Livro Moonwalk a autobiografia de Michael Jackson cap 1 – 1/3 : APENAS CRIANÇAS COM UM SONHO

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Eu sempre quis contar histórias, vocês sabem, histórias que me saíssem da alma. Gostaria de sentar-me junto ao fogo e contar histórias para as pessoas, fazê-las ver fotografias, fazê-las chorar e rir, levá-las emocionalmente a qualquer lugar com algo tão simples como palavras. Gostaria de contar histórias que movessem suas almas e as transformassen.
Imagino como devem sentir-se os grandes escritores, sabendo que eles têm esse poder.

Às vezes eu sinto que eu poderia fazê-lo. É algo que eu gostaria de desenvolver. De alguma forma, o escrever canções utiliza as mesmas habilidades, cria oscilações emocionais, mas a história é curta. É como o mercúrio. Existem muito poucos livros sobre a arte de contar histórias, como manter a atenção dos leitores, como montar um grupo de pessoas e diverti-las. Sem roupa, sem maquiagem, sem nada, somente você e sua voz e sua poderosa habilidade para levá-las a qualquer lugar, para transformar suas vidas, mesmo que seja apenas por alguns minutos.

Ao começar a contar minha própria história, quero repetir o que eu usualmente digo às pessoas quando me perguntam sobre meus primeiros dias com o “Jackson 5”: Eu era tão pequeno quando começamos a trabalhar em nossa música que realmente não me lembro de muita coisa. Muitas pessoas desfrutam do luxo de ter feito carreiras que começam quando tem idade suficiente para saber exatamente o que e por que estão fazendo, mas, claro, comigo não se passou assim. Eles lembram tudo o que aconteceu a eles, mas eu só tinha cinco anos. Quando você é uma criança do show businees, você realmente não tem a maturidade para entender muitas das coisas que acontecem ao seu redor. Pessoas tomam muitas decisões sobre sua vida quando você sai da sala. Então, é isso que eu me lembro.
Lembro-me cantando no mais alto da minha voz e dançando com autêntica alegria e trabalhando tão duro sendo uma criança. Claro, existem muitos detalhes que não me lembro de todo. Lembro-me que o “Jackson 5” realmente decolou quando eu tinha somente oito ou nove anos.

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Imagine cantando e dançando nesta idade

Nasci em Gary, Indiana, em uma das últimas noites do verão de 1958, e fui o sétimo dos nove filhos de meus pais. Meu pai, Joe Jackson, nasceu em Arkansas, e em 1949 se casou com minha mãe, Katherine Scruse, cuja família veio do Alabama. Minha irmã Maureen nasceu no ano seguinte e teve a difícil tarefa de ser a mais velha. Jackie, Tito, Jermaine, LaToya e Marlon foram os próximos da linha. Randy e Janet vieram depois de mim.

Uma parte das minhas primeiras lembranças é do meu pai trabalhando na fundição de aço. Era um trabalho duro e paralisante, e ele dedicava-se à música para distrair-se. Ao mesmo tempo, minha mãe trabalhava em uma loja de departamento.
Por causa do meu pai e também do próprio amor da minha mãe à música, nós a ouvíamos o tempo todo em casa.
Meu pai e seu irmão formaram um grupo chamado “The Falcons”, que foi a banda local de R & B. Meu pai tocava guitarra, assim como seu irmão. Eles tocavam algumas canções do início do rock’n’roll e blues de Chuck Berry, Little Richard, Otis Redding. Todos aqueles estilos eram surpreendentes e cada um teve influência sobre Joe e sobre nós, apesar de sermos tão jovens para percebermos isso naquela época. The Falcons ensaiavam na sala da nossa casa em Gary, de modo que eu fui criado no R & B. Como éramos nove filhos e o irmão de meu pai tinha outros oito filhos, todos nós, juntos, constituíamos uma grande família.

Música era o que tínhamos para diversão e aqueles momentos nos ajudavam a permancermos juntos e de alguma maneira davam respaldo a meu pai para que se conduzisse como um homem orientado pela idéia de família. “The Jackson 5” nasceram desse espírito – mais tarde adotamos o nome “The Jacksons” – e, como resultado dessa formação e tradição musical eu me desenvolvi por minha conta e criei o meu próprio som.

Eu lembro minha infância como composta em sua maior parte por trabalho, apesar de que eu amava cantar.
Não fui obrigado a entrar nesta profissão por pais dedicados ao espetáculo, como ocorreu com Judy Garland.
Eu o fiz porque eu gostava e porque era natural para mim como inspirar e expirar. Fiz isso porque fui compelido a fazê-lo, não por pais ou família, mas por minha própria vida interior no mundo da música.

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Meu pai e minha mãe

Houve momentos, permita-me-deixar isso claro, quando eu chegava da escola e só tinha tempo para guardar meus livros e preparar-me para o estúdio. Uma vez lá, eu cantava até tarde da noite, até que passasse a hora de ir dormir, realmente. Havia um parque do outro lado da rua do estúdio da Motown, e lembro-me olhando para aquelas crianças que brincavam. Eu somente olhei-as com espanto – não poderia imaginar tal liberdade, uma vida despreocupada – e desejar mais do que qualquer coisa ter esse tipo de liberdade, poder ir embora e ser como eles. Então, houve momentos tristes na minha infância. É verdade para qualquer estrela mirim. Elizabeth Taylor me disse que sentia o mesmo. Quando você é jovem e está trabalhando, o mundo pode parecer terrivelmente injusto. Eu não fui forçado a ser o pequeno Michael, o vocalista – eu fiz isso e amei fazê-lo – mas foi um trabalho duro. Se estávamos preparando um álbum, por exemplo, tínhamos que ir ao estúdio ao sairmos da escola e podia acontecer de almoçarmos ou não. Às vezes não havia tempo nem para isso. Voltava para casa exausto, e podiam ser onze ou meia noite, muito mais tarde da hora de deitar-me.

Deste modo, identifico-me profundamente com qualquer um que tenha trabalhado como uma criança. Eu sei como eles lutaram, eu sei o que eles sacrificaram. Também sei o que eles aprenderam. Eu aprendi que o desafio vai aumentando à medida que se fica mais velho. Eu me sinto velho por algumas razões. Eu realmente sinto como uma alma velha, como alguém que viu e experimentou muito. Porque todos os anos que vivi, é difícil para mim aceitar que só tenho vinte e nove anos. Eu estou no negócio por vinte e quatro anos. Algumas vezes me sinto como se estivesse ao final de minha vida. fazendo oitenta anos, com pessoas dando-me tapas nas costas. Este é o resultado de ter começado tão jovem.

Quando eu performei pela primeira vez com meus irmãos, éramos conhecidos como os Jacksons. Mais tarde, nos tornamos o Jackson 5. Ainda mais tarde, depois de sairmos da Motown, recuperamos o nome Jacksons novamente.

Cada um de meus álbuns ou dos álbuns do grupo tem sido dedicado a nossa mãe, Katherine Jackson, desde que assumimos nossa própria carreira e começamos a produzir nossa música. Minhas primeiras recordações são dela segurando-me e cantando canções como “You Are My Sunshine” e “Cotton Fields”. Ela cantava para mim e para meus irmãos e irmãs frequentemente. Embora ela tivesse vivido em Indiana por algum tempo, minha mãe cresceu no Alabama, e naquela parte do país era simplesmente comum para pessoas negras serem educadas com música country e música ocidental colocada no rádio, como era para eles ouvirem as espirituais na igreja (músicas da igreja: nota do blog). Ela gosta de Willie Nelson hoje. Ela sempre teve uma linda voz e suponho que recebi da minha mãe e, naturalmente, de Deus, minha habilidade para cantar.

A mãe tocava clarinete e o piano, que ensinou minha irmã mais velha Maureen, a quem chamamos Rebbie, tocar, bem como havia ensinado a minha outra irmã mais velha, La Toya. Minha mãe sabia, desde a tenra idade, que nunca iria performar a música que ela amava em frente de outros, não porque ela não tinha o talento e a habilidade, mas porque ela foi prejudicada pela polio enquanto criança.
Ela se recuperou da doença, mas não sem mancar permanentemente ao andar. Ela teve que perder uma grande quantidade de aulas enquanto criança, mas ela nos contou que teve sorte por haver se recuperado em uma época em que muitos morriam da doença. Lembro-me de quão importante era para ela que nós tomássemos a vacina. Ela até nos fez com que faltássemos a um espetáculo do clube juvenil em um sábado à tarde. Tal era a importância que tinha em nossa família.

Minha mãe sabia que sua polio não era uma maldição, mas um teste que Deus deu a ela para triunfar e ela incutiu em mim um amor por Ele que eu sempre terei. Ela me ensinou que meu talento para cantar e dançar era tanto obra de Deus como um belo pôr do sol ou uma tempestade que deixou a neve para as crianças brincarem. Apesar de todo o tempo que gastamos ensaiando e viajando, a mamãe encontrava tempo para me levar ao Salão do Reino dos Testemunhas de Jehová, geralmente com Rebbie e La Toya.

Anos mais tarde, depois de termos deixado Gary, nós performamos no “The Ed Sullivan Show”, o show de variedades ao vivo aos domingos à noite, onde a América viu pela primeira vez os Beatles, Elvis e Sly and The Family Stone. Após o show, Mr. Sullivan nos cumprimentou e agradeceu a cada um de nós, mas eu estava pensando no que ele tinha dito a mim antes do show. Eu estava andando nos bastidores, como o garoto do comercial da Pepsi e corri para Mr. Sullivan. Ele parecia feliz em me ver e apertou minha mão, mas antes que ele saísse, tinha uma mensagem especial para mim.
Era 1970, um ano quando algumas das melhores pessoas no rock estavam perdendo suas vidas para drogas e álcool. Uma geração mais velha, mais sábia no show business não estava preparada para perder seus membros mais jovens. Algumas pessoas já haviam dito que eu lembrava a eles Franklie Lymon ( Frankie Lymon foi um cantor e compositor de R& B afroamericano, líder da banda novaiorquina ‘The Teenagers da década de 1950 – nota do blog), um grande cantor jovem dos anos cinquenta que perdeu a vida daquela forma.
Ed Sullivan talvez tenha pensado em tudo isso quando me disse: ‘Nunca se esqueça de onde seu talento vem, seu talento é um dom de Deus.’

Estava grato por sua bondade, mas eu poderia ter dito a ele que minha mãe nunca me deixou esquecer.

Eu nunca tive a pólio, que é uma coisa assustadora para um dançarino pensar, mas eu sabia que Deus havia testado a mim e a meus irmãos e irmãs de outras formas: nossa grande família, nossa pequena casa, a pequena quantidade de dinheiro que tínhamos para fazer frente às despesas, até mesmo as crianças ciumentas da vizinhança que atiravam pedras contra nossas janelas quando ensaiávamos, gritando que nunca faríamos isso. Quando eu penso em minha mãe e em nossos primeiros anos posso dizer a vocês que existem recompensas que vão muito além do dinheiro e aclamação do público e prêmios.

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Minha mãe e Janet em Indiana

Minha mãe era uma grande provedora. Se ela descobrisse que um de nós tinha interesse em alguma coisa, ela iria incentivá-la se houvesse alguma maneira possível.
Se eu desenvolvia um interesse em estrelas de cinema, por exemplo, ela chegava em casa com o braço cheio de livros sobre estrelas famosas. Mesmo com nove filhos, ela tratava a cada um de nós como um único filho.
Não há nenhum de nós que tenha esquecido alguma vez o quão duramente ela trabalhou e a grande provedora que ela era. É uma velha história.

Toda criança pensa que sua mãe é a maior do mundo, mas nós, os Jacksons, nunca perdemos aquele sentimento. Por causa da gentileza de Katherine, cordialidade e atenção, não posso imaginar como deve ser crescer sem um amor de mãe.

Uma coisa que sei sobre as crianças é que se elas não recebem de seus pais o amor que precisam, irão conseguir de outra pessoa e se apegarão a ela, um avô, qualquer um. Nós nunca tivemos que olhar para ninguém mais, com minha mãe ao redor.
As lições que ela nos ensinou foram inestimáveis. Bondade, amor e consideração para com outras pessoas encabeçavam sua lista. Não machucar pessoas. Nunca implorar. Nunca queira tirar vantagem dos outros. Estes eram pecado em nossa casa. Ela sempre quis que nós déssemos, mas nunca quis que pedíssemos ou suplicássemos. Esta é a maneira dela.

Lembro uma boa história sobre minha mãe que ilustra sua natureza.
Um dia, de volta a Gary, quando eu era realmente pequeno, um homem chamou em todas as portas logo pela manhã.
Ele sangrava tanto que você podia-se ver o caminho que havia seguido pela vizinhança. Ninguém iria deixá-lo entrar.
Finalmente chegou à nossa porta e começou a bater e bater. Minha mãe deixou que entrasse. Agora, a maioria das pessoas teriam tido medo de fazer isso, mas essa é a minha mãe.
Posso lembrar acordando e encontrando sangue em nosso chão. Gostaria que todos pudéssemos ser mais parecidos com minha mãe.

As lembranças mais antigas que eu tenho do meu pai são de vê-lo chegando em casa da siderúrgica com um grande saco de doughnuts glaseados para todos nós. Meus irmãos e eu podíamos, então, comer naquela época e aquele saco desapareceria em um estalar de dedos. Ele costumava levar-nos ao carrossel do parque, mas eu era tão jovem que não me lembro disso muito bem.

Meu pai sempre foi um mistério para mim e ele sabe disso.
Uma das poucas coisas que eu lamento mais é nunca ser capaz de ter uma proximidade real com ele. Ele construiu uma concha em torno de si ao longo dos anos e, uma vez que parou de falar sobre nossos negócios de família, achou difícil se relacionar conosco.
Estávamos todos juntos, e ele somente saía da sala. Ainda hoje lhe custa tocar no assunto de pais e filhos porque ele está tão constrangido. Quando eu vejo que ele está, fico constrangido também.

Meu pai sempre nos protegeu e isso não é pouca coisa.
Ele sempre tentou fazer com que as pessoas não nos enganassem. Ele cuidou de nossos interesses das melhores maneiras. Ele pode ter feito alguns poucos erros ao longo do caminho, mas sempre pensou que estava fazendo o que era certo para sua família. E, claro, a maior parte do que meu pai nos ajudou a realizar foi maravilhoso e único, especialmente no que diz respeito às nossas relações com empresas e pessoas nos negócios.

Eu diria que nós estávamos entre uns poucos artistas afortunados que saíam da infância nos negócios com alguma coisa substancial – dinheiro, bens, outros investimentos. Meu pai definiu tudo isso para nós. Ele olhou tanto para nossos interesses como para o seu. Até hoje eu sou tão agradecido a ele por não ficar com todo o dinheiro, coisa que, ao contrário, muitos pais de estrelas mirins fazem. Imagine, roubando de seus próprios filhos. Meu pai nunca fez nada parecido. Mas eu ainda não o conheço, e isto é triste para um filho que tem necessidade de entender seu próprio pai. Ele ainda é um homem misterioso para mim e pode ser sempre.

O que eu recebi de meu pai não caiu necessariamente do céu, ainda que a Bíblia diga que você colhe o que planta. Enquanto seguíamos adiante, o pai dizia isso de maneira diferente, mas a mensagem era igualmente clara: pode-se ter todo o talento do mundo, mas se não se prepara e planeja, não lhe serviria de nada.

Joe Jackson sempre amou cantar e música tanto quanto a minha mãe, mas ele também sabia que havia um mundo além da rua Jackson. Eu não tinha idade o suficiente para lembrar de seu grupo The Falcons, mas eles vinham a nossa casa ensaiar nos finais de semana.
A música os levava para longe de seus postos de trabalho na siderúrgica, onde o pai dirigia um guindaste. The Falcons tocavam em toda a cidade e em clubes e colégios pelo Norte de Indiana e Chicago. Nos ensaios de nossa casa, o pai tirava sua guitarra do armário e a conectava ao amplificador que tinha no porão. Todos se preparavam e a música começava.
Ele sempre amou do rhythm and blues e aquela guitarra era seu orgulho e alegria. O armário onde a guitarra era mantida era considerado um lugar quase sagrado. Desnecessário dizer que estava fora do nosso alcance quando éramos meninos.

O pai não ia ao Salão do Reino conosco, mas tanto mamãe como o pai sabiam que a música era uma maneira de manter unida a nossa família em um bairro onde as gangues delitivas recrutavam meninos da idade de meus irmãos. Os três mais velhos sempre tinham uma desculpa para estar por ali quando vinham The Falcons.
Papai os fazia pensar que estava dando um tratamento especial a eles por serem permitidos escutar, mas ele estava realmente ansioso para tê-los ali.

Tito assistia tudo o que estava acontecendo com o maior interesse. Ele havia aprendido a tocar o saxofone na escola, mas, podia dizer que suas mãos eram grandes o suficiente para dedilhar as cordas e entrar nas improvisações que meu pai tocava. Fazia sentido que se integrasse nelas porque Tito se parecia tanto com meu pai, que todos esperávamos que compartilhasse os talentos dele. A extensão da semelhança era impressionante à medida que ficou mais velho. Talvez meu pai notou o zelo de Tito porque ele estabeleceu regras para todos meus irmãos: ninguém poderia tocar a guitarra quando ele estivesse fora. E ponto.

Portanto, Jackie, Tito e Jermaine foram cuidadosos de que a mãe estivesse na cozinha quando eles “emprestavam” a guitarra. Eles também foram cuidadosos de não fazer nehum barulho quando pegavam-na. Então, voltavam ao nosso quarto e colocavam a rádio ou o pequeno toca-discos de forma que pudessem tocar. Tito colocava a guitarra sobre sua barriga enquanto se sentava sobre a cama apoiando-a.. Ele se revezava com Jackie e Jermaine, e todos tentam as escalas que estavam aprendendo na escola bem como descobrir como conseguir a partitura dos “Green Onions” que haviam escutado na rádio.

Naquela época eu tinha idade suficiente para entrar e observar se prometesse não dizer nada. Um dia, mamãe finalmente os descobriu, e todos nós ficamos preocupados. Ela ralhou com os meninos, mas disse que não contaria ao pai se nós tivéssemos cuidado. Ela sabia que a guitarra estava protegendo-os de ir-se com gente ruim e talvez apanharem. Assim, não estava disposta a tirar qualquer coisa que mantinham ao alcance de sua mão.

Claro, algo teria que ocorrer cedo ou tarde, e um dia uma corda quebrou. Meus irmãos em pânico, Não havia tempo para consertá-la antes que o pai regressasse à casa e, além disso, nenhum de nós sabia como fazer para consertá-la. Meus irmãos não descobriram o que fazer, então colocaram a guitarra de volta no armário e esperaram fervorosamente que meu pai pensasse que havia quebrado sozinha. É claro, o pai não comprou aquilo, e ficou furioso. Minhas irmãs me disseram para me manter fora disso e escondesse. Ouvi Tito chorando depois que o pai descobriu e fui investigar, claro. Tito estava em sua cama chorando quando o pai voltou e fez sinal para ele se levantar. Tito estava com medo, mas meu pai só ficou lá, segurando sua guitarra favorita. Ele deu um olhar duro e penetrante a Tito e disse: ‘Deixe-me ver o que você pode fazer.’

Meu irmão se recompôs e começou a tocar uns acordes que ele aprendeu sozinho. Quando meu pai viu o quão bem Tito poderia tocar, sabia que, obviamente, estava praticando e percebeu que Tito e o resto de nós não tratávamos sua guitarra favorita como se esta fosse um brinquedo. Tornou-se claro para ele que o que tinha acontecido foi somente um acidente.
Neste momento, minha mãe interveio e manifestou seu entusiasmo por nossa capacidade musical. Ela disse a ele que nós tínhamos talento e que ele deveria escutar-nos. Ela continuou puxando-nos, assim um dia o pai se dispôs a escutar-nos e gostou do que ouviu. Tito, Jackie e Jermaine começaram a ensaiar juntos seriamente.
Um par de anos mais tarde, quando eu tinha cerca de cinco anos, mamãe apontou para meu pai que eu era um bom cantor e poderia tocar os bongôs. Tornei-me um membro do grupo.

Desde então meu pai decidiu que o que estava acontecendo em sua família era sério. Gradualmente ele começou a gastar menos tempo com o The Falcons e mais com nós.
Tínhamos um ensaio juntos e ele nos deu dicas e nos ensinou técnicas na guitarra. Marlon e eu não tínhamos idade suficiente para tocar, mas assistíamos quando meu pai ensaiava os irmãos mais velhos e aprendíamos quando assistíamos.
A proibição em usar a guitarra do pai ainda se mantinha quando ele não estava por perto, mas meus irmãos amavam usá-las quando eles podiam. A casa na rua Jackson estava explodindo com a música. O pai e a mãe haviam pago por aulas de música para Rebbie e Jackie quando eram crianças pequenas, de modo que eles tinham uma boa base.
O resto de nós tivemos aulas de música e conjunto nas escolas de Gary, mas não muitas práticas eram suficientes para aproveitar toda aquela energia.

The Falcons ainda estavam ganhando dinheiro, contudo, aquele dinheiro extra de seus shows não frequentes era importante para nós. Era suficiente para manter comida na mesa para uma extensa família, mas não o suficiente para nos dar coisas que não eram necessárias. A mãe estava trabalhando tempo parcial na Sears e o pai estava ainda trabalhando na usina, e ninguém estava passando fome, mas, eu penso, olhando prá trás, ao evocar esta época me dá a sensação de que, no final, as coisas deviam parecer um grande negócio.

Um dia o pai estava atrasado na volta para casa e a mãe começou a ficar preocupada. Quando ele chegou, a mãe estava pronta a direcionar sua mente a ele, algo que nós, os meninos, não nos importávamos de assistir de vez em quando, simplesmente para ver como ele se sairia, mas

quando ele colocou a cabeça na porta, vimos que tinha um olhar travesso em seu rosto e que estava escondendo algo por trás. Ficamos todos em choque quando mostrou uma guitarra vermelha brilhante, um pouco menor que a do armário. Estávamos todos esperançosos que poderíamos pegar a antiga. Mas o pai disse que a nova guitarra era para Tito. Nos nos reunimos todos em volta para admirá-la, enquanto o pai dizia a Tito que tinha de compartilhá-la com quem quisesse praticar. Não estávamos autorizados a levá-la à escola para mostrá-la. Era um presente significativo e aquele dia foi uma ocasião importante para a família Jackson.

A mãe estava feliz por nós, mas ela também conhecia seu marido. Estava mais consciente que nós das grandes ambições e planos que ele tinha conosco. Ele tinha começado a falar a ela à noite após termos ido deitar. Ele tinha sonhos e esses sonhos não terminavam com uma guitarra. Logo estávamos lidando com equipamentos, não somente presentes. Jermaine conseguiu um baixo e um amplificador. Havia maracas para Jackie. (maraca é um instrumento de percussão – nota do blog).
Nosso quarto e nossa sala começaram a parecer uma loja de música. Às vezes tinha ouvido o pai e a mãe discutirem quando o assunto do dinheiro era trazido porque todos aqueles instrumentos e acessórios significavam que teríamos que passar sem algo de que necessitávamos cada semana. Papai foi persuasivo, firme e ele não perdia um truque.

Tivemos até microfones em casa. Parecia um real luxo naquela época, especialmente para uma mulher que estava tentando esticar um orçamento muito pequeno, mas eu vim a perceber que ter aqueles microfones em nossa casa não era somente uma tentativa de manter as aparências ou alguém em competições noturnas amadoras. Os microfones estavam ali para ajudar a nos preparar.
Eu vi as pessoas em show de talentos, que provavelmente soavam grandes em casa, mas caíam no momento em que se colocavam frente a um microfone. Outros começavam a gritar nas músicas para provar que não necessitavam dos microfones. Eles não tinham a vantagem que nós tínhamos-uma vantagem que somente a experiência pode dar a você.
Eu penso que isso provavelmente algumas pessoas tiveram inveja porque eles poderiam dizer que nossa habilidade com os microfones nos deu uma vantagem. Se isso fosse verdade, nós fizemos tantos sacrifícios – em nosso tempo livre, no trabalho escolar e amigos – que ninguém tinha direito de ter inveja. Estávamos nos tornando muito bons, mas estávamos trabalhando como pessoas que tinham o dobro de nossa idade.

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Johnny Jackson está tocando as baterias nesta primeira fotografia de publicidade

Enquanto eu assistia meus irmãos mais velhos, incluindo Marlon nos bongôs, o pai conseguiu dois jovens chamados Johnny Jackson e Randy Rancifer para que tocassem a bateria e o órgào. Motown diria mais tarde que eles eram nossos primos, mas aquilo era somente um embelezamento por parte do pessoal das relações públicas que queriam nos fazer parecer uma grande família. Tínhamos nos tornado um real grupo! Eu era como uma esponja, assistindo a todos e tentando aprender tudo o que eu podia. Absorvia tudo quando meus irmãos ensaiavam ou tocavam em eventos de caridade e centros comerciais.
Eu estava mais fascinado quando assistia Jermaine porque ele era o cantor naquele momento e era um grande irmão para mim – Marlon, pela idade, era bem proximo a mim também.
Foi Jermaine quem me levava ao jardim de infância e cujas roupas eram herdadas para mim.. Quando ele fazia algo, eu tentava imitá-lo. Quando tinha êxito nisso meus irmãos e o pai riam, mas quando comecei a cantar eles ouviram. Eu estava cantando em uma voz de bebê, imitando somente sons em seguida. Era tão jovem que não sabia o que muitas das palavras significavam, mas quanto mais eu cantava, melhor me saía.

Eu sempre soube dançar.
Eu assistia os movimentos de Marlon porque Jermaine tinha o grande baixo para transportar, mas também porque eu poderia manter contato com Marlon, que era apenas um ano mais velho que eu. Logo estava fazendo mais do que cantar em casa e preparando-me para me juntar aos meus irmãos em público.

Através de nossos ensaios, todos nós estávamos percebendo os nossos pontos fortes e fracos como membros do grupo e a mudança de responsabilidades estava produzindo de modo natural.

Retornando para casa em nossa pequena casa em Gary após nossos sucessos. A recepção foi esmagadora.

Retornando para casa em nossa pequena casa em Gary após nossos sucessos. A recepção foi esmagadora.

 

Nossos dias de escola em Gary são lembranças confusas prá mim. Eu lembro vagamente sendo deixado em frente de minha escola no primeiro dia de jardim de infância e lembro claramente detestando isso. Não queria que minha mãe me deixasse e, naturalmente, não queria estar ali.

Com o tempo me adaptei, como todas as crianças fazem, e aprendi a amar meus professores, especialmente as mulheres. Elas sempre foram muito doces conosco e elas simplesmente me amavam. Aquelas professoras eram tão maravilhosas; eu passava de uma série para a seguinte e elas todas choravam e me abraçavam e me diziam o quanto elas sentiam em me ver deixar suas classes. Eu era tão louco por minhas professoras que cheguei a roubar as jóias de minha mãe para presenteá-las. Elas se sentiam muito tocadas, mas eventualmente minha mãe descobriu e pôs fim a minha generosidade com suas coisas. Essa necessidade que tinha de dar-lhes algo em troca do que eu estava recebendo era a medida de como eu amava a elas e aquela escola.

Um dia, na primeira série, eu participei em um programa que foi apresentado diante de todo o colégio. Cada um de nós em cada classe tinha que fazer alguma coisa, então fui para casa e discuti isso com meus pais. Decidimos que usaria calças pretas e uma camisa branca e cantaria ‘Climb Every Mountain’, de The Sound Of Music. Quando terminei aquela música a reação no auditório tomou conta de mim.

O aplauso foi estrondoso e as pessoas estavam sorrindo; alguns deles estavam de pé.
Minhas professoras estavam chorando e eu simplesmente não podia acreditar.
Havia feito todos eles felizes. Era um sentimento profundo. Eu me senti um pouco confuso também porque não pensei que tivesse feito nada de especial. Estava somente cantando da forma que eu cantava em casa toda noite. Quando você está performando, você não percebe como soa ou como está comunicando.Você só abre a boca e canta.

Livro Moonwalk capítulo 1 – ( 2/3 ): APENAS CRIANÇAS COM UM SONHO

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Michael ... "Quando olho no dentro dos seus olhos eu sei que é verdade.Deus deve ter gasto um pouco mais de tempo em você!"
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