Michael Jackson: O Dançarino do Sonho

Michael Jackson foi um talentoso, único e excepcional dançarino. Sua contribuição à arte da dança é analisada nesse fascinante artigo pelo dançarina e coreógrafa profissional Lubov Fadeeva do estúdio de dança flamenca  Amorella  em St Petersburgo .

Michael Jackson na dança é um assunto tão vasto quanto o espaço. Não posso falar sobre isso sem tocar em questões globais da arte da dança, mas tentarei reunir todas elas tanto quanto possível – para reunir todos os elementos que eu vejo como facetas de algo maior, como um todo, para que possamos tentar ver o quadro inteiro.

Para mim, a dança é um fenômeno global, a mais sagrada e pura arte, somente acompanhada talvez pela música, poesia e arte clássica. O resto é derivado, como os galhos de uma grande e frondosa árvore cultivados a partir de uma única semente. A dança é pura inspiração nascida do centro do Universo, exprimível por inúmeras formas e manifestações artísticas. A dança é a música visual e a emoção não-corpórea num plano material; é a energia espiritual criando toda a existência. É assim que eu a tenho visto desde minha infância, sob a forma de sentimentos, e tentarei explicar tudo isso em palavras.

Me lembro de o quão contente, embora não surpreso, fiquei ao ver que o livro de Michael fora intitulado Dancing the Dream (Dançando o Sonho). Por quê o título do livro se refere à dança, e não ao canto ou a música? Acredito que não foi coincidência. A dança era especial na arte de Michael – a expressão mais profunda, mais sincera e mais simbólica de sua filosofia e de sua visão artística.

Abordarei esse tema de uma forma indireta, começando com uma citação de um livro de Maurice Bejart, Un Instant Dans La Vie d’Autrui (ou Momentos da Vida de um Estranho). Bejart é um coreógrafo francês e a maior personalidade do ballet moderno. Ele é um inovador, um filósofo e um gênio reconhecido no campo da dança. Um fato interessante é que Bejart cresceu na família de um filósofo: seu pai dirigia uma sociedade de investigações filosóficas e publicava uma revista científica. Por conseguinte, Bejart cresceu num ambiente onde o pensamento humano era valorizado, e desde a infância ele era cercado por livros e trabalhos científicos. É por isso que, quando se tornou um dançarino, sua arte e abordagem artística refletiram uma profunda reflexão.

Bejart declarou a dança como a arte do século XX. Sua companhia de balé, que consistia de profissionais altamente respeitados e de enorme sucesso, teve exatamente o mesmo nome: “Ballet du XXe Siècle” ou “Ballet do Século XX”. As estrelas mais brilhantes do mundo do ballet colaboraram com Bejart.

Um dos capítulos de seu livro é intitulado “Transformando a Dança no significado da sua vida”. Deixe-me mostrar-lhe alguns trechos:

A Dança foi transformada numa arte de segunda classe, decorativa e de entretenimento. Quero dizer, a dança no Ocidente, é claro. Não é mera coincidência que a dança se encontre em tal posição no Ocidente, porque não foi apenas a dança sozinha que se tornou uma caricatura aqui.

Levo a dança a sério porque acredito que ela é um fenômeno religioso. É também um fenômeno social, mas antes de tudo, a dança é algo religioso. Quando a dança é considerada como um rito, ao mesmo tempo sagrado e humano, cumpre a sua função.

Mas, se transformada numa forma de diversão, ela deixa de existir, deixando apenas fogos de artifício, ou um desfile de meninas vestidas de uniformes, ou jogos de pinball – mas não a dança em sua essência. Falar sobre isso na década de 80 é como bater em uma porta aberta, mas nos anos 50 a porta estava firmemente trancada.

Em nome de sabe-se lá qual tabu – uma espécie de vergonha e medo do corpo, a concha carnal da “alma” – o Cristianismo rejeitou a dança, enquanto a mesma religião inspirou a construção de catedrais! Cortada da religião, o que a tornou viva, a dança ocidental, condenada como “carnal”, se escondeu precisamente na carne: tornou-se um ramo da cerimônia cortês. Longe da religião, a dança adquiriu boa educação no pior sentido da palavra.

Mas de onde veio o ritual? A necessidade de receber o sacramento em ambas as dimensões: vertical e horizontal, sagrada e social?

O aparecimento de Diaghilev com seus balés russos no início do século foi revolucionário. Mas essa revolução era estética. Enquanto isso, a dança precisava de uma revolução ética, mas mesmo a revolução estética foi um grande passo! Grandes músicos como Stravinsky finalmente começaram a compor música para a dança. Grandes artistas – Picasso, Derain, Braque – trabalharam em cenografias e figurinos. O mundo também viu o incrível cenógrafo Leon Bakst.

O público ocidental instintivamente sentiu uma grande necessidade de dança que não tinha sido maculada em sua essência. Ansiando por unidade, os jovens procuraram por novos rituais no rock, na música pop e no disco – e eles estão certos. Cada época tem que criar seus próprios rituais. Os ritos de nossos pais ficam necrosados e perdem o significado.

A novidade na dança não é mais um problema. Sentimos uma necessidade muito mais profunda em tratar de questões sociais e da nossa percepção do mundo. Não precisamos dizer qualquer coisa sobre a dança – ela tem muito a dizer!

Estou falando de coração. A cada dia, fico cada vez mais certo de que a dança é a arte do século 20.
Um dia virá em que todo mundo estará dançando.

Natureza da Singularidade

Desde a minha infância, a dança tem sido uma espécie de religião pra mim, se não puramente religião. Qualquer arte em essência desempenha o papel de um culto, o papel de um conselheiro espiritual, e outros papeis que trazem para mais perto a religião, em diferentes graus para cada arte. Mas a dança tem um papel especial neste caso. Eu não gostaria de cultivar a ideia de que a dança deve sempre transmitir algo religioso, mas você tem que considerar que, historicamente, a dança deriva da religião. Seu papel inicial era espiritual e sagrado, e não simplesmente decorativo, como Maurice Bejart corretamente afirmou.

Quando as pessoas veem Michael Jackson em êxtase, um milagre acontece. Elas vivenciam um momento em que a dança oferece algo emocionante e incomparável. Praticamente todo mundo que considera a dança de Michael certamente irá notar uma certa misteriosa, única qualidade nesse entertainer que fez sua arte inimitável. Milhares de pessoas já aprenderam muitos dos movimentos e passos característicos do Michael, mas ninguém pode realizá-los da maneira exata que ele realiza. É por isso que todas as tentativas de imitá-lo (mesmo por dançarinos profissionais) estão fadadas ao fracasso: qualquer imitador de Jackson é um substituto aos olhos de seus ardorosos fãs.

Para mim, as legiões de sósias de Michael Jackson imitando seus passos de dança são profanação pura. A presença corporal dele e sua expressão emocional no palco não podem ser copiadas. Ele é reconhecido pela mais detalhada nuance, sem mencionar sua energia única. Mesmo que um dançarino pudesse brilhantemente executar os mesmos elementos de dança, é impossível copiar a mão de Michael. Sobre isso, esses sósias que usam o estilo de Jackson simplesmente como base para suas próprias variações e improvisações têm uma vantagem. Sua dança sempre parece mais interessante, mais viva e hábil do que uma tentativa de replicar precisamente os movimentos do Michael, o que é praticamente impossível na dança. Jackson não pode ser repetido, copiado ou imitado – assim como todo dançarino famoso não pode ser duplicado.

Então, o que faz Michael único? Por que há contínuos conflitos, por exemplo, de que sua dança contém tantos movimentos sexuais ainda que não o façam parecer vulgar – uma vulgaridade que pode ser notada em tantos outros artistas? Por quê suas contribuições para a arte da dança são consideradas tão valiosas de modo que esse astro pop pode ser colocado ao lado dos grandes mestres do balé e da dança em geral?

Primeiro de tudo, eu gostaria de dizer que as funções motoras e do corpo de cada bailarino são únicas. Existem algumas características comuns, mas há muitas especificidades que não podem sequer serem analisadas, assim como é impossível analisar cada “molécula da dança” num corpo humano vivo. Esses detalhes minuciosos e particularidades fazem a forma de danças de cada pessoa a sua própria forma. Alguns demonstram menos individualidade, enquanto outros emitem-na em seus primeiros passos pelo palco. Essa é uma razão de que um sósia jamais pode copiar ou substituir um dançarino brilhante como Michael e parecer convincente para aqueles que já estão bem familiarizados com o estilo de Jackson.

Não é somente uma questão de singularidade pessoal; é uma questão de singularidade de cada ser humano. A ciência inventou a clonagem, mas nem mesmo um clone pode ser uma cópia perfeita do original, assim como gêmeos não são pessoas idênticas. Então, não há como uma pessoa ser um clone perfeito de outra. As diferenças surgiriam em algum momento, mesmo que o sósia estivesse espiritualmente perto do artista original. Criar uma cópia perfeita de peculiaridades individuais dentro da dança para tentar criar a ilusão de uma duplicata é um empreendimento utópico.

Aqui vou parar de falar sobre singularidades dentro da natureza e me voltar para o meu tema principal, o que eu acho mais interessante: singularidade artística.

Deixe-me retornar ao início da conversa e eu digo que, como todo dançarino verdadeiramente brilhante, Michael se destaca pela sua essência e abordagem espirituais na dança. Sua dança reflete o componente muito religioso mencionado antes – não no sentido de expressar qualquer doutrina religiosa ou crença, mas no sentido de sua abordagem espiritual e emocional.

Primeiramente, Michael não é apenas um performer. Ele é o criador de sua dança. Ele não faz algo que simplesmente tenha aprendido imitando um coreógrafo. Mesmo quando sua dança é cuidadosamente coreografada, ele continua a ser o criador: seus passos vêm de dentro, não de outras pessoas, independentemente de quem tenha colaborado com ele durante a preparação.

Vários coreógrafos e dançarinos participaram em alguns projetos do Michael, mas a equipe de dança e ele são completamente diferentes, apesar de seus dançarinos serem sempre profissionais e excelentes. Ainda assim, ele invariavelmente se destaca, tanto através da sua maneira de dançar quanto no seu sentimento interior da dança.

Ele dança no fluxo livre de criação. Deve-se notar que mesmo os movimentos que ele executa no palco várias e várias vezes não se repetem mecanicamente como um disco quebrado. Não, ele pode continuar qualquer uma de suas danças pela livre improvisação em qualquer momento. E nunca parece fora de sincronia com o seu estilo pessoal; em vez disso, surgem novas facetas de seu insondável criador interior. Isso é o que nenhum sósia pode fazer. Somente o criador da dança pode atualizar e renovar seus movimentos de forma natural e improvisar livremente, e ainda ser ele mesmo. Ninguém mais pode mergulhar em seu sacramento. Este é o domínio pessoal de Michael, assim como cada pessoa tem seu próprio corpo e seu próprio lugar na Terra.

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Michael Jackson se destaca entre todos os performers de sua geração e aqueles que vieram em seguida. Costuma-se dizer que muitos artistas pop se baseiam em Michael porque ele criou um padrão. Ainda assim, muitos parecem copiar coisas erradas. Michael foi notável por sua crença absoluta no que fazia. Sempre teve um talento sincero e espumante, enquanto os artistas pop contemporâneos se parecem principalmente com bonecos de corda muito bem desenhados e performers não-carismáticos.

Não sei por que isso acontece, mas suspeito que o problema não está na falta de talento, mas no fato de que a fase pop tem levado, de uma vez por todas, à fabricação de uma média ideal de glamour. Na maior parte, essas novas “estrelas” criam uma impressão de bonecas Barbie: todos bonitinhos, todos capazes, mas carentes de paixão… Nada emocionante acontece. Não há mais nada que nos choque ou nos surpreenda – todas as revoluções são passadas. Esse é o sentimento geral. Sinceramente, é triste ver que eles são privados de um verdadeiro, vivo processo criativo e conscientemente fazem um produto de si mesmos. Um produto, e não uma criação, mesmo que pequena. É estranho que a indústria fique ditando esse tipo de gosto e selecione esse tipo de material para sua fábrica de estrelas. Mas afinal de contas, um gênio só é um gênio se for raro.

O segundo, e talvez mais interessante, fator é que, fundamentalmente, Michael Jackson não é uma figura pop. Sim, ele trabalhou no âmbito da cultura de massa popular, mas não pertencia à arte pop, com base em sua mentalidade. Eu até diria que esta foi a sua tragédia, da qual ele não foi culpado, é claro. O quadro da cultura pop, por um lado, lhe permitiu quebrar todos os recordes de vendas possíveis e alcançar milhões de pessoas com ideias simples e inspiradoras. Por outro lado, seu talento foi confinado a esse quadro, para que, no final, certas facetas de sua arte não fossem totalmente manifestadas e principalmente despercebidas pelo público em geral.

A imagem de um cantor pop fez com que algumas pessoas não o levassem a sério. Isso foi um infortúnio, e direi mais uma vez: não foi culpa dele. A culpa reside na sociedade de mente pequena. A figura de Michael tinha muitas contradições para que as pessoas o percebessem da maneira certa. Ele combinava traços de tipos convencionais de antípodas enraizados na mitologia popular, e isso eventualmente lhe trouxe duras provas e um fim trágico.

Em conclusão, direi o óbvio: sendo um gênio, Michael não deveria estar em conformidade com todas as normas. Como Niccolo Paganini disse: “O talento não é amado, e o gênio é odiado”. A propósito, as vidas de Paganini e de Jackson tinham muitos paralelos.

O Xamã do Grande Palco

Quando Michael Jackson subia ao palco, ele dançava em êxtase. E é óbvio para telespectador. Todos os melhores bailarinos e músicos entram num estado de espírito peculiar quando em processo de criação. A arte em sua forma mais elevada é impossível sem a capacidade de trabalhar com o subconsciente e sem o uso de estados alterados de consciência e intuição. Sem isso, não há arte, apenas um ofício barato.

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Vamos voltar à ideia da religiosidade da dança. O primeiro dançarino profissional da Terra era um xamã e um padre. Ele foi o pioneiro de muitas outras artes também. A dança nasceu da comunicação entre um ser humano e as forças supremas e os espíritos de nossos antepassados. Em sua essência, a dança é uma forma de meditação, mas não passiva – é ativa. Batidas rítmicas de pandeiros ou tambores ajudavam o xamã a entrar rapidamente num estado de transe, e auxiliavam os co-participantes do ritual a mergulharem no mesmo transe em outro grau. A música foi construída sobre uma base rítmica clara porque mantinha os ouvintes encantados. Com o desenvolvimento da civilização, essas bases foram se desenvolvendo em novas formas, mas não perderam seu significado inicial.

O mesmo pode ser observado na dança indiana clássica de templo, onde o comportamento do dançarino está mais calmo em comparação com o do xamã e os movimentos são completamente aprendidos e executados com precisão, mas a base rítmica e a natureza meditativa da dança permanecem as mesmas. É importante notar que na Mitologia Indiana, os próprios deuses eram dançarinos. Portanto, a dança teve um papel altamente espiritual.

Na Europa cristã, a situação era diferente. É verdade que muitos costumes foram integrados do paganismo na cultura cristã. O projeto cristão das festas e rituais tem suas raízes históricas no paganismo e nos tempos antigos – símbolos, atributos e tradições foram simplesmente interpretados e apresentados numa nova maneira. Foi assim que o novo mundo procurou compromisso com o velho mundo. Ainda assim, a cultura cristã rejeitou a dança e a excluiu da Igreja, designando-a como uma espécie de arte decorativa carnal – o tipo que Bejart mencionou em seu livro. Naqueles tempos, com a dança conhecida por ter influências culturais africanas e indianas, aceitar a dança na Igreja estava fora de questão. A dança teve uma certa influência espiritual, mas limitou-se a um quadro secular.

Como eu disse no início, vejo a dança e a música como faíscas da energia divina que regem o Universo. O ritmo é algo possuído por todos nós: está na batida dos nossos corações. Se o batimento cardíaco é arrítmico, isso geralmente é sinal de uma doença grave. O ritmo musical nos ajudar a sentir a harmonia do Universo e a nos sentirmos melhor. Vários ritmos criam diferentes sensações, mas cada ritmo reflete a nossa natureza.

As manifestações quintessenciais do ritmo de vida biológico dos seres humanos são o sexo e a gravidez. Espero não precisar explicar o primeiro, mas o último é notável porque é o nosso estado pré-natal que nos ensina sobre síncope, um dos mais marcantes e hipnotizantes fenômenos rítmicos. A síncope ocorre como resultado de dois corações batendo em ritmos diferentes – o da mãe, de forma mais lenta do que o da criança. É por isso que o ritmo sincopado tem tal efeito pacificador sobre nós. Ouvimos desde o momento em que fomos concebidos no útero de nossa mãe.

É fácil ver como os efeitos das técnicas dos xamãs e da dança do templo transitam nas performances populares modernas. Elas têm os mesmos elementos básicos: um ritmo vivo, uma audiência em frenesi, e, uma vez mais, o personagem principal no centro é um dançarino em êxtase.

Michael Jackson acrescentou outro componente importante: a mensagem espiritual. O êxtase de suas performances é mais marcante durante as músicas como Man in the Mirror, onde o objetivo é incentivar as pessoas a descobrirem sua própria força interior para uma mudança positiva. Mesmo não sendo um hino de igreja ou de um culto, o quadro continua o mesmo: o mais poderoso respingo emocional visa mudar sua consciência e seu estado de espírito, assim como a realidade à sua volta. Tal crença absoluta no poder da arte para mudar a consciência, e essa completa devoção para a execução de sua arte podem fazer milagres em milhares de pessoas. Isso é o que define Michael no meio de tantos outros artistas.

Também é notável que, em sua arte, Michael tenta integrar dança e cristianismo, e obtém êxito se baseando na cultura dos afro-americanos. Por exemplo, sua canção Will You Be There é uma oração acompanhada de um coral gospel. Um coral gospel sempre se movimenta durante suas apresentações, mas Michael foi ainda mais longe em seu show e acrescentou um corpo de baile e um anjo alado descendo ao palco. Esse é um mistério da Igreja traduzido para a língua do espetáculo, a linguagem do palco. Ao contrário de Man in the Mirror, onde profunda emoção é demonstrada por um respingo frenético de energia, aqui vemos um reverente e lacrimoso diálogo com Deus – um puro êxtase religioso.

Assim, a arte de Michael mistura traços de xamanismo com manifestações diretas de humildade cristã.
Ele combinava vários mundos dentro de si mesmo, e é difícil dizer a qual deles ele mais pertencia.
Sua arte era secular, religiosa e social ao mesmo tempo. A única coisa que tenho certeza é de que seus talentos tinham uma natureza antiga que eu poderia até chamar de dom de um xamã.
Ou chamar de o dom de um mágico, se você preferir.

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Michael não tinha todos esses talentos por acaso. Ele herdou esses recursos da cultura africana, e havia sangue de índio americano nele também. Se a história de seu pai é verdadeira, um dos antepassados de Michael era um curandeiro índio e xamã, frequentemente relembrado nos contos dos avós e bisavós da família Jackson. E mesmo que você não acredite na emocionante história da ancestralidade xamã, ainda assim, não é surpreendente que Michael era verdadeiro dançarino xamã no palco. O sangue dos afro-americanos e dos índios americanos têm as mesmas raízes antigas: o ritmo e a espiritualidade eram fundamentais em ambas as culturas. Cem anos atrás, qualquer índio americano poderia ser chamado de místico e curandeiro porque era uma parte integrante da sua vida cotidiana e espiritual. Michael era um homem de enorme potencial espiritual, que o usou o máximo possível. Muitas de suas próprias histórias sobre si mesmo, assim como as observações de pessoas que o conheceram dizem isso.

A energia que transborda dele e brilha em seus olhos é um claro sinal de um homem possuidor de um grande poder espiritual. Ele deixava uma impressão duradoura nas pessoas e fazia com que elas sentissem como se estivessem olhando para um anjo caído na Terra; embora na realidade ele fosse um ser humano de carne e osso, com vários aspectos conflitantes em sua personalidade. Sem dúvida, suas inúmeras atividades humanitárias e seu extenso altruísmo solidificaram sua reputação como um santo, mas foi sua incrível energia que o fazia parecer um milagre de outro mundo para as pessoas.

Alguns ainda ficam surpresos com o fato de que um mero cantor pop foi declarado o maior artista do nosso tempo. Posso dizer que ele, como ninguém, é digno deste título, já que o verdadeiro papel de um artista é passar o êxtase divino para as pessoas, mudar o estado de espírito delas, surpreendê-las com o seu próprio exemplo, e tocar muitos corações encontrando formas artísticas dramáticas para alcanças todos os itens acima.

Não é a voz ou o domínio técnico que faz de um artista um milagre, nem é seguir os cônegos do bom gosto ou pertencer a um gênero exaltado. Não, o milagre acontece onde há carisma e uma performance habilmente projetada tendo a carga máxima de energia espiritual. Um verdadeiro artista combina talento natural, personalidade marcante, paixão, criatividade e dedicação. Nenhum artista foi capaz de incorporar tudo isso na mesma intensidade que Michael Jackson, com seu crachá de originalidade.

Poderíamos discutir sobre o mérito artístico de suas canções ou de sua técnica, mas nenhuma crítica refletiria a importância da sua personalidade na história da arte: a sua individualidade, a imagem aperfeiçoada e memorável que ele criou, e seu carisma criativo e humano manifestado no amor excepcional de seus inúmeros fãs.

Mesmo os escândalos e o frenesi da mídia de massa não distanciaram milhões de pessoas desse milagre. E não é um fanatismo abstrato, impensado que ocorre nesse caso. Pelo contrário, este homem se entregou de corpo e alma ao palco e às pessoas, trabalhando até quando não podia mais trabalhar, e distribuindo sua energia. Sua devoção deu origem à mesma devoção em troca.

Devemos entender que a publicidade não desempenha um papel qualquer nesse processo. A publicidade só funciona quando você permanece ligado com o público. Quanto tempo você duraria se não fosse capaz de nada? Daí a interminável fila de bandas de curta duração e estrelas que brilham no cartaz de apenas um filme antigo. Michael tinha a habilidade de chamar a atenção de multidões, e ele teve essa habilidade mesmo na infância, quando não havia publicidade. E é totalmente diferente não só chamar a atenção, mas também conquistar o amor de milhões de telespectadores em todo o mundo – e não apenas o amor de adolescentes, mas uma vida inteira de devoção de pessoas de qualquer idade e geração.

O Lado Negro da Lua

Quando se fala em xamanismo na arte – especialmente na arte da dança – não se pode esquecer o lado escuro do assunto, o que lhe dá mais uma faceta e uma nova profundidade.

Gostaria de dar um exemplo de uma cultura diferente. Na cultura popular espanhola, especificamente a arte do flamenco, há uma crença que ainda é levada muito a sério – a lenda do Duende. Essa é uma noção complicada e muito importante para essa forma de arte, mas vou dar uma curta descrição. Segundo a lenda, há um espírito, o Duende, que desce sobre o performer e entra em seu corpo enquanto ele dança ou canta.
É difícil chamar o Duende de um espírito bom. Um sinal da presença do Duende são emoções que expressam uma paixão fervorosa, mesmo dor e raiva.
O flamenco nasceu da mistura de muitas culturas, incluindo a cigana, a árabe e também a africana – uma cultura tão antiga que não é surpreendente encontrar o xamanismo entranhado em sua arte.

Assim, o dançarino de flamenco permite que o espírito entre – que é como ele percebe a auto-expressão. Se acreditamos na existência de um Duende real ou não, o significado da lenda é instrutivo. Uma certa força entra no dançarino do exterior, assim como rituais xamãs geralmente estipulam a penetração de um espírito maligno capaz de trazer doenças e causar danos a uma pessoa.
O objetivo do xamã era chegar a um acordo com o espírito, aplacá-lo, combatê-lo, vencer seus efeitos maléficos e, finalmente, alcançar a catarse e a renovação espiritual.

A herança dessas crenças no palco estipula que o poder que entra de repente nos dançarinos de flamenco pode torturá-los, fazê-los sofrer ou chorar, mas eles ainda lutam contra ele.
O dançarino não é uma figura passiva em relação ao espírito selvagem. Em vez disso, o dançarino não interage com ele, derramando todas as emoções acumuladas e alcançando a catarse, se abrindo.
Na demonstração de dilacerante raiva, o dançarino despeja a dor que o atormenta, combate-a, e o seu objetivo final é positivo, embora o caminho em direção a ele possa ser assustador e às vezes até cruel.

Nesse contexto, é interessante considerar a África negra e a América, onde a dança frenética que visa atingir certas metas espirituais supremas desempenhava um papel igualmente importante. A primeira coisa que me vem à mente é “Xangô”, uma peça de dança encenada pela coreógrafa afro-americana Katherine Dunham, onde vemos uma dança ritual com o sacrifício de uma galinha e um exemplo do tipo de dança extática generalizada na cultura popular e no culto dos negros. Claro, era apenas uma versão de palco, mas ilustra a espiritualidade das antigas formas tradicionais de dança. Katherine Dunham consultou uma pesquisa antropológica ao criar essa obra.

A paixão e o frenesi da dança ritual ilustram a origem de manifestações expressivas de emoções comuns para a cultura negra moderna. Uma vez que tudo isso era uma parte de visão do mundo místico. A dança não era um meio de demonstrar um corpo bonito, habilidades ou a sexualidade; era a comunicação com o mundo dos espíritos misteriosos que participavam diretamente da vida dos seres humanos. Suas manifestações emocionais na dança eram tão selvagens porque as pessoas dançavam não apenas para elas mesmas, mas para se comunicarem com o além. Nem sempre isso é compreensível a uma pessoa moderna, mas é uma parte orgânica da essência espiritual da dança como parte do folclore.

Falando do lado negro, agora vou partir para os motivos e temas análogos na arte de Michael.

Vi Black or White em sua versão completa pela primeira vez no início dos anos 90, quando o vídeo tinha acabado de ser lançado. Eu não estava tão interessado no Michael na época. Eu era muito jovem e afastado da cultura de massa. Meus ídolos eram representantes dos gêneros “superiores” de dança: grandes artistas do balé, do flamenco e outras tradições clássicas.

No entanto, a segunda metade de Black or White, comumente chamada de dança da pantera, me chocou. Ainda acredito que é uma das melhores danças do Michael – uma torrente de pura e agressiva paixão, mesmo gravada para a câmera de propósito. É o tipo de dança improvisada que remonta à fonte original da dança. É um caso absolutamente original na cultura pop contemporânea da dança verdadeira, apaixonada e espiritual; não pode ser vista em qualquer outro lugar. Na maioria dos casos, tudo o que vemos é ginástica ou um balanço vulgar, enquanto o toque elegante de dançarinos como Fred Astaire se tornou uma coisa do passado. O êxtase puro e real está praticamente ausente do cenário pop.

Depois de ver o vídeo, eu queria dizer “Bravo, Michael!” mesmo não sendo um fã dele na época. Em apenas alguns minutos, este homem, a única pessoa na esfera pop que possuía essa sinceridade primordial, fez algo de vital importância que nunca antes fora feito por qualquer outro artista de fama internacional. Ele colocou a improvisação em êxtase no centro das atenções, mostrando uma parte que aparentemente não tinha relação no clipe e construiu isso com temas positivos, como brincadeiras de meninos e nações se unindo. O contraste era impressionante e até selvagem, incompreensível para o espectador comum, causando grande polêmica e gerando até uma certa hostilidade. Talvez o contraste tão grande e o design contraditório do curta-metragem tenham sido criados intuitivamente por Michael. Talvez ele esperasse que seu fluxo de consciência chocasse o público mais uma vez.

Se você olhar para a história da cultura juvenil ao longo dos últimos 40 anos, verá que não há nada de novo no comportamento de Michael nessa dança: objetos foram quebrados e ousados movimentos sexuais foram realizados muito antes dele. Na verdade, muitos músicos de rock costumavam quebrar suas guitarras ou mesmo colocá-las no fogo no final de seus shows. E então Michael quebrando o vidro de um carro abandonado não era nada comparado ao que os músicos de rock vinham fazendo antes desse vídeo aparecer.

Ainda assim, nenhum deles nunca dançou…

Também gostaria de salientar que não há nada de novo na coreografia. Michael simplesmente produziu um mix de seu repertório habitual, começando com elementos do sapateado clássico e terminando com seus famosos movimentos e pegadas na virilha. É o que normalmente acontece em qualquer improvisação: um fluxo de movimentos habituais e, em seguida, um par de flashes de inspiração quando o corpo faz alguma coisa nova que você só percebe quando assiste a gravação depois.

Remova o clima do vídeo e você terá um conjunto de movimentos simples do corpo, metade dos quais se concentram na região da virilha. Muitas pessoas ainda veem dessa forma. Elas são mais atraídos para o fato de o Michael virar uma lata de lixo e fechar a braguilha. “O quê é isso?”, uma avó se pergunta enquanto assiste o vídeo na TV com a sua neta…

Sou bastante conservador, no entanto, vejo uma clara diferença em todas as “pegadas na virilha” de Michael e as manifestações vulgares que costumam aparecer na cultura moderna. O conteúdo é diferente. Para ele, é um comportamento ousado e um eco de suas raízes africanas. Acho que ele amava provocar o público (eu adoraria, certamente, se estivesse no seu lugar), mas tudo isso é bem mais neutro do que as pessoas pensam. O significado tem de ser buscado na natureza da dança africana. Voltarei a este tema depois.

Por agora, vamos voltar à estrutura do curta-metragem de Black or White. O próprio nome sugere algumas interpretações. De um lado, Black or White aborda claramente as diferenças raciais. Este é o sentido superficial e a história que a música conta. Mas sempre gostei de considerá-la de um outro ponto de vista – o “negro” e o “branco” da alma humana.

A primeira parte, o lado “respeitável” é o branco. A segunda, é negra, evocando a escuridão e uma pantera negra. Muitas vezes temos medo do nosso lado negro e o reprimimos, o escondemos profundamente, na esperança de sermos pessoas melhores. Mas superar o nosso lado negro é impossível sem primeiro reconhecer sua existência e trabalhar ativamente para compreender a sua natureza. Em outras palavras, precisamos de um diálogo construtivo com o espírito do mal… O Duende.

Se Michael percebia ou não, naquela dança, ele lançou algo que tinha acumulado em si mesmo. Aquela foi a emancipação completa. E não importava se era decente fazê-la ou não – o importante era despejar a energia da libertação. Esta é a luta que o dançarino espanhol enfrenta quando possuído pelo Duende. Você nunca pensa em decência ou elegância em tal momento. Você tem que ser extremamente aberto e violento na sua paixão e na sua dor.

Embora eu saiba que a pantera negra era um símbolo importante no movimento americano pelos direitos civis, ela também possui um significado antigo, uma conexão mística com o espírito violento e primitivo do animal. Eu diria mesmo que carrega o eco do totemismo. Ao mesmo tempo, representa a abertura e o lançamento do espírito maligno que vive dentro de todos nós, deixando sua pantera sair. É uma metáfora tão antiga quanto o próprio mundo, e é por isso que funciona.

Michael geralmente fazia referências a um monte de imagens arquetípicas em sua arte, o que a tornava extremamente rica e fascinante – ao contrário das muitas imagens pop da fase moderna. Ele inclui o seu indescritível e misterioso amor pela Lua, que emprestara seu nome para uma das especialidades coreográficas de Jackson, o Moonwalk. Por pura intuição.

Various Locations

Sabemos que muitos poetas e artistas foram inspirados pela Lua: ela era glorificada em canções de amor e evocava segredos assustadores da noite. Mais uma vez, tudo isso vai fundo no folclore e na nossa natureza. Não quero me deter em lendas sobre a Lua, mitos e cultos agora, o que teve profunda influência sobre a arte em todo o mundo. Este assunto é muito importante no folclore espanhol e na minha visão de mundo, então, se eu entrar nesse ponto, corro o risco de me deixar levar. Só quero dizer que você não pode dançar sem a Lua – se dança intuitivamente, passando pelos sentimentos, aí está. Como Michael costumava dizer, quando você dança, você não sente – você sente.

Dançarino Furioso

Agora vamos falar sobre a sexualidade percebida nos movimentos do Michael – um assunto que prometi falar antes. Você sabe, sexualidade, agressividade e paixão têm muito em comum. Isso pode ser dito a respeito de muitas danças folclóricas que incluem a emotividade e a paixão. Qualquer manifestação de um ser humano na dança, quando a pessoa se sente livre e emocionada, pode ser entendida como uma manifestação da sexualidade, porque a fronteira entre emoções e instintos básicos é bastante tênue. Ainda assim, isso não significa que não haja limite algum.

Fred Astaire uma vez disse ao Michael: “Você é um dançarino furioso”, e essa declaração é bem precisa. Isso não significa uma fúria má, mas passional – a paixão da performance – algo frenético e diabolicamente atraente. O humor do dançarino influencia fortemente o que o corpo faz. Você tem que saber como despejar seus sentimentos e a energia em movimentos. Só então a dança passa a ser dança. Sem isso, é apenas um exercício de relaxamento. E se os sentimentos forem meramente retratados através de expressões faciais e não pelo sentimento em si, vão parecer grotescos.

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Devemos lembrar que na arte, a espiritualidade é primária, e a técnica é secundária. Esportes são diferentes – nos esportes, a técnica é primária -, mas a dança não é um esporte. Michael Jackson tinha o que é preciso em termos de dom artístico. Muitos de seus movimentos pareciam tão brilhantes, suaves e talentosos não porque ele era tecnicamente qualificado (embora certamente tenha sido capaz), mas porque ele vivia em cada movimento. Todo o seu ser participava, incluindo o seu subconsciente, produzindo essa união perfeita de plástica e música. Infelizmente, isso não é algo que se possa aprender. Isso é talento natural.

A propósito, Michael não era o dançarino mais proficiente tecnicamente no mundo. Ele nunca realizava saltos com splits, nunca bateu cinquenta passos por segundo e nunca fez 32 fouttés numa fileira, embora às vezes tenha feito coisas incríveis para um corpo humano. Sem dúvida, há diversos bailarinos contemporâneos, especialmente os mais jovens, que fazem o que Michael nunca poderia ter feito. Mas, mesmo assim, o achamos excelente, e esses outros dançarinos são apenas comuns para nós. Por quê isso acontece?

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Vou dizer mais uma vez: a razão é o dom artístico, a energia, a feitiçaria xamânica e o carisma. A grandiosidade no palco não começa quando o dançarino pode fazer uma cambalhota três metros acima. Isso é acrobacia circense. A técnica é apenas um meio utilizado pela arte da dança. O talento nessa forma de arte não se origina da técnica, mas da habilidade de falar e pintar com o seu corpo, de expressar nuances e encontrar um estilo individual para o movimento do seu corpo. Um artista alcança a grandiosidade completa na dança se consegue transformar um pequeno gesto em um pequeno espetáculo, um ato sagrado. Michael Jackson sabia como fazê-lo. É por isso que ele era um gênio.

Me lembro de como fiquei abalado quando escutava as pessoas falando sobre a fama excessiva dele. Eles argumentavam, por exemplo, que o Moonwalk sequer fora criado pelo próprio Michael, e sim um movimento de Marcel Marceau. Bem, se nós cavarmos na história, descobriremos que este movimento já existia muito antes de Marceau. Além disso, sendo eu mesmo um dançarino, posso dizer que o Moonwalk é apenas um fetiche num estilo de dança individual – a dança de Michael Jackson.

Há um truque interessante na coreografia, usado por muita gente, que envolve encontrar um movimento original memorável e apresentá-lo no ponto culminante de uma performance. Esse movimento tem que ser único ou engraçado, mas não tem que ser tecnicamente complexo. Encontrar tal movimento pode ser um mérito em si – porque não é fácil.

No caso do Moonwalk: é um movimento bastante simples que pode ser aprendido por qualquer pessoa que consiga razoavelmente controlar seu corpo. Não me refiro às versões avançadas, como o Moonwalk de lado ou o Moonwalk circular – esses são mais difíceis. Mas o Moonwalk clássico (ou seja, andar pra trás) pode ser realizado até mesmo por um amador. Sim, é incomum, e você tem que entender o princípio do movimento para repeti-lo. Mas isso é tudo.

As danças de Michael demonstram plástica e técnicas muito mais sérias se comparadas ao Moonwalk, que este pareceria apenas uma ninharia. Olhe a forma como ele controla seu corpo, sua coordenação, seu senso de ritmo! E os seus giros! Eles são simplesmente incríveis! Isso é algo que somente um profissional muito talentoso pode fazer.

Ainda assim, o Moonwalk é o movimento que as pessoas chamam de “sensacional”. É um efeito puramente social – instigado pela sagacidade artística e por uma talentosa escolha coreográfica. Executar tal elemento estranho no histórico aniversário da Motown, torná-lo memorável e despejar tanta energia nele – tudo isso valeu a pena.

Quando falam sobre a dança do Michael, os jornalistas costumam citar o Moonwalk como sua conquista pessoal na técnica da dança. O Moonwalk pode ter sido um acontecimento histórico; no entanto, não era a principal contribuição de Jackson para a arte da dança. Suas contribuições vão muito além disso. Elas não estão apenas em elementos específicos da dança, mas, em primeiro lugar, em seu estilo proeminente, na sua linguagem corporal rica e expressiva e na sua abordagem única na dança.

Há uma infinidade de passos de dança e técnicas no mundo, e novos continuarão a aparecer indefinidamente. O céu é o limite. Ainda assim, a história memoriza aqueles dançarinos que conseguem criar algo especial no palco que fazem as pessoas perderem a cabeça, amarem, chorarem, se alegrarem e sentirem empatia com ele. Esse é o elemento mais importante no trabalho de um artista. Se você consegue lançar uma faísca e acender um fogo no seu coração e no coração dos espectadores, então você é um mestre. Todos os passos e técnicas servem simplesmente como um instrumento para a criação desse efeito. É toda essa combinação harmônica num único organismo que importa, assim como a música é composta por sete novas em várias oitavas. Algumas músicas podem te tocar e te impressionar, enquanto outras simplesmente não causam qualquer efeito em você. O mesmo é verdadeiro na dança.

Vamos voltar às raízes da dança de Michael mais uma vez. Quando as pessoas falam da dança dele, muitas vezes se lembram do lendário Fred Astair e de seus movimentos magníficos. Aqui podemos ver muito do que Michael “herdou” – todo esse estilo gangster com os sapatos e o chapéu, os figurinos, os efeitos de cores e de luzes, assim como a utilização de elementos do sapateado. Mas o mais incrível é que ele pegou emprestado apenas meios de estilos externos (como temas dos clássicos pop) e os misturou com a sua paixão africana espontânea – e não tanto na maneira de sapateado realizado por dançarinos negros, mas na natureza improvisada e apaixonada das danças folclóricas da África e da bacia do Caribe. Isso é quando a folia, o brilho do palco, a elegância de repente se transformam numa dança xamã espontânea ao som de tambores. Observe como Michael parece extremamente à vontade e orgânico no meio da multidão de bateristas brasileiros no seu curta de They Don’t Care About Us. Eles têm uma natureza comum.

Centenas de residentes olham enquanto Jackson performa em uma empobrecida favela no Rio de Janeiro, Brasil, a locação deste vídeo controverso, They Don’t Care About Us, dirigido por Spike Lee.

Na verdade, Michael parece um dândi * no palco com seus sapatos de verniz apenas de longe. É só um espetáculo teatral que ele coloca para criar um certo efeito. Ele não usa um estilo gangster, e sim sapatos pretos e meias brancas; a jaqueta preta esconde uma área da camisa que ele rasgará de cima para baixo a qualquer momento; e o elegante fedora cobre o cabelo despenteado que não tem nada em comum com a brilhantina de dançarinos bem cuidados do passado. Ele precisa do look só para aparecer nos holofotes. O holofote é uma ferramenta teatral tão antiga quanto o mundo, todos nós usamos – e Michael não foi o primeiro a criá-lo. Ele tomou emprestado dos clássicos. Luzes e sombras dão um alto contraste, acentuando a luva branca ou a fita branca na ponta dos dedos – e você tem o primeiro acorde, intrigante e misterioso. Um cavalheiro vestido de preto, saindo da escuridão, um arquétipo tão sedutor para as moças desde os tempos das histórias de capas e espadas. Uma mulher não consegue ver o rosto dele, mas já sonha com ele como seu romântico amante secreto a visitá-la na calada na noite, escalando sua janela. Daí o chapéu empurrado pra baixo para sombrear seus olhos.

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As partes mais eloquentes do corpo ao dançarmos são as mãos e os pés. Especialmente as mãos. As mãos são a terceira ferramenta depois das palavras e expressões faciais que nos ajudam a expressar nossos pensamentos e sentimentos. Elas fazem gestos; elas falam; elas podem até mesmo cantar. Costumo dizer aos meus alunos que, para ser verdadeiramente expressivo ao dançar, as mãos têm que continuar o impulso que sai de você, do seu olhar e dos seus sentimentos. A palma da mão e os dedos são a fonte do derramamento de energia. Eles têm que estar visíveis. As mãos são o instrumento mais delicado em movimento.

Michael aumentou o efeito visual com a ajuda da fita branca e de uma luva. Elas agiram como bolas de fogo de energia piscando contra a escuridão da imagem misteriosa. O mesmo aconteceu com as meias brancas – acentuaram seus pés. E toda essa magia elegante de um cavaleiro de preto de repente abriu-se num selvagem êxtase africano escondido sob as cobertas dos adereços teatrais. Movimentos de dança se transformaram em sensuais arqueamentos do corpo, a famosa pegada na virilha e o louco momento em que ele rasga a camisa.

Isso funciona melhor que um striptease. É a sedução ao nível das associações e das emoções subconscientes, ao nível de beleza e fisiologia sofisticado. Foi assim que Michael prendeu a atenção das mulheres mais exigentes e de moças jovens que não se enquadram para demonstrações grosseiras de masculinidade.

Será que o Michael percebia o que estava fazendo? Acredito que, intuitivamente ele percebia, e também percebia que estava chamando muita atenção – mas nunca pensava muito sobre isso. E isso permitiu-lhe dançar natural, casta e ingenuamente, como um homem selvagem. Seu corpo na dança se tornou sedutor e desejável, enquanto sua alma permanecia cheia de pura energia. É a sensualidade num nível mais elevado, onde o corpo está sujeito ao espírito.

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Algumas pessoas podem argumentar que Michael tinha clipes e peças de dança com referências diretas a sexualidade – ele dançava com mulheres e mostrava todos os aspectos das relações em sua dança. A arte de qualquer artista reflete vários lados da vida, incluindo o amor e a sexualidade, mas temos que entender que nem toda dança é dedicada a esse assunto, não importando os movimentos que incorpora.

É sempre divertido ver como as pessoas veem um contexto sexual nas danças em que não há nada disso. Temos que lembrar que a dança é uma arte ativamente desempenhada pelo corpo. O corpo pode manifestar espontaneamente – e às vezes inconscientemente – algo que um observador de fora pode ver como sexual. Você pode simplesmente deitar na praia e relaxar, mas alguém pode estar observando você e ter sentimentos sexuais. Esse é o problema do espectador, e não a sua mensagem interior.

Da mesma forma, um performer pode expressar uma mensagem diferente numa dança, que é percebida por um espectador – ou não expressar nada. O sexo pode não estar no topo da mente do artista. No caso do Michael, o sexo era principalmente secundário. Ele era muito religioso, tímido e espiritual para enfatizar essas coisas. Ele, assim como qualquer outra pessoa, definitivamente tinha uma sexualidade inconsciente, mas nunca a transformava numa manifestação direta ou numa sedução vulgar. Tal ostentação, apropriada ou não, é exibida por quase todos os artistas pop modernos, de Madonna à boy bands. Eles balançam suas bandas e transmitem uma mensagem distinta da que desperta em alguém na plateia. Isso se destaca mesmo nos números de dança que definitivamente não precisam disso. A maioria dos artistas pop estão obcecados com o apelo sexual: eles querem tanto ser desejados que às vezes não trazem outra coisa que não o sexo, na sua forma mais rude, e que os priva de seu verdadeiro charme.

Michael nunca fez isso. Sua dança nunca teve essa ostentação provocante. Ele tinha sensualidade natural, e não obscenidade. Quando dançava, ele desligava todas informações lógicas, verbais. Ele simplesmente dançava, como seus antepassados na África que andavam nus e nunca consideravam sua nudez como algo impróprio. Eles eram sexy, queimavam em paixão, mas nunca conheceram a vulgaridade. Mesmo que tenha usado conscientemente algumas técnicas performáticas em suas danças, Michael conseguia transformá-las na sinceridade de uma criança e de um xamã selvagem. Ele simplesmente dançava e apreciava a dança em si, e não o pensamento de que sua dança estivesse excitando alguém. Essa é a diferença entre ele e muitos outros artistas pop.

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Danças provenientes de raízes folclóricas antigas geralmente têm muitos movimentos de natureza sensual e sexual. Por exemplo, se você assistir aos ciganos espanhóis dançando em suas reuniões de família, poderá ver movimentos ousados em suas danças brincalhonas. No entanto, essas pessoas têm uma estrita ordem patriarcal em sua vida cotidiana, e as meninas são educadas na castidade, que é muito valorizada nessa sociedade.

Se você olhar para as danças folclóricas latino-americanas ou afro-americanas, também vai ver um monte de movimentos sexuais, incluindo a pegada na virilha. E observe a maneira como os brasileiros remexem as várias partes de seus corpos… Tudo isso é sexual. É um lembrete de que todas as danças folclóricas já foram atributos de cultos e de celebrações pagãs. Movimentos que sugeriam algo sexual tinham a intenção de louvar a fertilidade, a colheita e a prole saudável. O significado não era excitar o espectador, mas louvar e celebrar a vida, ou então realizar um ritual religioso. A energia emitida pelo povo nessas danças extáticas tinha por finalidade trazer bem-estar para a sua tribo e refletir sua união com as forças supremas e a natureza. A sexualidade de seus movimentos era uma ferramenta e não o objetivo final. É por isso que em todas essas culturas tais movimentos parecem sensuais, naturais e não obscenos. Tais movimentos são familiares para a população local – eles os veem e os dançam desde a infância e não anexam nenhuma importância especial. Os dançarinos não atravessam essa linha. Eles simplesmente fazem o que é natural pra eles.

Falando na dança folclórica africana, veja a forma como essas meninas do Senegal dançam nas ruas de sua aldeia. É um passatempo comum na infância, assim como as meninas americanas pulam corda nas calçadas em Indiana. Não há entrelinhas nisso. No entanto, as meninas do Senegal costumam fazer movimentos rápidos e rítmicos com seus quadris, às vezes agarrando a saia entre as pernas. Isso pode ser visto como algo impróprio nas tradicionais culturas europeias, mas a cultura africana não vê nenhum significado obsceno nessa dança, por isso, elas são realizadas sem uma sombra de vulgaridade.

Podemos ver movimentos semelhantes em danças executadas por profissionais – como o grupo Chuck Davis African American Dance Ensemble, que executa danças tradicionais africanas e afro-americanas. Claro, podemos notar as poses do corpo, a direção da mão e os movimentos dos pés, e a forma tão livre como eles são realizados. Muitos desses movimentos podem ser facilmente considerados vulgares se alguém quiser lhe emprestar um grau de obscenidade.

Em suma, um movimento se torna vulgar não pela parte do corpo que o dançarino utiliza, mas pela forma como é apresentado e percebido.

Voltando aos meus dias de infância, cheguei à conclusão de que toda a música e dança da cultura popular moderna se originou da África. Isso é bastante óbvio. No entanto, o filme Dance Black America que vi mais tarde na minha vida, deixou uma forte impressão em mim. Percebi que metade da nossa vida cotidiana está relacionada à África. Esse filme é um material maravilhoso. Ele traça a história da dança negra a partir das antigas raízes folclóricas até a dança moderna. Vemos o sapateado, várias peças de palco do começo do século 20, e o Lindy Hop. Todas essas são danças de heranças da África. E toda a cultura pop ocidental pega seus ritmos emprestados da África.

A coisa mais surpreendente é que os africanos mudaram completamente as noções de dança dos europeus. Onde estão as valsas e as gavotas europeias agora? Fechadas em seu pequeno nicho cultural – de dança de salão e outras danças históricas porém esquecidas. Mas o princípio africano da livre circulação de todas as partes do corpo governa qualquer discoteca ou boate. Mesmo as pessoas sem nenhum talento que simplesmente embaralham seus pés e agitam seus braços durante as músicas ainda produzem o eco da estética africana de movimento.

Motivos espanhóis

Por ter trabalhado por muitos anos com a dança e acultura flamenca, me perguntam se acho que essa cultura tenha influenciado a arte do Michael em alguma forma. Não vejo qualquer influência direta. Mas vejo, sim, alguns pontos de conexão.

Como já disse várias vezes anteriormente, as tradições de dança e música folclóricas ao redor do mundo se originaram de forma semelhante e por razões semelhantes, e isso incluiu o flamenco e a cultura afro-americana (incluindo o jazz). Ambos datam de antigas etnias, e ambos têm influência africana, embora em graus diferentes. Ambas as tradições têm as mesmas bases, como a improvisação, a plástica, o ritmo, a expressão de emoções fortes e um estado de êxtase da mente geralmente ligados a crenças místicas do passado.

O flamenco e a cultura afro-americana também são próximos porque são culturas preservadas durante séculos pelas populações que não cantavam somente nos momentos alegres, mas também nos encargos da vida, na solidão e na morte. Além disso, ambas as culturas têm conexões com o cristianismo, criando subgêneros interessantes dentro de festivais e cantos da igreja. As duas culturas têm se cruzado na história por diversas vezes, dando origem a interessantes híbridos e gêneros novos. Ainda hoje, essas culturas são simpáticas. A arte espanhola baseia-se em motivos africanos de várias formas, dando-nos estilos variados, como o flamenco jazz.

Voltando à questão da influência do flamenco no Michael, sei que ele se comunicava um pouco com Joaquin Cortés, um dos mais famosos dançarinos de flamenco. Podemos ver algumas semelhanças entre eles, tanto em sua arte como sua imagem no palco. Embora seja discutível se há uma influência direta, eles claramente têm algo em comum – como, por exemplo, o chapéu preto, a camiseta branca, os cabelos longos e uma hábil capacidade de trabalhar com o público.

As referências de Michael ao flamenco são claramente vistas em seu curta In the Closet. Em primeiro lugar, há vislumbres de dançarinas espanholas em longas saias brancas.
Mesmo não sendo realmente espanholas, elas dançam flamenco. Isso é evidente. Em segundo lugar, essas dançarinas e o Michael, todos têm penteados do estilo flamenco, com o cabelo puxado pra trás, bem apertado. Muitas pessoas observaram que era raro ver o Michael com o cabelo amarrado pra trás de forma tão suave.
Mas esse é um atributo estilístico: o conceito geral do vídeo, incluindo os figurinos e a cenografia, é feito com um toque de Espanha e América Latina, embora, talvez, o espanhol esteja dominando.
Até os sapatos de salto do Michael se assemelham aos usados pelos bailarinos espanhóis. Em contraste, a imagem de Naomi Campbell é claramente latino-americana. Ela usa um vestido curto no estilo da lambada brasileira.
O enredo do clipe é reproduzido num cenário de casas caiadas de branco, clássico do sul da Espanha e semelhantes às observadas na América Latina. Talvez essa escolha tenha sido feita para sublinhar o erotismo do vídeo, já que muitas pessoas associam as culturas espanhola e latino-americana à paixão e sensualidade.

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A dança na tela

Eu gostaria de falar sobre alguns outros vídeos do Michael e seus números de dança. Infelizmente, não posso discutir toda a sua maravilhosa obra, por isso mencionarei apenas alguns. Entre os clipes com números de danças coreografados, os meus favoritos são Bad, Smooth Criminal e Ghosts. Esses são os trabalhos mais profissionais e brilhantes em termos de preparação, filmagem e originalidade – uma excelente combinação de cinematografia e coreografia.

Smooth Criminal é, naturalmente, uma obra-prima da fase de configuração da dança dentro do quadro da câmera. Usa uma variedade de interiores, com passos de dança cuidadosamente coreografados e ângulos de câmera que conduzem o espectador de um interior para outro de uma forma que se encaixa com o enredo e a ação dramática. A produção de primeira classe cria uma sequência unificada, lógica de quadros que transmitem dança e teatro. Smooth Criminal é uma estilização maravilhosa do velho tema gangster de Hollywood, onde cada imagem é teatral, no bom sentido da palavra.

Havia até mesmo um lugar perfeito pro Michael injetar um momento de auto expressão original: uma pausa da música, com gemidos, gritos e balanços de cabeça. Um elemento maravilhosamente dramático e um lugar para selvageria e xamanismo; parecia um pouco com algum ritual africano, galinhas mortas e possessão demoníaca. Na minha opinião, esse é o melhor momento do vídeo, saindo ligeiramente de todo esse tema gangster de Hollywood e Broadway e criando um contraste perfeito que não colide com o estilo geral.

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Passando ao próximo segmento de dança, em seu curta de Bad, Michael está absolutamente ótimo em sua agressividade e no trabalho com a câmera como uma parceria. Toda a peça é construída sobre essa abordagem. O corpo de baile segue Michael de forma síncrona. Essa é a sua principal função, e parece um impulso unido, um desafio: o movimento na câmera convence o espectador de que esse desafio é real. E, então, na parte final à capella, há um detalhe interessante: toda a atenção está tão focada em Michael que não podemos ver que os outros não conseguem chegar à metade de seu nervo e do seu frenesi, do jeito como ele praticamente se arrepia de emoção.
Ele está entregando tudo o que pode, seus olhos escuros de raiva, enquanto os homens que o rodeiam estão relativamente calmos. Basta dar uma boa olhada neles quando você tem a chance. É um contraste engraçado.

Bad é certamente um dos melhores trabalhos de Michael, aquele em que descobrimos nele um ator de teatro capaz de retratar dois personagens muito diferentes. Primeiro, ele é um garoto humilde que inicialmente vai contra o seu coração se encaixar com más companhias. Mas então ele se transforma num homem autoconfiante – o homem que o humilde estudante quer ser – para combater o mal.

Ghosts é outro filme interessante. Sua coreografia complementa a história, e faz isso de uma forma vívida, mostrando muitos movimentos de dança inovadores. Na verdade, eu acredito que a maior realização do clipe é o imaginário criado pela coreografia. Ghosts é muitas vezes comparado ao famoso vídeo de Thriller, porque, à primeira vista, parece ser simplesmente o uso repetido de um tema bem-sucedido. No entanto, ao contrário de Thriller, o filme aborda um profundo assunto filosófico sobre a relação do artista com o público, entre uma personalidade marcante e homens comuns. Tão importante quanto isso, ele também oferece um espaço bem mais amplo para a coreografia.

Na verdade, Thriller tem apenas uma curta peça de dança, que é encenada de modo a preservar o equilíbrio entre profissionalismo e simplicidade. Por um lado, é uma grande obra teatral onde os dançarinos se divertem encenando zumbis. Isso lhes dá a chance de mostrar sua flexibilidade e sua expressividade. Por outro lado, a dança de Thriller é mais utilizada nos flashmobs, e o motivo não é somente a imensa popularidade da dança, mas também a coreografia bem fácil de aprender – pelo menos aproximadamente, se não perfeitamente – assim, um grande grupo de amadores pode dançar mais ou menos juntos.

As peças de dança de Ghosts são muito mais difíceis e exigem muito mais habilidade do que os movimentos de Thriller.
Os personagens têm mais tempo na tela e uma oportunidade melhor para se mostrar.
Essa dança tem muito mais inovações e curiosidades coreográficas, elementos dramáticos que criam uma ilusão de estranheza em torno de um grupo de fantasmas do além.
O próprio Michael desempenha algumas funções diferentes, e cada um desses papeis retrata ligeiramente sua plástica para conterem o caráter atual.
Por exemplo, ele executa seus famosos passos de dança de uma maneira típica e muito reconhecível ao criar a dança do esqueleto (com a ajuda de câmeras de captura de movimento) apenas para ajudar o público a entender quem está dançando naquela imagem do esqueleto.
Mas quando usa um conjunto similar de movimentos ao dançar no papel do prefeito gordo, ele adiciona muita ironia, e a dança se torna cômica.
Então, ele interpreta ele mesmo, o Maestro, e não vai para os clichês, mas apresenta um conjunto de elementos inovadores nunca vistos antes, que fazem a coreografia do clipe absolutamente diferente do que qualquer uma de suas danças anteriores.

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Também quero acrescentar algumas palavras sobre o número de palco de Billie Jean, que é talvez a peça mais famosa dentre todas as danças solo de Michael. É a sua obra-prima, baseada no minimalismo, como um monólogo encenado num cenário nu, acentuado apenas pela iluminação. Só um verdadeiro mestre pode entreter as pessoas e não ser chato numa forma tão mínima de exibição. É muito mais interessante pra mim, pessoalmente, assistir a uma improvisação, quando o artista mostra algo espontâneo e único.
Billie Jean sempre tem um lugar pra improvisação. Graças à sua elegância simples e à sua individualidade, a performance de Billie Jean formou uma das imagens mais memoráveis de Michael Jackson por muitos anos.
É essa a dança mais usada para imitações de Michael (que, devo dizer, na maior parte das vezes parecem miseráveis). E foi Billie Jean que se tornou a sensação da Motown 25 e levou Michael, o artista, a uma altura completamente nova.

É óbvio para mim que a performance dele na Motown 25 em 1983 é diferente de todas as suas versões posteriores, e de muitas formas. Ainda não é perfeita, e o moonwalk não é executado tão bem como nas versões posteriores. Talvez o piso não estivesse escorregadio o suficiente. Ainda assim, a carga emocional da dança é tão eletrizante que nunca foi acompanhada por nada.

No final da performance da Motown 25, quando Michael para e olha pra plateia… Não sei como descrever a expressão em seus olhos, mas eu entendo tudo isso. É o tipo de momento que um par de minutos pode mudar tudo. Você parece ter um corpo diferente.
Você tenta memorizar tudo, mas fica apenas com fragmentos, partes de memórias, lembranças de sentimentos. É uma forte onda de poder que parece que você trabalhou durante umas duas horas em vez daqueles dois minutos. E, é claro, é o contato mais poderoso com o público – o que só te inspira mais. Se o público é exigente e você precisa agradá-lo com algo novo mostrado pela primeira vez, esse é um momento muito especial.
Eu sempre assisto a essa apresentação e penso que Michael estava passando um teste lá. Ele nem tinha um refletor. Era apenas um artista no palco. Mas de alguma forma parece mais espetacular do que shows caros com efeitos especiais.

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This Is It

A última questão que eu quero abordar são as habilidades de Michael como um dançarino, e se ele perdeu algumas dessas habilidades quando mais velho. Infelizmente, tenho ouvido opiniões do tipo a respeito de suas últimas performances em This Is It.

Vou colocar dessa forma: há muitas maneiras de olhar para a dança, mas sempre devemos lembrar que ela é uma arte e não um esporte. Já disse isso, mas é importante dizer de novo. Na verdade, é a coisa principal. A dança é uma arte, não um esporte.

Certamente, a dança está intimamente ligada com o corpo, então o condicionamento físico e as habilidades técnicas são fatores ao julgar o desempenho de um dançarino. Alguns aspectos técnicos são mais importantes no balé, outros, em danças folclóricas, e outros ainda na dança pop. Ainda assim, qualquer que seja a importância da técnica, temos que começar com o conteúdo artístico. A técnica vem em segundo lugar. Isso não nega a necessidade de determinados princípios na performance desse ou daquele movimento. Mas estamos falando de domínio de uma grande estrela, e não de iniciantes.

No balé russo, os dançarinos se aposentam aos 38. Dá pra imaginar? Não aos 50, ou aos 45 – 38! É claro, a carga de trabalho é enorme. É por isso que uma idade de aposentadoria antecipada é específica no balé clássico e não uma regra comum pra qualquer tipo de dança. Ainda assim, é preciso lembrar que não há tal como aposentadoria aos 38.

Naturalmente, algumas estrelas do balé dançam por muito mais tempo. Maya Plisetskaya ainda dançava quando tinha 70 anos. Mas todo mundo entende que a idade faz do seu modo. Tal artista não faria tantas performances, embora os ingressos possam estar em alta demanda porque as pessoas querem ver uma grande estrela tanto aos 20 quanto aos 70. Eles querem ver individualidade e conteúdo, e não um fouetté perfeito. Individualidade é a principal coisa na arte da dança, e o elemento principal na performance do artista.

Vou dar outro exemplo: no flamenco, as pessoas dançam até uma idade muito avançada. Não há aposentadoria aos 38. Na verdade, vou ainda mais longe e direi que, no geral, sua carreira começa depois dos 30. Ninguém pode afastar as mudanças físicas do envelhecimento de um corpo – ainda assim, os espanhois dançam, mesmo quando estão bastante velhos, porque, mais uma vez, o principal é o conteúdo artístico. No flamenco, espiritualidade e arte são mais importantes que a técnica. É por isso que os dançarinos mais velhos são, por vezes, mais apreciados do que os mais jovens: eles têm algo a dizer quando sobem ao palco. Essa é uma arte de pessoas maduras. Você só pode alcançar o sucesso nessa arte quando tem experiência de vida suficiente. E é muito importante haver uma personalidade. Para chegar no palco e dizer algo ao público, você tem que ser diferente e se destacar.

Estou dizendo isso para destacar a diferença, não somente entre os elementos primários e secundários na arte, mas também entre as habilidades de um mestre e as habilidades dos artistas comuns. É importante compreender que, às vezes, um mestre é excelente não por ser capaz de fazer algo que exige grande esforço físico, mas por fazê-lo de uma maneira incrível e única. Artistas comuns muitas vezes te distraem dando um salto muito alto ou aprendendo perfeitamente a sequência feita pelo coreógrafo. Em ambos os casos, de fato, são profissionais. Mas esse profissionalismo serve a diferentes propósitos.

Michael Jackson é um dançarino pop cujo trabalho se enquadra na categoria de artes cênicas, e não de esportes. Como na dança folclórica e no teatro clássico, ele criou um diálogo significativo com o público e com Deus. Essa foi a sua principal mensagem; isso era o que ele trazia para o público – tanto de forma intuitiva quanto conscientemente, como um profissional e um artista original.

Ele tinha 50 anos, mas a sua plástica era perfeita. O que mais ele precisava para conseguir performar em seu gênero? Nada.

Sim, eu acredito que ele não conseguia dançar por tantas horas com a mesma energia que tinha aos 20 ou 30. Ser um homem saudável de 50 anos no palco ainda não é tão fácil como estar no palco aos 30 – há uma diferença. Mas ele não precisava colocar tanto esforço. As maratonas são para os jovens. Michael só precisava mostrar a sua individualidade, a sua plástica, seu temperamento e sua paixão. E isso é tudo. Preciso dizer que ele tinha tudo isso?

Então, quando Michael é mostrado em This Is It, posso dizer, mesmo deixando qualquer simpatia de lado, que ele era muito melhor que a sua equipe de dança, porque seu corpo vivia cada segundo da dança. Seus movimentos eram naturais pra ele. E não importa o quanto esses jovens brilhantes tentem, nunca conseguiriam ser como ele, mesmo que fossem muito talentosos ou mais fortes fisicamente. Honestamente, eu nem deveria explicar isso, porque é uma verdade fundamental. O fato de eu ter que me debruçar sobre isso é irritante porque algumas pessoas simplesmente não entendem o básico. Esse mal-entendido me deixa triste, não só em relação a um dançarino tão notável como Michael Jackson, mas também no contexto mais amplo da compreensão da dança como uma forma de arte e fenômeno social.

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Gostaria de notar só mais uma coisa importante: Michael não apenas ia ficando mais velho, mas também vinha sofrendo uma série de provocações e tribulações em sua vida. Isso é um fato. Mas se ele era saudável ou não, realmente não muda nada em suas habilidades. É claro que ele teve uma vida muito difícil e ainda assim nunca perdera a capacidade de cantar e dançar soberbamente. O filme demonstra isso em cada segundo. Só posso dizer que os ensaios certamente devem ter sido bastante cansativos pro Michael, mas ele ainda sabia como trabalhar duro e se apresentar com maestria.

Quanto à forma como ele dança no filme, cada quadro é uma pequena obra-prima. Muitas vezes, a dança não é muito complexa. É óbvio que Michael improvisa, de vez em quando repetindo uma sequência várias e várias vezes, o que é uma ocorrência comum na improvisação. Não é estressante pra ele; é uma forma de relaxamento. Em outras ocasiões, ele está simplesmente brincando. Mas é maravilhoso. Mesmo quando está brincando, ele é um gênio; ele tem um corpo de gênio. Suas brincadeiras também são únicas e não podem ser imitadas.

Uma vez, Michael disse ao jornalista Martin Bashir que um dançarino não deve pensar, e sim sentir. Isso é absolutamente correto. Você tem que ir com o fluxo. Pode combinar a música ou desenvolver sem ela, como uma visualização independente. E isso não significa que você esvazia a sua cabeça – a dança é uma informação não-verbal. Mas não dá pra se sentir psicologicamente estressado quando se dança, ou então vai falhar. Você tem que se sentir livre. Se falamos de elementos tecnicamente complexos, como saltos ou giros, eles exigem muita concentração. Mas a plástica que exteriormente parece muito complexa é muitas vezes percebida pelo dançarino como um elemento de relaxamento. As ondas do corpo, o arqueamento dos braços, a flexão do pescoço e o pé estendido – tudo isso é feito com a sensação de se estar livre e à vontade, como uma caminhada diária. Sua plástica na dança torna-se a sua linguagem corporal natural.

Pessoas como Michael nunca dominam a plástica passo a passo. Elas vivem com ela. Você não vai pra aula de balé pensando como fazer um movimento. Em vez disso, você pega o sentimento daquele movimento, você o faz, e se torna tão natural quanto respirar. Se sabe como fazê-lo, você vai saber sempre – desde que as funções motoras estejam intactas.

Quando os dançarinos dizem que a dança é um inferno de um treino, isso significa que, depois de 5 a 20 minutos de dança, você se cansa, e depois de algumas horas você se sente horrivelmente desgastado. Mas isso não significa que você fica pensando “Meu Deus, isso é tão difícil!”. Dançar faz você se sentir autoconfiante e feliz, apesar da carga de trabalho físico. Às vezes, a dança faz seus pés sangrarem e seus ligamentos ficarem doloridos. Mas quando dança, você tenta ignorar a dor e, muitas vezes, ela parece mais fraca do que realmente é. Quando você está no êxtase, a dor pode até desaparecer completamente. Isso acontece.
No palco, tudo parece maravilhoso, excelente e inesperado. Você está no limite da adrenalina. E às vezes você nem sente a dor ou as consequências de todo o treino até o dia seguinte.

Não sou médico nem cientista que pode descrever todos os processos cerebrais que ocorrem nesse estado de espírito. Mas posso dizer que o palco geralmente revela habilidades e reservas ocultas do corpo, que aparecem devido à nossa capacidade de usar o subconsciente e alterar o estado de consciência. Novamente, voltamos ao ponto principal desse artigo: Michael vivia na dança, por isso é absurdo dizer que suas habilidades finais poderiam ser mais fracas que as anteriores.

Um Poeta na Dança

Eu poderia ir longe, mas é hora de terminar. Pintei um quadro o qual você pode adicionar mais detalhes continuamente, se quiser, porque o tema da arte da dança em seu sentido global é inesgotável, e Michael é uma constante nisso. Só espero ter sido capaz de demonstrar os principais elementos da imagem.

Para resumir a discussão, em primeiro lugar, vou repetir que a dança conecta o espiritual e o material, abrindo o mistério de todos os mistérios, levando a nossa consciência muito além de todos os limites e grilhões.

Há muitos dançarinos bons, mas apenas alguns deles são Artistas e Entertainers. O gênero e a escala de popularidade não importam. O importante é o quanto o artista se dedica à sua arte, até que ponto ele percebe o seu dom e quanto o compartilha com o público. O dom não é só talento ou brilho. O dom é uma oportunidade de se tornar um servo da dança com a ajuda de seu talento dado por Deus, amando e sentindo o seu significado sagrado e universal.

Michael Jackson era um daqueles poetas dançarinos que amavam a dança de forma abnegada e trazia a sua essência para o palco.
Ele trazia pros telespectadores uma faísca que os levava além dos limites convencionais, permitindo-lhes se conectar com a esfera de energia frenética, emoção e beleza que não podem ser percebidas pela lógica, mas só podem ser sentidas. Ele podia despir as emoções e encontrar detalhes incríveis no fluxo da improvisação apenas como um dançarino raro – e nenhum outro artista pop – consegue.
A espiritualidade e a estética que ele trazia ao palco foram únicas e sem precedentes. A complexidade e mesmo a simplicidade do que ele estava fazendo se fundiam em algo brilhante. No gênero pop, ele permanecerá incomparável por um tempo muito longo. Gostaria que todos entendesse isso, e não apenas os fãs.

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Sou feliz por ter vivido na época em que ele estava vivo. E sou feliz por tê-lo visto pela primeira vez num momento em que podia assistir aos seus vídeos sem comentários desnecessários e julgá-lo sem preconceitos. Anos mais tarde, se tornou uma tendência chamá-lo de “maluco” e monstro, e então era quase assustador admitir que você gostava de Michael Jackson. Ainda assim, isso nunca me impediu de ver a beleza e a espiritualidade da arte dele.

É doloroso saber como a vida dele terminou. É lamentável o fato de que o talento tende a ser visto numa luz negativa quando o artista está vivo. Infelizmente, essa parece ser a natureza humana. Uma pessoa talentosa e versátil, incrivelmente talentosa na música, na dança e no teatro, é conhecida pelo público não pelos melhores exemplos de seu trabalho, mas por fragmentos de vídeo mostrados na TV e por manchetes de tabloides indignos de qualquer atenção. Hoje, não há um documentário decente sobre ele na TV – tudo o que você vê é algum material amador patético com nomes confusos, datas e fatos que não dizem nada sobre o gênio criativo de Michael. As melhores gravações de shows e filmes ainda são vistas apenas pelos seus fãs. É uma pena, de verdade. Só espero que a justiça prevaleça um dia. E nós devemos fazer tudo o que pudermos para ajudá-la a prevalecer com nossas modestas contribuições.

Ainda acredito que virá um dia em que Michael Jackson, o artista, se tornará clássico e será lembrado não apenas como um mero ídolo pop, mas como um grande artista e humanitário “dançando o seu sonho”.

Amor (Lubov Fadeeva).

Fonte-  http://en.michaeljackson.ru/michael-jackson-the-dancer-of-the-dream/

Tradução de Laís Alves

Sobre PoemforMJ

Michael ... "Quando olho no dentro dos seus olhos eu sei que é verdade.Deus deve ter gasto um pouco mais de tempo em você!"
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2 respostas para Michael Jackson: O Dançarino do Sonho

  1. Mimijak disse:

    Michael é tudo de bom, é apaixonante, quente, inebriante, viral, é explosão pura de sensualidade, êxtase, resumindo é tesão puro e do melhor, naturalmente sem esforço algum, tudo parece estar à flor da pele, a Música, a dança, a poesia, os sentimentos, e por isso é tão contagiante, inesquecível, incomparável, é o tudo e o nada ao mesmo tempo, ele realmente se transforma num Xamã, hipnotizante de fato….Lindo o Texto Rita parabéns…

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