Livro Moonwalk capítulo 1 – ( 2/3 ): APENAS CRIANÇAS COM UM SONHO

 Um de nossos primeiros shows de talentos onde nós ganhamos um troféu. (foto acima)Ensaiando após a escola

Um de nossos primeiros shows de talentos onde nós ganhamos um troféu. (foto acima)
Ensaiando após a escola

 

Logo o pai estava nos preparando para concursos de talentos.
Ele era um grande treinador e gastou muito de dinheiro e tempo trabalhando com a gente. Talento é algo que Deus dá a uma pessoa, mas nosso pai ensinou-nos como cultivá-lo. Eu penso que nós também tínhamos um certo instinto para o show business.
Amávamos performar e colocávamos tudo o que tínhamos nisso. Ele sentava em casa conosco todos os dias depois da escola e nos treinava. Nós apresentávamos para ele e ele nos criticava. Se você distraísse, você apanhava, às vezes com um cinto, às vezes com um pau. Meu pai era realmente rigoroso com nós – realmente rigoroso. Marlon era um que estava todo o tempo em apuros.
Por outro lado, eu apanhava por coisas que aconteciam principalmente fora do ensaio. O pai me fazia tão furioso e magoado que eu tentava voltar para ele e batia ainda mais. Eu pegava um sapato e jogava-o nele, ou somente contra-atacava movendo meus punhos. Aquilo é porque eu recebi mais do que todos meus irmãos juntos. Eu contra-atacava e meu pai me mataria somente para rasgar-me. A mãe me disse que eu contra-atacava mesmo quando eu era muito pequeno, mas eu não me lembro daquilo.
Lembro-me correndo para baixo das mesas para me livrar dele e fazia-o enfurecer. Nós tínhamos uma relação turbulenta.

A maior parte do tempo, contudo, nós somente ensaiávamos. Nós sempre ensaiávamos. Às vezes, tarde da noite, tínhamos tempo para jogar ou brincar com nossos brinquedos. Podia ser um jogo de esconde ou pular corda, mas isso era tudo. A maior parte de nosso tempo era ocupada com trabalho. Eu lembro claramente correndo para dentro de casa com meus irmãos quando meu pai chegava em casa porque nós estaríamos em grande problema se não estivéssemos prontos para começar os ensaios pontualmente.

Através disso, minha mãe era completamente solidária. Ela tinha sido quem primeiro reconheceu nosso talento e continuou a nos ajudar a realizar nosso potencial. É difícil imaginar que teríamos chegado até onde chegamos sem seu amor e bom humor. Ela se preocupava sobre o stress que estávamos e as longas horas de ensaios, mas nós queríamos ser o melhor que poderíamos ser e realmente amávamos música.

Música era importante em Gary.
Tínhamos nossa própria estação de rádio e boates, e não faltavam pessoas que quisessem estar ali.
Após o pai dirigir nosso ensaio de sábado à tarde, ele ia ver um show local ou se dirigia a Chicago para ver alguém performar. Ele sempre assistia coisas que poderiam ajudar-nos em nossa carreira. Ele chegava em casa e contava-nos o que tinha visto e quem estava fazendo o quê. Estava a par das últimas novidades, tanto se se tratava de um teatro local que organizava concursos que pudéssemos entrar, ou Cavalcade of Stars show (show de variedades da tv nos EUA dos anos 50 – nota do blog) com grandes números de cujos vestidos ou movimentos pudéssemos adaptar.Eu não vía o pai até voltar do Salão do Reino aos domingos, mas, tão logo eu entrava em casa, ele me contava o que havia visto na noite anterior. Garantiu-me que eu poderia dançar sobre uma perna como James Brown somente se eu tentasse este passo. Aí estava eu, recém-chegado da igreja e envolvido no show business.

Começamos a colecionar troféus com nossos números quando eu tinha seis anos. Nossa programação estava definida; o grupo caracterizou-me o segundo da esquerda, de frente à audiência, Jermaine depois de mim, e Jackie à minha direita. Tito e sua guitarra se situava à direita com Marlon ao seu lado. Jackie estava crescendo e já era mais alto que Marlon e eu. Mantivemos esta posição concurso após concurso e trabalhamos bem. Enquanto outros grupos que encontrávamos brigavam entre si e desistiam, nós estávamos nos tornando mais polidos e experientes. As pessoas em Gary que vinham regularmente ver os shows de talentos mostraram conhecer-nos, assim nós tentávamos nos superar e surpreendê-los. Não queríamos que começassem a sentir-se entediados de nossos números. Sabíamos que mudar era sempre bom, que isso nos ajudava a crescer, assim, nunca tivemos medo disso.

Ganhar uma noite amadora ou show de talento em um número de dez minutos, duas canções, consumia tanta energia como um concerto de noventa minutos. Estou convencido que porque não há espaço para erros, sua concentração te consome mais e mais em uma ou duas canções que quando tem o luxo de doze ou quinze em uma apresentação. Esses shows de talentos foram nossa educação profissional. Às vezes viajávamos centenas de quilômetros para apresentar uma ou duas canções e esperar que a multidão não estivesse contra nós porque não éramos talentos locais. Estávamos competindo contra pessoas de todas as idades e habilidades, de números rápidos a comediantes, a outros cantores e dançarinos como nós. Tínhamos que pegar aquela audiência e mantê-la. Nada era feito ao acaso, assim, roupas, sapatos, cabelo, tudo tinha que ser a forma como o pai planejava. Realmente parecíamos incrivelmente profissionais. Após todo esse planejamento, se nós realizássemos as músicas da forma como havíamos ensaiado, os prêmios chegariam por si mesmos. Isso era verdade mesmo quando estávamos na parte do Wallace High da cidade onde os vizinhos tinham seus próprios artistas e torcida e estávamos desafiando-os em seu próprio território. Naturalmente artistas locais sempre tinham seus próprios fãs leais, então sempre que saíamos de nosso território e íamos a outro, era muito difícil. Quando o mestre de cerimônia colocava sua mão sobre nossas cabeças para a “medida de aplauso”, nós queríamos ter certeza da multidão saber que tínhamos dado mais do que ninguém.

Como músicos, Jermaine, Tito e o resto de nós estávamos sob tremenda pressão. Nosso gerente era o tipo que nos recordava que James Brown multava seus “Famous Flames” se eles se esquecessem uma frase ou desafinassem uma nota durante uma apresentação. Como vocalista principal, eu sentia que eu – mais do que os outros – não poderia permitir-me uma “noite livre”. Posso lembrar estando no palco à noite depois de estar na cama doente o dia todo. Era difícil me concentrar nessas ocasiões já que eu sabia que meus irmãos e eu tínhamos que fazer todas as coisas tão bem, que eu poderia ter realizado as rotinas dormindo. Em horas como aquelas, tinha que me lembrar de não olhar para alguém que eu conhecia na platéia ou ao mestre de cerimônia. Cada um deles poderia distrair um jovem artista. Tínhamos músicas que as pessoas conheciam da rádio ou músicas que meu pai sabia que já eram clássicas. Se você errasse, você ouviria sobre isso porque os fãs conheciam essas músicas e sabiam como se supunha soar. Se você fosse mudar um arranjo, era necessário soar melhor que o original.

Vencemos o show de talentos em toda a cidade quando eu tinha oito anos com nossa versão da músicas do Templations, “My girl”. A competição foi realizada a apenas alguns quarteirões de distância da Rosevelt High. Desde que soaram as notas de abertura do baixo de Jermaine e os primeiros solos da guitarra de Tito todos os cinco de nós cantando o refrão, tínhamos pessoas de pé por toda a música. Jermaine e eu revezávamos versos, enquanto Marlon e Jackie dançavam. Foi uma sensação maravilhosa para todos nós passar aquele troféu, o maior até então, indo e voltando entre nós. Eventualmente foi colocado no banco da frente como um bebê e voltamos prá casa com o pai dizendo-nos: “Quando vocês fazem como fizeram esta noite, não podem deixar de dar a vocês.”

Éramos agora os campeões da cidade de Gary e Chicago era nosso próximo objetivo porque era a área que oferecia o trabalho mais estável e, de longe, a melhor recomendação. Começamos a planejar seriamente nossa estratégia. O grupo do meu pai tocava o som de Chicago de Muddy Waters and Howlin’ Wolf, mas ele já tinha a mente aberta o suficiente para ver que os mais otimistas, sons comerciais que atraíam a nós crianças, tinham muito a oferecer. Tínhamos sorte porque algumas pessoas desta idade não eram daquele estilo. De fato, éramos músicos que pensavam que as músicas dos anos sessenta estava abaixo do nível de pessoas de sua idade, mas não o pai. Ele reconheceu grandes músicas quando as ouvia, mesmo nos dizendo que viu o grande grupo doo-wop de Gary, os Spaniels, quando eles eram estrelas com poucos anos acima de nós. Quando Smokey Robinson do The Miracles cantou uma música como “Tracks of My Tears” ou “Ooo, Baby Baby”, ele tinha ouvido quão difícil era prá nós.

Os anos sessenta não deixaram Chicago para trás musicalmente. Grandes cantores como The Impressions com Curtis Mayfield, Jerry Butler, Major Lance, e Tyrone Davis estavam tocando por toda a cidade nos mesmos lugares que nós estávamos. Neste ponto, nosso pai estava dirigindo-nos em tempo integral, com somente algumas horas na fábrica. Mamãe tinha algumas dúvidas sobre a firmeza de sua decisão, não porque ela pensava que não éramos bons, mas porque ela não conhecia mais ninguém que estava gastando a maior parte de seu tempo tentando introduzir seus filhos no show business. Ela ficou ainda menos entusiasmada quando o pai contou a ela que tinha nos inscrito como uma apresentação regular no Mr. Lucky’s, um clube noturno de Gary. Estávamos sendo forçados a passar nossos fins de semana em Chicago e outros lugares tentando ganhar um número cada vez maior de shows amadores e estas viagens eram caras, então o trabalho no Mr. Lucky’s era uma forma de fazer isso tudo possível. A mãe estava surpresa com a resposta que estávamos tendo e estava muito satisfeita com os prêmios e a atenção, mas se preocupava muito conosco. Ela se preocupava comigo por causa da idade. “Isto é muito para a vida de um menino de nove anos,” ela diria olhando intensamente para meu pai.

Eu não sei o que meus irmãos e eu esperávamos, mas o público dos clubes noturnos não eram os mesmos da Rosevelt High. Tocávamos entre comediantes ruins, organizadores de cocktails, strippers. Com minha formação de Testemunha (Testemunha de Jeová, a religião de Michael – nota do blog), a mãe estava preocupada que eu estava saindo com pessoas erradas e sendo apresentado a coisas que seria melhor eu aprender muito mais tarde na vida. Ela não precisava se preocupar; somente um olhar para alguma daquelas strippers, não iria conseguir me interessar em problema – certamente não aos nove anos de idade! Aquele era um terrível modo de viver, pensei, e nos fez mais determinados a seguir em frente no circuito e tão longe como podíamos daquela vida.

Estar no Mr. Lucky significava que, pela primeira vez em nossas vidas, tivemos um show inteiro a fazer – cinco aparições por noite, seis noites por semana – e se o pai pudesse conseguir alguma coisa prá nós fora da cidade para a sétima noite, ele estava indo fazê-lo. Estávamos trabalhando duro, mas o público do bar não eram ruins para nós. Eles gostavam de James Brown e Sam e Dave, tanto como nós e, além disso, éramos algo extra que vinha grátis a eles com a bebida e o consumo, então eles ficavam surpresos e alegres. Mesmo nós tivemos algum divertimento com eles em um número, a música de Joe Tex “Skinny Legs and All.” (Joe Tex foi um cantor/compositor de rap dos anos 1960 e 1970 – nota do blog). Começávamos a música e em determinado momento durante a música eu iria para a platéia, esconder debaixo das mesas, e puxar as saias das senhoras para cima para olhar embaixo. As pessoas jogavam dinheiro enquanto eu escapava, e quando começava a dançar, recolhia todos os dólares e moedas que tinham deixado no chão e colocava nos bolsos da minha jaqueta.

Eu realmente não estava nervoso quando começamos a tocar em clubes por causa de toda a experiência que tive com audiência de show de talentos. Estava sempre pronto para sair e performar, você sabe, somente fazer isto – cantar e dançar e ter alguma diversão.

Naqueles dias trabalhamos em mais de um clube que tinha strippers. Usualmente ficava nos bastidores de um destes lugares em Chicago e assistia uma senhora cujo nome era Mary Rose. Eu devia ter nove ou dez anos. Esta garota tirava suas roupas e sua lingerie e jogava para o público. Os homens buscavam-nas, cheiravam-nas e gritavam. Meus irmãos e eu assistíamos tudo isso, captávamos, e meu pai não dava importância. Estávamos muito expostos fazendo esse tipo de circuito. Em um lugar na parede do camarim dos músicos havia um pequeno buraco que também coincidia com o vestiário das senhoras. Você podia espiar através deste buraco e eu vi coisas que nunca esquecerei. Caras daquele circuito eram tão selvagens, eles faziam coisas como pequenos furos para dentro das paredes do banheiro das senhoras o tempo todo. Naturalmente, estou certo que meus irmãos e eu estávamos brigando para poder olhar através do buraco. “Saia do caminho, é minha vez!” Empurrávamos uns aos outros para ocupar o lugar.

Mais tarde, quando fizemos o Apollo Theater em Nova Iorque, eu vi algo que realmente me surpreendeu porque eu não sabia que coisas como aquela existiam. Já tinha visto bastante um bom número de strippers, mas naquela noite aquela garota com lindos cílios e longos cabelos saiu e fez sua rotina. Ela realizou uma grande performance. De-repente, ela tirou a peruca, tirou um par de grandes laranjas para fora de seu sutiã e revelou que era um cara de face enérgica coberto por toda aquela maquiagem. Aquilo me surpreendeu. Eu era só uma criança e não podia sequer conceber uma coisa como aquela. Mas olhei para a platéia do teatro e estavam envolvidos no número, aplaudindo e torcendo loucamente. Eu sou somente uma pequena criança, nos bastidores assistindo esta coisa louca.Eu estava desintegrado.

Como eu disse, recebi muito em educação como uma criança. Mais do que a maioria. Talvez isto me deu liberdade para concentrar-me em outros aspectos da minha vida como um adulto.

Um dia, não muito depois de termos feito sucesso em clubes de Chicago, o pai trouxe para casa uma gravação de algumas canções que nunca tínhamos ouvido antes. Estávamos acostumados a tirar músicas populares de rádio, então estávamos curiosos do por quê ele começou a tocar essas canções repetidas vezes, apenas um cara cantando tão bem com alguns acordes de guitarra no fundo. O pai nos contou que o homem na gravação não era realmente um artista, mas um compositor que possuía um estúdio de gravação em Gary. Seu nome era Mr. Keith, ele tinha nos dado uma semana para praticar suas músicas para ver se nós podíamos fazer uma gravação delas. Naturalmente estávamos entusiasmados. Queríamos fazer um disco, qualquer disco.

Trabalhamos rigorosamente no som, ignorando as rotinas de dança que trabalhávamos normalmente para uma nova música. Não era muito divertido fazer uma música que nenhum de nós conhecia, mas já éramos profissionais o suficiente para ocultar nosso desapontamento e dar tudo o que podíamos à música. Quando estávamos prontos e sentimos que tínhamos feito nosso melhor com o material, o pai nos gravou após umas poucas tentativas e mais umas poucas conversas estimulantes, claro. Depois de um ou dois dias tentando descobrir se Mr. Keith havia gostado da gravação que tínhamos feito para ele, o pai de-repente apareceu com mais canções dele para que aprendêssemos para nossa primeira sessão de gravações.

Mr. Keith, como o pai, era um trabalhador de fábrica que amava música, somente que ele estava mais a par de gravação e final de negócios. Seu estúdio e gravadora chamava Steeltown. Olhando de volta a tudo isso, eu percebo que Mr. Keith estava tão animado quanto nós. Seu estúdio era no centro da cidade e fomos em uma manhã de sábado antes do “The Road Runner Show”, meu show favorito na época (série de desenhos animados produzidos pela Warner Bros em diversos períodos entre 1948 e 1973 – nota do blog). Mr. Keith recebeu-nos na porta e abriu o estúdio. Mostrou uma pequena cabine de vidro com todos os tipos de equipamentos e explicou o que cada um deles realizava. Não parecia que teríamos que depender mais de fitas de gravação, pelo menos não nesse estúdio. Coloquei alguns grandes fones de metal que chegavam até a metade da minha nuca e tentei fazer me parecer pronto para qualquer coisa.

Como meus irmãos foram descobrir onde ligar seus instrumentos e ficar, alguns backing vocals e um conjunto de instrumentos chegaram. Primeiro eu pensei que estavam lá para gravar conosco. Olhamos para o pai, mas ele não mudou sua expressão. Ele provavelmente tinha conhecimento sobre isso e aprovava. Mesmo assim, pessoas não sabiam jogar surpresas no pai. Disseram-nos para ouvir Mr. Keith, que nos instruiria enquanto estávamos na cabine. Se fizéssemos como ele disse, o registro sairia por si mesmo.

Big Boy" foi a nossa primeira canção gravada

Big Boy” foi a nossa primeira canção gravada

Depois de poucas horas, finalizamos a primeira música de Mr. Keith. Alguns dos backing vocals e trompetistas ainda não tinham feito gravações e encontraram dificuldades, mas eles também não tinham um perfeccionismo para um gerente, assim, eles não estavam acostumados a fazer coisas repetidas vezes da forma como nós estávamos. Em horas como essas que nós percebemos o quão duro o pai trabalhava para nos consumar profissionais. Voltamos nos próximos sábados colocando as músicas que ensaiamos durante a semana e levando cada vez uma nova fita do sr. Keith para casa. Um sábado, o pai ainda trouxe sua guitarra para se apresentar conosco. Foi a primeira e única vez que ele atuou conosco. Depois que os discos foram prensados, Mr. Keith nos deu algumas cópias, assim que, poderíamos vendê-las entre os números e depois dos shows. Sabíamos que esta não era a forma como os grandes grupos faziam isso, mas todo mundo tinha que começar de algum lugar e, naqueles dias, ter um registro com o nome de seu grupo era algo muito bom. Estávamos muito felizes.

Aquele primeiro single na Steeltown, “Big Boy”, tinha uma linha de significado. Era uma bela canção sobre um menino que queria se apaixonar por alguma menina. Claro, a fim de obter a imagem completa, você tem que imaginar um pequeno garoto de nove anos cantando esta canção. As palavras diziam que eu não queria ouvir mais nenhum conto de fadas, mas na verdade eu era muito jovem para entender os verdadeiros significados da maioria das palavras nessas canções. Eu somente cantava o que eles me davam.

Quando aquele registro começou a tocar na rádio em Gary, nos tornamos um grande negócio em nossa vizinhança. Ninguém podia acreditar que tínhamos nosso próprio disco. Tivemos dificuldade de acreditar nisso.

Depois daquela primeira gravação na Steeltown, começamos a procurar por todos os grandes shows de talentos de Chicago. Usualmente os outros intérpretes olhavam-me com cuidado quando eles me conheciam porque eu era tão pequeno, particularmente, os que foram depois de nós. Um dia Jackie estava dando gargalhadas como se alguém tivesse contado a ele a piada mais divertida do mundo. Este não era um bom sinal justo antes do show e eu pude contar ao pai que estava preocupado que ele ia estragar o show. O pai foi falar com ele, mas Jackie sussurrou alguma coisa em seu ouvido, e logo o pai estava rindo, com as mãos na cintura. Queria saber a piada também. Meu pai disse com orgulho que Jackie tinha ouvido o intérprete principal conversando entre eles. Um cara disse: “É melhor não deixar o Jackson 5 nos cortar esta noite com o anão que eles têm.”

Fiquei chateado no início porque meus sentimentos foram feridos. Pensei que estavam sendo mesquinhos. Não podia evitar de ser o menor, mas logo todos os outros irmãos estavam rindo também. O pai explicou que eles não estavam rindo de mim. Disse-me que eu deveria estar orgulhoso, que o grupo estava falando lixo porque eles pensavam que eu era um adulto posando como uma criança como um dos Munchkins no Mágico de Oz. O pai disse que se eu tinha aqueles caras falando como os garotos da vizinhança que nos causavam danos em Gary, então nós tínhamos Chicago na corrida.

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Na NAACP Image Awards

Performando juntos nos primeiros anos

Nós ainda tínhamos um bom caminho para percorrer. Depois de tocarmos em alguns bons clubes em Chicago, o pai assinou para que atuássemos nas competições noturnas amadoras no Royal Theater da cidade. Ele tinha ido ver B.B.King no Regal na noite em que ele fez o seu famoso álbum ao vivo. Quando o pai deu a Tito aquela afiada guitarra vermelha anos antes, havíamos feito brincadeira com ele pensando em garotas cujo nome ele depois poderia dar a sua guitarra, como Lucille, de B.B. King.

Vencemos aquele show por três semanas seguintes com uma nova música a cada semana para manter os membros regulares do público na expectativa. Alguns dos outros artistas reclamaram que era ganancioso manter-nos voltando outra vez, mas depois eles fizeram o mesmo que nós. Havia uma política de que se você vencesse a noite amadora três vezes seguidas, você deveria ser convidado a voltar para fazer um show pago para milhares de pessoas, não dezenas como as audiências que estávamos tocando em bares. Tivemos aquela oportunidade e o show foi encabeçado por Gladys Knight and The Pips, que estavam lançando uma nova canção que ninguém conhecia de nome “I Heard It Through the Grapevine.” Foi uma noite inebriante.

Depois de Chicago tínhamos mais um grande show amador que nós realmente sentimos que precisávamos vencer: o Apollo Theater em Nova Iorque. Muitas pessoas de Chicago pensavam que vencer no Apollo era somente um amuleto de boa sorte e nada mais, mas o pai viu que era muito mais do que aquilo. Ele sabia que Nova Iorque tinha um alto calibre de talento justamente como Chicago e sabia que havia mais pessoas gravando e músicos profissionais em Nova Iorque do que Chicago. Se pudéssemos fazer isso em Nova Iorque, poderíamos fazer em qualquer lugar. Aquilo é o que significava para nós uma vitória no Apollo.

Chicago tinha enviado um tipo de relatório nosso para Nova Iorque e nossa reputação era tal que o Apollo introduziu-nos nas finais, ainda que não havíamos estado em nenhuma das competições preliminares. Naquela época, Gladys Knight já tinha conversado conosco sobre a vinda para Motown, como fizera Bob Taylor, um membro do Vancouvers, de quem meu pai tinha se tornado amigo. Papai tinha dito a eles que estaríamos felizes em fazer uma audição para a Motown, mas aquilo era em nosso futuro.

Chegamos ao Apollo na rua 125 cedo o suficiente para conseguir uma visita guiada. Andamos pelo teatro e contemplamos todas as fotos das estrelas que tinham tocado lá, brancos assim como negros. O gerente concluiu mostrando-nos a sala de vestido, mas até então, eu havia encontrado fotos de todos os meus favoritos.

Enquanto meus irmãos e eu pagamos tributos no chamado “abridores de circuito”, eu observava atentamente todas as estrelas porque queria aprender tanto quanto eu podia. Eu olhava para os seus pés, a forma como eles moviam seus braços, a maneira como seguravam um microfone, tentando decifrar o que eles estavam fazendo e porque estavam fazendo. Depois de estudar James Brown dos bastidores, eu sabia cada passo, cada gemido, cada salto e giro. Tenho que dizer que ele dava uma performance que deveria esgotar você, desgastar você emocionalmente. Toda sua presença física, o fogo saindo pelos seus poros, era fenomenal. Você sentiria cada gota de suor em seu rosto e você sabia o que ele estava passando. Nunca vi alguém atuar como ele. Inacreditável, realmente. Quando assistia alguém que eu gostava, eu estaria lá. James Brown, Jackie Wilson, Sam e Dave, os O’Jays, todos eles usavam realmente trabalhar um público. Posso ter aprendido mais de assistir Jackie Wilson que nehum outro ou qualquer coisa mais. Tudo isso foi uma parte muito importante da minha educação.

Costumávamos ficar nos bastidores, atrás das cortinas, assistindo todo mundo sair depois da apresentação, e eles todos suados. Eu somente ficava de lado em reverência e assistindo-os passar. E todos eles usavam esses lindos sapatos de couro. Todo meu sonho parecia centrar-se em ter um par de sapatos de couro. Lembro-me estando inconsolável porque não fabricavam em tamanhos de meninos pequenos. Fui de loja em loja procurando por sapatos de couro e eles diziam: “nós não fazemos no tamanho pequeno.” Estava tão triste porque queria sapatos que pareciam a mesma forma que sapatos de palco, finos e brilhantes tornando-se vermelho e laranja quando as luzes apontavam para eles. Oh, como eu queria algum sapato de couro como o que Jackie Wilson usava.

A maior parte do tempo eu estava sozinho nos bastidores. Meus irmãos estavam no andar de cima comendo e conversando e eu ficava embaixo nos bastidores assistindo o show, agachado, segurando a cortina empoeirada e mal cheirosa. Quero dizer, eu realmente assisti cada passo, cada ação, cada volta, cada giro, cada rotação, cada ranger, cada emoção, cada movimento de luz. Aquela era minha educação e minha diversão. Estava sempre lá quando tinha tempo livre. Meu pai, meus irmãos, outros músicos, todos eles sabiam onde me encontrar. Eles me provocavam sobre isso, mas eu estava tão concentrado no que estava vendo ou em lembrar o que eu já tinha visto, que eu nem me importava. Lembro-me de todos aqueles teatros: o Regal, o Uptown, o Apollo – muitos para citar. O talento que saía daqueles lugares é de proporções míticas. A grande educação no mundo é assistir os mestres trabalharem. Você não pode ensinar uma pessoa o que aprendi somente parando e assistindo. Alguns músicos – Springsteen e U2, por exemplo – podem sentir que tiram a educação deles das ruas. Eu sou um artista do coração. Eu tive a minha a partir do palco.

Jackie Wilson estava na parede do Apollo. O fotógrafo capturou-o com a perna levantada, torcida, mas não fora da posição para pegar o pedestal do microfone que ele movimentava para trás e para frente. Ele poderia estar cantando letra triste como “Lonely Teardrops”, e ainda tinha o público tão focado com sua dança que ninguém poderia se sentir triste ou solitário.

A foto de Sam e Dave estava no corredor de baixo, próximo de uma velha grande banda. O pai tinha se tornado amigo com Sam Moore. Lembro-me de ter tido a grata surpresa com ele sendo tão bom prá mim quando o conheci pela primeira vez. Eu tinha cantado sua música por tanto tempo que pensei que ele queria o fone em meus ouvidos. E não muito longe deles estava o “Rei de todos eles”, Mr. Dynamite, ele mesmo”, James Brown. Antes dele chegar, um cantor era um cantor, e um dançarino era um dançarino. Um cantor pode ter dançado e um dançarino pode ter cantado, mas, a menos que você fosse Fred Astaire ou Gene Kelly, voê provavelmente fazia uma melhor que outra, especialmente em uma performance ao vivo. Mas ele mudou tudo aquilo. Nem holofotes poderia acompanhá-lo quando ele derrapava no palco. Você tinha que iluminá-lo! Eu queria ser tão bom.

Vencemos uma competição amadora da noite no Apollo, e eu senti como voltar a estas fotos nas paredes e pensando em minhas “professoras”. O pai estava tão feliz que disse que poderia ter voado de volta a Gary aquela noite. Ele estava no topo do mundo e assim estávamos nós. Meus irmãos e eu tínhamos nos tornado ases e esperávamos poder pular um “grau”. Eu certamente percebi que não estaríamos fazendo show de talentos e junto com strip por muito tempo.

No verão de 1968 fomos introduzidos à música de um grupo famíliar que iria mudar nosso som e nossas vidas. Eles todos não tem o mesmo último nome, eles eram negros e brancos, homens e mulheres, e eram chamados Sly and Family Stone. Eles tinham alguns sucessos incríveis no decorrer dos anos, como “Dance to the Music”, “Stand”, “Hot Fun in the Summertime.” Meus irmãos apontavam para mim quando ouviam a linha sobre o anão de pé e agora eu ria junto. Nós ouvimos todas estas canções do disco, mesmo nas estações de rock. Eles foram uma tremenda influência sobre todos nós Jacksons e nós devemos muito a eles.

Depois do Apollo, nos mantivemos tocando com um olho no mapa e um ouvido no telefone. A mãe e o pai tinham uma regra sobre não mais do que cinco minutos por chamada, mas quando voltamos do Apollo, mesmo cinco minutos era muito tempo. Tínhamos de manter a linha liberada em caso de alguém de uma gravadora querer entrar em contato conosco. Vivíamos com medo de que eles pegassem a linha ocupada. Queríamos ouvir de uma gravadora em particular e, se eles chamassem, queríamos responder.

 

Livro Moonwalk a autobiografia de Michael Jackson capítulo 1 – ( 3 /3 ): APENAS CRIANÇAS COM UM SONHO

 

Sobre PoemforMJ

Michael ... "Quando olho no dentro dos seus olhos eu sei que é verdade.Deus deve ter gasto um pouco mais de tempo em você!"
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