Livro Moonwalk a autobiografia de Michael Jackson capítulo 1 – ( 3 /3 ): APENAS CRIANÇAS COM UM SONHO

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Meu amor por chapéus começou muito antes de “Billie Jean”

Enquanto esperávamos, descobrimos que alguém que tinha nos visto no Apollo, havia nos recomendado para “The David Frost Show” na cidade de Nova Iorque. Estávamos indo para estar na TV! Aquela foi a maior emoção que nós já tivemos. Contei a todo mundo na escola, e contei duas vezes a uns que não acreditaram em mim. Estávamos para aparecer lá em poucos dias. Estava contando as horas. Tinha imaginado toda a viagem, tentando descobrir como seria o estúdio e como seria olhar para uma câmera de televisão.

Voltei para casa levando os deveres que meu professor havia me preparado na viagem. Tivemos mais um ensaio e então tivemos que fazer uma seleção final de músicas. Perguntava-me que músicas iríamos fazer.

Aquela tarde, o pai disse que a viagem para Nova Iorque foi cancelada. Nós todos paramos e ficamos olhando para ele.

Estávamos chocados. Eu estava pronto para chorar. Estávamos a ponto de conseguir nossa grande chance. Como eles poderiam ter feito isso conosco? O que estava acontecendo? Por que Mr. Frost tinha mudado sua opinião? Estava cambaleando e penso que todos estavam também. “Eu cancelei”, meu pai anunciou calmamente. Novamente todos nós olhamos para ele, incapazes de falar. “Motown chamou.” Um arrepio percorreu minha espinha.

Eu me lembro dos dias que antecederam aquela viagem com clareza quase perfeita. Posso me ver esperando Randy do lado de fora da classe de primeira série da escola. Era Marlon que o trazia para casa, mas nesse dia trocamos.

A professora de Randy desejou-me sorte em Detroit porque Randy tinha contado a ela que nós estávamos indo fazer uma audição para a Motown. Ele estava tão animado que eu mesmo tive que relembrar que ele realmente não sabia o que era Detroit. Toda a família falando sobre Motown e Randy nem sabia o que era uma cidade. A professora me contou que ele estava olhando para Motown no globo da sala de aula.
}Ela disse que na opinião dela deveríamos fazer “You Don’t Know Like I Know” do modo que ela nos viu fazer no Regal em Chicago quando um grupo de professores que se dirigiram até lá para nos ver. Ajudei Randy colocar seu casaco e educadamente concordei em mantê-la em mente – sabendo que não poderíamos fazer uma canção de Sam e Dave na audição da Motown porque eles eram da Stax, uma gravadora rival.
O pai contou-nos que as gravadoras levam a sério aquele tipo de coisa, assim, ele queria que soubéssemos que não poderia haver brincadeiras quando estivéssemos lá. Ele olhou para mim e disse que tinha gostado de ver seu cantor de dez anos, fazer onze.

Saímos do prédio da Garrett Elementary School caminhando devagar para casa, mas tivemos que apressar o passo. Lembro-me de ficar ansioso com um carro passar colando em nós, depois outro. Randy pegou minha mão e acenamos para o guarda de passagem. Eu sabia que La Toya teria que sair do seu caminho amanhã para levar Randy para a escola porque Marlon e eu deveria estar em Detroit com os outros.

A última vez que tocamos no Fox Theater em Detroit, saímos depois do show e voltamos direto para Gary às cinco horas da manhã. Eu dormi no carro a maior parte do caminho, assim, ir para a escola aquela manhã não foi tão ruim quanto podia ter sido. Mas no ensaio das três horas da tarde eu estava me arrastando como alguém com pesos de chumbo nos pés.

Poderíamos ter deixado aquela noite logo após nosso número, uma vez que éramos o terceiro da lista, mas isso significaria perder a primeira figura: Jackie Wilson. Eu tinha visto ele em outros palcos, mas no Fox ele e sua banda estavam em um palco elevado que levantava quando ele começava seu show. Cansado como eu estava depois da escola o dia seguinte, lembro-me tentando alguns daqueles movimentos no ensaio depois de ter praticado em frente a um grande espelho no banheiro da escola enquanto as outras crianças olhavam. Meu pai estava satisfeito e nós incorporamos esses passos em uma de minhas rotinas.

Pouco antes de Randy e eu virarmos a esquina para a rua Jackson, havia uma grande poça. Olhei para os carros, mas não havia nenhum, então, eu soltei a mão do Randy e pulei a poça, fazendo pressão com meus polegares para pular sem molhar as pontas da minha calça. Olhei de volta a Randy sabendo que ele queria fazer as coisas que eu fiz. Ele deu um passo atrás para conseguir começar a correr, mas eu percebi que aquela era uma poça muito grande, muito grande para ele atravessar sem se molhar, então, sendo um grande irmão em primeiro e um professor de dança em segundo, eu peguei ele antes que ele caísse e se molhasse.

Do outro lado da rua, as crianças da vizinhança estavam comprando doce e até mesmo alguns que estavam dando-me um tempo difícil na escola perguntaram quado nós iríamos para Motown. Eu lhes disse e comprei doce para eles e Randy também, com minha mesada. Não queria que Randy se sentisse mal por eu ir embora.

Quando nos aproximamos de casa eu ouvi Marlon gritar. “Alguém fecha aquela porta!” O lado do nosso mini-ônibus Volkswagen estava bem aberto, e eu estremeci pensando sobre o frio que iria estar na longa viagem até Detroit.
Marlon tinha nos mandado a casa e já estava ajudando Jackie carregar o ônibus com nosso material. Jackie e Tito chegaram em casa em tempo por uma vez. Eles estavam supostamente tendo práticas de basquete, mas o inverno em Indiana não tinha sido nada e estávamos ansiosos para ter um bom começo. Jackie estava no time de basquete do colégio naquele ano, e o pai gostava de dizer que a próxima vez que nós iríamos tocar em Indiana deveria ser quando Rosevelt fosse para os campeonatos estaduais. O deveria tocar entre os jogos da noite e da manhã e Jackie faria o tiro de lançamento para o título. O pai gostava de provocar-nos, mas você nunca sabia o que podia acontecer com os Jacksons. Ele queria que fôssemos bons em muitas coisas, não somente música. Eu penso que talvez ele tivesse aquele impulso de seu pai, que lecionava. Eu sei que meus professores nunca foram duros conosco como ele era, e eles eram pagos para ensinar e exigir.

A mãe veio à porta e deu-nos a garrafa térmica e os sandwiches que ela tinha embalado. Eu me lembro dela me dizendo para não rasgar a camisa de vestido que ela tinha guardado para mim depois de costura-lo na noite anterior. Randy e eu ajudamos a colocar algumas coisas no ônibus e depois voltamos para a cozinha, onde Rebbie estava mantendo um olho no jantar do pai e outro na pequena Janet, que estava na cadeira alta.

A vida de Rebbie nunca foi fácil como a mais velha. Sabíamos que logo que a audição da Motown acabasse, nós descobriríamos se teríamos que mudar ou não. Se nós mudássemos, ela mudaria para o Sul com seu noivo.
Ela sempre correu com as coisas quando a mãe estava na escola à noite terminando o diploma de ensino médio que lhe negaram por causa de sua doença.
Eu não podia acreditar quando a mãe nos contou que estava indo pegar seu diploma. Lembro preocupando-me que ela teria que ir para a escola com crianças da idade de Jackie ou Tito e que elas ririam dela. Lembro como ela riu quando eu disse isso a ela e como ela pacientemente explicou que estaria com outros adultos. É interessante ter uma mãe que faz lição como o resto de nós.

Carregar o ônibus foi mais fácil que o usual. Normalmente Ronnie e Johnny teriam vindo para nos dar suporte, mas os próprios músicos da Motown deveriam tocar atrás de nós, então, fomos sozinhos. Jermaine estava em nossa sala finalizando alguns de suas atribuições quando eu entrei. Sabia que ele queria tirá-las do caminho. Ele disse que nós deveríamos ir para a Motown por nós mesmos e deixar o pai, uma vez que Jackie tinha pego a chave do motorista e estava de posse de um molho de chaves. Nós dois rimos, mas no fundo, eu não podia imaginar indo sem o pai. Mesmo nas ocasiões quando a mãe levava nossos ensaios depois da escola porque o pai não havia chegado de seu turno em casa a tempo, ainda era como tê-lo lá porque ela agia com os olhos e ouvidos dele. Ela sempre sabia o que tinha sido bom na noite anterior, e o que tinha ficado inconsistente hoje. O pai saberia disso à noite. Parecia que eles davam sinais ou alguma coisa um ao outro – O pai podia sempre dizer se nós estaríamos tocando como supúnhamos por alguma indicação invisível da mãe.

Não houve um longo adeus na porta quando saímos para a Motown. Mamãe estava acostumada com nossa ausência por dias e durante férias escolares. La Toya ficou um pouco amuada porque queria ir. Ela tinha somente nos visto em Chicago e nunca pudemos ficar tempo suficiente em lugares como Boston ou Phoenix para trazer alguma coisa a ela na volta. Penso que nossas vidas podiam parecer bastante encantadoras para ela porque ela tinha que ficar em casa e ir para a escola. Rebbie tinha suas mãos ocupadas tentando colocar Janet para dormir, mas disse adeus e acenou. Dei a Randy um último afago na cabeça e nós saímos.

O pai e Jackie olharam o mapa quando começamos a andar, a maior parte por costume, porque tínhamos ido para Detroit antes, claro. Passamos pelo estúdio de Mr. Keith no centro da cidade junto ao City Hall enquanto atravessamos a cidade. Tínhamos feito alguns demos no estúdio de Mr. Keith que o pai enviou para Motown depois do disco da Steeltown. O sol estava se ponto quando nós batemos a estrada. Marlon anunciou que se ouvíssemos nossos registros na WVON (rádio – nota do blog) isso iria nos trazer sorte. Todos nós concordamos. O pai nos perguntou se nos lembrávamos o que WVON significava enquanto ele cutucava Jackie para que este ficasse quieto. Fiquei olhando pela janela, pensando sobre as possibilidades que se seguiriam adiante, mas Jermaine interrompeu. “Voz de Negro,” ele disse.
Logo estávamos dando nomes a todas as estações. “WGN-World’s Greatest Newspaper” (O Maior Jornal do Mundo). A Tribuna de Chicago era o proprietário. “WLS -World’s Largest Store.” (Sears) – (A Maior Loja do Mundo). “WCFL…” Nós paramos, perplexos. “Chicago Federation of Labor,”(Federação do Trabalho de Chicago), o pai dsse, apontando para a garrafa térmica. Viramos para I-94, e a estação de Gary desapareceu sob a estação de Kalamazoo. Começamos a dar voltas procurando músicas dos Beatles na CKLW de Windsor, Ontário, Canadá.

Sempre tinha sido um fã do Monopoly (jogo Banco Imobiliáio – nota do blog) em casa e lá havia alguma coisa sobre como dirigir a Motown que era um pouco como aquele jogo. No Monopoly você pode ir ao redor do tabuleiro comprando coisas e tomando decisões; o circuito de teatro onde tocamos e vencemos concursos era tipo como o tabuleiro do Monopoly cheio de possibilidades e armadilhas. Depois de todas as paradas ao longo do caminho, nós finalmente aterrizamos no Apollo Theater em Harlen, que era definitivamente o parque do lugar para jovens artistas como nós. Agora estávamos no nosso caminho, a estrada principal dirigindo-se para a Motown. Deveríamos vencer o jogo ou passaríamos ao seguinte com um extenso tabuleiro separando nosso objetivo para outro circuito?

Havia alguma coisa mudando em mim, e eu poderia sentir isso, mesmo tremendo no microônibus. Por anos, fizemos o caminho até Chicago perguntando se éramos bons o suficiente para sair alguma vez de Gary, e nós éramos. Assim, pegamos o carro para Nova Iorque, certos de que iríamos afundar se não fôssemos bons o suficiente para triunfar lá. Mesmo essas noites em Philadelphia e Washington não me tranquilizaram o suficiente para me impedir de perguntar se não havia alguém ou algum grupo que não conhecíamos em Nova Iorque que poderia nos vencer. Quando fizemos uma audição demolidora no Apollo, finalmente sentimos que nada poderia ficar no nosso caminho. Estávamos indo para Motown e tampouco nada lá iria nos surpreender. Estávamos indo surpreendê-los, assim como sempre fizemos.

O pai tirou as instruções do porta-luvas e paramos fora da estrada, passando no final da Woodward Avenue. Não havia muitas pessoas nas ruas porque era uma noite de aulas para todos os outros.

O pai estava um pouco nervoso sobre se nossas acomodações deveriam estar ok, que me surpreendeu até eu perceber que o pessoal da Motown tinha escolhido o hotel. Nào estávamos acostumados ter as coisas feitas para nós. Gostávamos de ser nossos próprios patrões. O pai tinha sido sempre nosso agente de reserva, agente de viagem, e gerente. Quando ele não estava cuidando dos nossos arranjos, a mãe estava. Então, não era de admirar que mesmo a Motown conseguiu fazer com que o pai suspeitasse que ele deveria ter feito as reservas, que ele deveria ter tratado de tudo.

Ficamos no Gotham Hotel. As reservas tinham sido feitas e tudo estava em ordem. Havia uma TV em nossa sala, mas todas as estações tinham terminado, e com a audição às dez horas, não era o caso de ficar até mais tarde. O pai nos colocou direito na cama, trancou a porta e saiu. Jermaine e eu estávamos demasiado cansados até mesmo para conversar.

Levantamos todos na hora certa na manhã seguinte; o pai cuidou disso. Mas, na verdade, estávamos tão animados quanto ele e pulamos da cama quando ele nos chamou. A audição foi incomum para nós porque não tínhamos tocado em muitos lugares onde eles esperavam-nos ser profissional. Sabíamos que iria ser difícil julgar se estávamos fazendo bem. Estávamos acostumados com a resposta da audiência se estávamos competindo ou somente nos apresentando em um clube, mas o pai tinha contado que quanto mais ficássemos, mais eles queriam ouvir.

Subimos na VW (Volkswagen – nota do blog) depois do leite e cereal do café. Notei que eles ofereceram aveia no menu, então eu sabia que lá havia muitas pessoas do Sul que permaneciam lá. Até então, nunca tínhamos estado no Sul e queria visitar a parte da mãe no país algum dia. Queríamos ter um senso de nossas raízes e aquelas de outras pessoas negras, especialmente depois do que tinha acontecido para Dr. King (Martin Luther King Jr, ativista político – nota do blog).
Eu me lembro tão bem o dia que ele morreu. Todo mundo ficou arrasado. Nós não ensaiamos aquela noite. Eu estava no Salão do Reino com a mãe e alguns dos outros. Pessoas estavam chorando como se tivessem perdido um membro da própria família. Mesmo os homens que usualmente não se comoviam, foram incapazes de controlar sua tristeza.
Eu era tão jovem para compreender toda a tragédia da situação, mas quando eu olho de volta para aquele dia agora, me faz querer chorar – por Dr. King, por sua família, e por todos nós.

Jermaine foi o primeiro a localizar o estúdio que era conhecido como Hitsville, USA. Parecia desorganizado, o que não era a mimha expectativa. Nos perguntamos quem podia ver, que podia estar lá fazendo um registro aquele dia. O pai tinha nos treinado para deixar a ele toda a conversa. Nosso trabalho era realizar a performance como nunca havíamos feito antes. E aquilo era pedir muito, porque sempre colocamos tudo em cada performance, mas sabíamos o que ele queria dizer.

Havia muitas pessoas esperando lá dentro, mas o pai disse a senha, e um homem com camisa e gravata veio ao nosso encontro. Ele sabia cada um de nossos nomes, o que espantou-nos. Ele nos pediu para deixarmos nosso casaco lá e segui-lo. A outra pessoa apenas olhava através de nós como se fôssemos fantasmas. Perguntei quem eles eram e quais eram as suas histórias. Tinham viajado longe? Tinham eles estado lá dia após dia na esperança de entrar sem uma consulta?

Quando entramos no estúdio, um dos homens da Motown estava ajustando uma câmera de cinema. Havia uma área instalada com instrumentos e microfones. O pai sumiu dentro de uma das cabines de som para falar com alguém. Tentei fingir que estava no teatro Fox, em cima do palco e que este foi apenas negócios como usual. Olhando em volta, eu decidi que se alguma vez eu construísse meu próprio estúdio, eu teria um microfone como um que eles tinham no Apollo, que subia do chão.
Quase caí de cara no chão uma vez descendo os degraus do porão para tentar descobrir para onde o microfone foi quando desapareceu lentamente sob o chão do palco.

A última música que nós cantamos foi “Who’s Lovin’You.” Quando terminamos, ninguém aplaudiu ou disse uma palavra. Eu não poderia ficar sem saber, então eu soltei: “Como foi?” Jermaine silenciou-me. Os homens mais velhos que estavam atrás de nós estavam rindo de alguma coisa. Olhei para eles com a ponta dos meus olhos. “Jackson Five, huh?” Um deles chamou com um grande sorriso no seu rosto. Eu estava confuso. Penso que meus irmãos estavam também.

O homem que havia nos levado de volta disse: “Obrigada por terem vindo.” Olhamos para o rosto do pai para alguma indicação, mas ele não parecia satisfeito ou desapontado. Era ainda dia quando saímos. Pegamos a I-94 de volta a Gary, vencidos, sabendo que havia lição de casa para fazer amanhã, perguntando se tudo aquilo era o que havia para isso.

Livro Moonwalk – A autobiografia de Michael Jackson- cap 3: MÁQUINA DE DANÇA – 1/4

Sobre PoemforMJ

Michael ... "Quando olho no dentro dos seus olhos eu sei que é verdade.Deus deve ter gasto um pouco mais de tempo em você!"
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