tomadas eram intencionalmente enganosas e alimentadas com “testemunhas” pagas. Mesmo as mais respeitadas redes de imprensa comprometeram normas em troca de classificações de audiência, unindo-se ao crescente frenesi. “Competições entre organizações de notícias se tornaram tão ferozes, que as histórias não estavam sendo checadas”, recorda Conan Nolan, repórter da KNBC, “isso foi muito infeliz”.

A cobertura de imprensa, entretanto, continuou implacavelmente. Em uma extensivamente procurada peça da GQ magazine, de 1995, a jornalista Mary Fisher descreveu isso como “um frenesi de exageros e rumores infundados, com a linha entre tabloide e jornalismo convencional virtualmente eliminada”.

A consequência para Jackson foi quase um ano de caça às bruxas por parte da mídia, no qual, artigo após artigo, e programa após programa, ofereceram especulações e insinuações, mas nenhuma evidência corroborativa ou testemunhas credíveis.

Para Jackson, contudo, a injustiça não terminou com a mídia. Isso estendeu ao departamento de polícia e o promotor distrital (Tom Sneddon) que gastou uma quantidade sem precedente de tempo, dinheiro e energia perseguindo, infrutiferamente, um indiciamento. Estava claro desde o início – pois, mais que setenta oficiais desceram na casa de Jackson, Neverland, em agosto de 1993 –, que isso não era um caso comum. Portas foram quebradas, colchões foram cortados e diários, livros, vídeos e fotos foram levados em caixas cheias. Os oficiais vasculharam cada metro quadrado da propriedade de Jackson – procurando em camas, mesas e armários, remexendo nos pertences pessoais dele. “Imagine ter alguém mexendo em todas as suas coisas, quando você está a milhões de milhas de distância”, Jackson, mais tarde, contou ao biografo J. Randy Taraborrelli. “Eles pegaram todos os tipos de coisas, coisas bobas como vídeos de mim na Disneyland, fotos dos meus amigos, caixas e caixas de coisas pessoais. E diários! Imaginem ter alguém estranho lendo seus pensamentos mais secretos, as mãos imundas deles passando por todas aquelas páginas privadas, pensamentos sobre [minha] Mãe e como eu me sinto sobre Deus. Isso foi perverso. E eu ainda não recebi de volta um monte de coisas. Isso me faz chorar, quando penso sobre isso. Mas em todos os meus objetos pessoais, não havia uma peça de evidência para provar que eu fiz alguma coisa errada.”

A humilhação também incluiria um exame despido, na qual foram tiradas fotos do pênis e nádegas. (Mais tarde foi revelado que as fotos não combinavam com a descrição do acusador.) Nenhum desses fatos, é claro, fizeram as mesmas manchetes que as alegações iniciais. “O que surgiu com a massiva investigação de Jackson?” perguntou Mary Fisher, no estudo do caso dela, de 1995. “Depois de milhões de dólares serem gastos pelos promotores e os departamentos de polícia, em duas jurisdições, e depois de dois grandes juris questionarem cerca de 200 testemunhas, incluindo 30 crianças que conheciam Jackson, nem uma única testemunha de corroboração pôde ser encontrada.” Por fim, o acusador se recusou a testemunhar, do mesmo modo – em 1993 e, de novo, em 2005. “Os promotores tentaram levá-lo a aparecer e ele não apareceu”, explicou o advogado de Jackson, Thomas Mesereau. “Se ele tivesse, eu tinha testemunhas que entrariam e diriam que ele contou a elas que isso nunca aconteceu e que ele nunca falou com os pais dele novamente por causa do que eles o fizeram dizer. Acontece que ele foi ao tribunal e pediu emancipação legal dos pais dele.”

Na verdade, Jackson nunca culpou o menino em questão. Em vez disso, ele se sentiu “traído” e manipulado pelos pais. Ele ficou especialmente irado, com o pai (Evan Chandler), que estava tentando extorquir dinheiro dele, durante meses antes das alegações surgirem. Em uma gravação telefônica, Chandler, realmente, admite que o bem estar do filho dele era “irrelevante”; se ele não conseguisse o que ele queria, seria “um massacre”. “Há outras pessoas envolvidas que estão esperando por meu telefonema, que estão em certas posições”; Chandler ameaçou. “Eu paguei a elas para fazer isso. Tudo esta acontecendo de acordo com certo plano que não é só meu. Uma vez que eu dê aquele telefonema, este cara [o advogado dele, Barry Rothman] destruirá todo mundo à vista, da forma mais sórdida e cruel que ele possa fazer. E eu dei a ele total autoridade apara fazer isso… E se eu for adiante com isso eu ganharei um grande momento. Não há nenhum jeito de eu perder. Eu chequei tudo. Eu conseguirei tudo que eu quiser e eles serão destruídos para sempre… A carreira de Michael vai acabar… Este homem será humilhado além do acreditável”
Apenas algumas semanas depois dessa ameaça, quando as tentativas de Chandler em conseguir o financiamento de Jackson para roteiros (Chandler era um aspirante a roteirista) falharam, ele foi em frente com o plano dele. As autoridades foram notificadas sobre as alegações, assim como a imprensa – e o “escândalo da década” estava em andamento.

Um revelador autorretrato de Jackson incluído como parte do livreto acompanhante para HIStory. À esquerda, está a letra da música dele, "Childhood".

Um revelador autorretrato de Jackson incluído como parte do livreto acompanhante para HIStory. À esquerda, está a letra da música dele, “Childhood”.

Jackson, é claro, manteve a inocência dele por toda a vida. “Eu nunca poderia ferir uma criança ou ninguém. Isso não está no meu coração, isso não é o que eu sou”, ele disse a Diane Sawyer em 1995. Em outra entrevista, ele disse que ele “cortaria os pulsos dele”, antes de machucar uma criança. As alegações de 1993, porém, provaram ser uma experiência traumática com efeitos prolongados, incluindo um vício crescente em analgésicos e, ainda, mais isolamento do mundo exterior. Depois de meses do que ele descreveu como um “horrível, horrível, pesadelo” – incluindo a completa demolição do caráter dele pela imprensa, a invasão do lar dele e o desumano exame sem roupa– Jackson decidiu que ele já tivera o bastante.

Uma vez que ele soube dos advogados dele que o “pesadelo” poderia continuar por anos, em públicas, prolongadas, humilhantes batalhas judiciais, Jackson os instruiu a ceder às exigências de Evan Chandler e fazer um acordo. “Eu conversei com meus advogados”, Jackson lembrou, “e eu disse: ‘Vocês podem me garantir que a justiça vai prevalecer? ’ E eles disseram: ‘Michael nós não podemos garantir a você que um juiz ou um júri irá fazer coisa alguma. ’ E com isso eu fiquei meio que catatônico. Eu estava ultrajado. Totalmente ultrajado. Assim, o que eu disse… Eu tenho que fazer alguma coisa para sair deste pesadelo. Todas estas mentiras e todas estas pessoas se apresentando para serem pagas e todos estes programas tabloides, apenas mentiras, mentiras, mentiras. Portanto, o que eu fiz – nós nos reunimos, novamente, com meus advogados e eles me aconselharam… isso foi todas as mãos para baixo, uma unanimidade – resolver o caso. Poderia ser algo que continuaria por mais de sete anos. Nós dissemos: vamos deixar isso para trás.”

  Jackson e Lisa Marie Presley sorriem para        a câmera em Versailles, França, em 1995.

Jackson e Lisa Marie Presley sorriem para
a câmera em Versailles, França, em 1995.

 

 

Livro Man in the music Cap 5 – HIStory (continuação)

Sobre PoemforMJ

Michael ... "Quando olho no dentro dos seus olhos eu sei que é verdade.Deus deve ter gasto um pouco mais de tempo em você!"
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